segunda-feira, 11 de outubro de 2010
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Considerações Preliminares
Após ter lido Além do Olhar de Odegine Koppe tenho, a princípio, somente uma afirmação a fazer: “Admirável Livro Novo”. Trata-se, pois, de uma odisséia. Uma odisséia riquíssima em valores estéticos universais e atemporais. Penso que qualquer obra que pretende ser chamada de “Literatura” tem de ser escrita para a humanidade de qualquer época: seria mais ou menos aquilo que o grande Gustave Flaubert chamava de “tinta que não desbota” [1]. Regionalismos e nacionalismo artístico são obtusos, ou se é artista ou se é antropólogo, as duas coisas ao mesmo tempo não combinam. Ora, peguemos como exemplo o próprio Machado de Assis, este foi acusado pelos modernistas da Semana de 22 de ser excessivamente “estrangeiro”. Machado não era “estrangeiro”, era na verdade um escritor cosmopolita que pode ser lido em qualquer época, tanto que até hoje muitos críticos continuam a interpretar - as vezes até cometendo interpretações estapafúrdias - o famoso Dom Casmurro.
Neste trabalho de crítica o principal ponto de análise são os elementos de prospecção simbólica e mitológica presentes de maneira bastante significativa em todo o livro. Desde as personalidades de deuses mitológicos como Deméter, Hades e sobretudo Perséfone, até situações de âmbito teológico como a crise sacrificial e a mortificação, não resta dúvidas que Além do Olhar possui cenas fortes e muito impressionantes conferindo à narrativa uma densidade trágica e angustiada.trazendo consigo grande valor literário no gênero de ficção.
Quero lembrar ao leitor que ater-me-ei - no que tange à interpretação de suas respectivas simbologias e trajetórias ao longo da história - somente aos personagens principais da ficção. Pois se se escrevesse minuciosamente acerca de todos os personagens - mesmo aqueles que são coadjuvantes e têm uma simbologia mitológica já bastante conhecida - escreveríamos um outro livro talvez até mais volumoso do que Alem do Olhar.
A Fertilidade de Deméter
O simbolismo é rico - pelo menos o quanto pude absorver - sobretudo no que tange à apoteose de Perséfone e as passagens iniciais de Deméter (Ceres) nos primeiros capítulos, sobretudo aquela em que as mulheres, por representarem a fecundidade, cuidam das plantações.
Aliás, uma das primeiras teofanias da Terra, enquanto camada telúrica, foi a sua “maternidade”, sua inesgotável capacidade de dar fruto. Antes de ser considerada Deusa-Mãe, divindade da fertilidade, a Terra (Gaia) impôs-se diretamente como mãe Tellus Mater ou “Terra-Mãe-de-Tudo” de que Ésquilo faz menção em Prometeu. Deméter, fértil (teve oito filhos) é considerada, como Deusa da Agricultura, e pelo fato de ser solidária com outros centros de fecundidade cósmica - Terra, Lua - a mulher de um modo geral adquiria o prestígio do poder de influir na fertilidade e de poder distribuí-la. No alto da colina de Trulles, onde era localizado o novo reino de Deméter, (pg. 58)
“...as mulheres nobres eram vistas como senhoras supremas da vida e da morte; seu poder aumentava quando estavam ligadas ao cultivo da terra. As sementes eram por suas mãos abençoadas para nascerem viçosas; assim como também os campos eram arados e cultivados pelas mulheres, pois carregavam o fruto da vida, o princípio de tudo. Portanto, um campo arado pelas mãos de uma mulher, quando lançadas as sementes, certamente viriam bons frutos.
As senhoras da terra, no primeiro dia de plantio, andavam com os pés descalços pelos campos semeados, transmitindo força vital à semente, embaixo de seus pés. Quando grávidas, tocavam em todo trigo estocado nos celeiros, para que sempre ali estivesse. Como seu ventre abrigava a vida, os celeiros[2] também abrigavam a planta da vida.”
Interessante é que esta hierofania é encontrada até hoje em certas civilizações. Assim é apanágio na mulher da Itália do Sul “que qualquer trabalho por ela empreendido terá bom resultado se esta estiver grávida e que tudo o que seja semeado por ela crescerá como cresce o seu ventre[3]”. É mencionado no livro que,
“ ... tais regalias eram exclusivas das mulheres que tinham título de nobreza.”
Em Uganda uma mulher estéril não é considerada nobre e sim perigosa à horta, podendo o marido pedir o divórcio alegando este motivo de ordem econômica[4]. No direito canônico católico é passível de nulidade um casamento no qual a mulher não seja fértil.
O caráter sagrado da fecundidade e da reprodução é uma das mais antigas manifestações religiosas das civilizações, o deve ser levado em conta, sem dúvida. Em contraposição a isso, ouve-se com extrema naturalidade falar-se abertamente em “controles de natalidade” como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, esquecendo completamente a importância que a maternidade e a prole têm à vida humana.
Deméter também representa na mitologia a organização e a lei. Para os gregos a civilização resultava da agricultura: ao ensinar-lhes como cultivar a terra, a deusa ensinou-lhes também a organizar-se em sociedade, para constituir e fortalecer costumes que levassem os homens a harmonizar-se na polis. Mais tarde os preceitos de Deméter foram arrolados nas tábuas das “leis de Tripólemo”, rei de Elêusis. Na condição de legisladora e protetora das leis, Deméter presidia as assembléias populares, realizadas logo após as colheitas.
Tais representações são também retratadas no livro. Deméter, após tornar-se Duquesa de Queens e, com isso, já bastante proeminente entre o seu povo, era mediadora entre causas judiciais, como mostra o trecho do livro que menciona que a duquesa cobria-se com seu manto a fim “julgar causas de injustiças no campo, sempre pronunciando sentenças muito severas”. É incrível o encaixe entre a ficção moderna e os escritos mitológicos antigos, a autora consegue com muita propriedade fazer uma junção perfeita entre a história que criou e o mito.
O mesmo ocorre com a personagem e filha de Deméter: Perséfone.
A Apoteose de Perséfone
Não poderíamos falar desta forte personagem sem mencionar a riqueza simbólica de sua saga. Elementos mitológicos como a crise sacrificial, o parricídio e símbolos cósmicos como o sangue, a árvore, a lama, a descida, a mortificação e a apoteose. Para a interpretação dessa simbologia dois autores são fundamentais: René Girard e Mircea Eliade. Do primeiro autor o livro A Violência e o Sagrado que abordará a crise sacrificial e o parricídio e do segundo o Tratado de História das Religiões, já mencionado anteriormente, abordará as demais simbologias cosmológicas.
Peséfone era a filha “estranha”. No lar toda a desconfiança e culpa era sobre ela recaída; demonstrações de ódio paterno e materno eram constantes e Perséfone vivia num clima doméstico de violência iminente. Em primeiro lugar temos de levar em conta que ela era a mais velha das filhas e sempre será a primeira a passar por provações. As demais terão já a experiência da mais velha, sendo, portanto o caminho que estas seguirão “mais fácil”.
O que desencadeou o drama sacrificial e o parricídio de Perséfone foi o seu sangue menstrual. Segundo os estudos de Girard, entre os “tabus” primitivos, um dos mais conhecidos refere-se ao sangue menstrual. Ele é impuro. As mulheres menstruadas, ou que estão perto da chegada da menstruação, devem permanecer isoladas. São proibidas de tocar nos objetos de uso comum, e por vezes nos próprios alimentos. Por que esta impureza? Nas sociedades primitivas qualquer sangue derramado fora do sacrifícios rituais, um acidente por exemplo, é impuro, “chama a violência”.
Em Além do Olhar, vemos um fenômeno interessante que é o parricídio como elemento do sacrifício. Aqui o sacrificado foi o pai, semelhante ao Édipo de Sófocles. Perséfone qual a Édipo, no momento do ato não sabia que a vítima do assassínio cometido fora o próprio pai. Édipo, porque nunca havia conhecido o pai e Perséfone porque no momento azado “não era ela”, fora esta tomada por um espírito, um ente que ela desconhecia e temia. Um elemento também importante é a presença de uma árvore no alto de uma colina, teatro no qual realizara-se o parricídio. Esta “árvore no alto da colina” era a confidente de Perséfone. Vale lembrar ainda que em muitos locais destinados a certos rituais sagrados era presente a “árvore-microcosmo” de que Mircea Eliade fala em seu livro.
“Os mais arcaicos lugares sagrados de que temos conhecimento constituem um microcosmos: paisagens de pedras, de águas e de árvores[5]”
Percebe-se que Perséfone tentava lavar as manchas de seu sangue menstrual num “riacho”; em seguida seu pai a perseguia e, esta vendo-o, saiu correndo pelo meio de “árvores” que “seguiam-na” em seu desespero veloz, e um pouco mais adiante a autora menciona que fazia frio no alto de uma “colina”. Este teatro em que a nossa heroína foi parar constitui, portanto, um microcosmo, um lugar sagrado que tem poderes muito superiores aos dela e que representará o início de sua trajetória até o reino (reino dos infernos) em que ela encontrará o seu rei: Hades.
Ainda sobre a árvore[6] e ainda usando o trabalho de Mircea Eliade, encontramos uma significação importante que se adeqüa perfeitamente à presente obra. Trata-se, pois, do mito da “árvore cósmica”. Segundo Eliade, na mitologia nórdica
“é Yggdrasil a árvore cósmica por excelência. As suas raízes mergulham no coração da Terra, até o lugar onde se encontra o reino dos gigantes e o Inferno”
Curioso é que Perséfone, logo após este episódio, já inicia o seu percurso até os mais recônditos pontos do inferno. Mas, antes, deve ela passar por provações, e uma delas é a mortificação. Na condição de “mortificação”, segundo Huxley em seu livro A Filosofia Perene, “o progresso se faz ao longo do fio de uma faca”. Ou seja, é uma prática difícil, pois temos de nos abster do nosso eu a fim de atingir um estado de plenitude. Simbolicamente Perséfone passou por esta prática difícil. Ela teve de enfrentar a lama, o esterco, a morbidez de um caminho que poucos suportariam, mas que, no entanto, foi compensatório ela alcançou com o próprio esforço, só, a apoteose de sua alma.
Admirável Mundo Novo
Na parte final do livro temos um mundo no qual a natalidade e o tempo de vida eram controlados por computadores, constituindo a mais pura negação da condição humana. O divino - nesse Brave New World que tão genialmente Aldous Huxley mostrou - morreu. Ou seja, há uma antinomia entre o mundo humano imperfeito e o frio, racional e aparentemente perfeito mundo cibernético que Dafni conseguiu mostrar e romper através de seus poderes divinos, poderes estes semelhantes ao fogo de Prometeu. Tal ação culminou na libertação do gênero humano dos grilhões daquilo que a autora denominou “não-ser” , criando uma nova gênese para a raça humana nas pessoas de Bael e Dãnãe, o que remonta ao antigo mito de Adão e Eva que, após conhecerem “o amor” tiveram a capacidade divina de gerar novos semelhantes.
Percebe-se também nesta parte da obra uma grande semelhança com a Alegoria da Caverna de Platão, pois lá também vemos pessoas presas a um mundo aparente e horrível e que são alertadas que aquilo nada mais é do que uma aparência sendo, portanto, a realidade algo muito superior e mais belo.
Não resta dúvida que hoje estamos mais próximos desse mundo bizarro, relato nos capítulos finais da obra, que do mundo que reflete o universo maravilhoso da alma humana, com todas as imperfeições que nos fazem ser o que somos. A ciência aplicada cada vez mais tem dominado a natureza, afastando-nos do divino e do sagrado, tornado-nos cada vez mais pretensiosos[7]. Leon Tolstói, em um dos seus livros disse que aquele que detiver o poder da ciência aplicada, conseqüentemente deterá poderes absolutos sobre os semelhantes. Mahatma Gandhi que tinha por Tolstói uma admiração quase sagrada, manteve uma conduta de vida toda galgada no pensamento do magnífico russo. Tanto que um dos motivos pelo qual ele era hostil à Inglaterra era pelo fato desta insistir na transmissão de sua técnica ao povo hindu. Gandhi, então, chegava ao ponto de cometer atitudes estúpidas como beber da própria urina à guisa de boicotar o sistema de tratamento água importado da Inglaterra; e também tecer as próprias roupas num tear que ele mesmo construiu a fim de evitar as tecelagens britânicas....
O importante mesmo é mencionar que nações que detêm o poder tecnológico detêm poder político. Da guerra franco-prussiana passando pelas duas grandes guerras até a guerra-fria, notoriamente não se constituíam somente por batalhas de front, eram muito mais do que isso, eram, pois, um desafio entre cientistas de ambos os lados. O que determinou, ao fim da segunda guerra, o lançamento da bomba atômica e a supremacia Norte-Americana no mundo. Hoje as nações que compõem o conselho de segurança da ONU nada mais são do que as possuidoras da tecnologia de beneficiamento do plutônio necessárias ao fabrico de armas nucleares.
Um outro aspecto importantíssimo e notório no conteúdo do livro é o controle pleno que um computador central tem sobre os indivíduos. Não há individuação alguma, as pessoas são somente súditos obedientes de uma máquina, ou, se preferirmos, de um poder central aparentemente bom cuja opressão, por ser tão enorme, não mais impressiona ninguém. No livro de Huxley temos uma situação idêntica; e no 1984 de George Orwell temos uma outra mais idêntica ainda, figurada pelos big brothers. Estes são uma representação dos olhos onipresentes do estado moderno. A Inglaterra - tida como a pátria moderna do liberalismo - é hoje (depois vem a Suécia) o país que mais se tem câmeras vigiando as pessoas, constituindo, ipso facto, um poder despótico jamais sonhado por homens como Julio César, Gengis Khan, Luis XIV ou até mesmo Napoleão; tenho certeza que eles achariam isso um absurdo. Entretanto, o povo acha isso até bonitinho, por estar de tal forma acostumado com essa opressão.
O Weltgeist hegeliano, o “Deus-Morto” de Nietzche, o Leviatã hobbesiano estão mais presentes e vivos do que nunca em nossas vidas. Somos tutelados por estado que nos diz o que estudar, o que é ideal para as crianças comerem, o que vender e até como se deve fazer amor; sem contar, obviamente, o serviço militar obrigatório que homens como o próprio Julio César, Aníbal, Napoleão achariam um vilipêndio.
Há que mencionar também a massificação proporcionada pelas grandes corporações particulares que nos impõem desejos, anseios, pensamentos, opiniões, gostos utilizando o instrumento da propaganda excessiva, transformando-nos simplesmente em “consumidores”.
A usurpação da alma individual e da religião é magnificamente demonstrada por Carl Gustav Jung eu um dos seus últimos trabalhos O Eu Desconhecido[8]. Pois, segundo o psicólogo suíço, o Estado personificando o próprio Ego coletivo, está por natureza destinado a conformar e despersonalizar a alma individual.
Alguns trechos escolhidos e transcritos abaixo expressam com extrema precisão o que as almas humanas enfrentam sob os tentáculos do estado moderno:
“A política do estado é exaltada a um credo, o líder, ou chefe do partido, torna-se um semi-deus além do bem e do mal, e seus dedicados membros são honrados como heróis, mártires apóstolos e missionários. Existe só uma verdade e nenhuma outra além dela. Esta é sacrossanta e acima de crítica. Quem pensar diferente é herético...Somente o chefe do partido pode interpretar autenticamente a doutrina do Estado, e ele o faz de maneira que lhe apraz.”[9]
Um outro trecho muito interessante:
“Os fins da religião - liberação do mal, reconciliação com Deus, recompensas no além, e assim por diante - transformam-se em promessas relativas à libertação do cuidado pelo cotidiano, à justa distribuição de bens materiais, à prosperidade material futura, à diminuição dos dias de trabalho. Que o cumprimento destas promessas esteja tão longe quanto o Paraíso, apenas fornece mais uma analogia e sublinha o fato de que as massas têm sido convertidas de uma aspiração extra-mundana para uma crença puramente terrestre, a qual é exaltada com exatamente o mesmo fervor religioso e o exclusivismo que os credos apresentam em outra direção”[10].
No livro ve-se Dafni personificando uma retomada da alma divina em contraposição ao mecanicismo do mundo cibernético de Bael e Dãnãe. No mundo de onde Dafni veio, o drama da vida, a mortificação, as hierofanias, as sagas, eram nitidamente individuais. Neste mundo futurístico e bizarro há somente um conformismo coletivo, sem dramas, sem eu, sem alma. O contraponto que a autora faz entre os dois mostra-nos, em suma, a perda constante que o Eu individual tem em favor do Impessoal coletivo. O eu realmente tem ficado cada vez mais desconhecido e nós não nos damos conta disso.
E, para terminar esta pretensão de crítica - na verdade é a primeira vez que escrevo algo do gênero - tenho a dizer que ainda ficou muita coisa além do meu olhar mas que eu deixo para os olhos de leitores mais criteriosos do que eu.
Curitiba, abril, de 1999.
Paulo Paschoal
Até onde conhecemos? A vida e a morte, o sonho e a realidade...
A vida e os sonhos são as páginas de um só e mesmo livro.
“Quanto mais baixo está o homem intelectualmente colocado, menos a existência lhe parece enigmática: tudo que existe, tal como existe lhe parece compreensível em si mesmo. Na origem do gênero humano, colocado mais a preceito para descer às fontes mesma da natureza orgânica, o homem parece ter possuído uma facilidade mais energética do conhecimento intuitivo e, ademais, uma disposição intelectual mais justa, o que o tornava capaz de uma compreensão mais exata e mais imediata do sentido da natureza e lhe permitia satisfazer mais dignamente sua necessidade metafísica. Um sistema, ou religião ao contrário, destinado à massa inumeráveis dos que incapazes de exame e de reflexão, jamais alcançariam as verdades mais profundas e as de mais difícil compreensão.”
Vivemos num século de alegorias, em que o homem, de olhos vendados para o infinito, é jogado na imediatez de um mundo acabado, numa corrente de homens sem vida própria ou sentido de justiça.
Temos uma visão de homem e mundo exato, numérico, cartesiano, que se completa com seus cofres cheios, que se faz através da desventura de outrem, pois o que vale é o adquirir, o ter . A essência humana, a existência, que a torna capaz de brilho e infindáveis objetivos, foi esquecida.
Cabe agora lembrar que o ser não é só corpo, e que nem tudo que os olhos vêem, é a nítida imagem finda da coisa. Os olhos humanos não abrangem o infinito e nenhuma máquina, pode captar o finito infinito do universo dos mistérios da alma e do corpo. Já é tempo de deixar cair os véus de Mãya que vendam nossos olhos, e sairmos do imediato, do ponto final para a reticência da vida, ou melhor, das vidas que nos seguem e que a nós sucedem.
A autora.
O grifo é Arthur Schopenhauer (O Pensamento Vivo de Schopenhauer).
Era uma noite como outras, dessas em que a melancolia se faz companheira gélida dos seres esquecidos pelo mundo em um canto fétido, entregues às correntes dos ventos do desespero e do infortúnio, dos que sem pedir existem e continuam a viver mesmo sem querer.
Danãe, mergulhada na escuridão infinita do tédio, quase desfalecia; seu olhar distante traduzia toda a angústia carregada por sua alma. Sentia-se vagar pelo espaço, sem tempo nem dimensão. Nada a ligava ao mundo dos vivos. Morta, seu corpo inflamava-se com fogo da vida, e o sangue corria por suas veias, fluindo sem compaixão no espaço vazio de membros inúteis que constituía seu corpo. Sua mente desnuda de pensamentos futuros, seus desejos e planos estavam literalmente mortos.
Como vive uma pessoa sem objetivos, sem esperança de futuro, sem memória ou alentos do passado? Seria por perguntar se vive;... O que é viver? ...
As horas, dias, noites, passavam sem perceber sua existência. Uma sensação de irrealidade abarcava seus passos. Executava suas tarefas com precisão, cumpria sua missão diária na torre como um autômato perfeito. Ao cair da noite, só em seus aposentos, sonhava em caminhar livre pelas ruas, sentir o orvalho nos pés caminhar desde o crepúsculo até pôr-do-sol. Naquela penumbra, imaginava como seria o sol, o vento, as flores, o mar. Seu mundo era muito diferente; nem mesmo sabia de onde vinha essa sensação, esse desejo. Ao acordar, procurava um motivo para levantar e prosseguir naquela estrada inóspita, naquele mundo de solidão.
Nessa manhã, porém, seu corpo estático parecia incapaz de um só movimento. Seu estômago vazio doía. A cabeça rodava delirante. Tudo o que queria era fugir, fugir daquele mundo sem luz, sem rosto, sem brilho de vida.
Todos caminhavam no ritmo do pêndulo central, no movimento certo sorriam, mas nunca choravam. Era um ritual sem significação. Os homens olhavam a seu redor e nada viam; trocavam informações, porém não se comunicavam. Quando frente a suas faces, não havia olhar; seus olhos cegavam ante o contemplar, e o outro simplesmente não existia como outro.
Era um universo egológico: cada qual preso à gaiola escura de si mesmo, nada viam além do que imaginavam ser seu próprio reflexo.
Como podiam manter-se aquecidos naquela imensa câmara mortuária? Acaso não sentiam seu ser enrijecido naquele sarcófago de homens sem emoção de seres que não se tocam? Havia um enorme espaço nesse mundo frio e branco, tão branco (...).
Danãe, desesperada naquele vazio branco, fugia ao claustro corpóreo. Seus pés pisavam em algodão, e o ar tornara-se sem mais, áspero e rarefeito; uma sensação de embriaguez tomou-lhe os sentidos; num instante estava presa num fragmento horrível de tempo. Sentiu a mão impiedosa de Cronos a envolvê-la; face a face com o monstro de olhos chamejantes, sentiu seu braço voraz, denunciando seu apetite humano. Perderam-se num forçoso incesto; na infinita escuridão dos que nada sentem adentraram o profundo poço da não vida, rasgando o véu do ser, irrompendo a dimensão do não ser. No reino das trevas caía veloz, calada a pobre Danãe; mãos cadavéricas arrancavam sua carne, as moiras saíam da terra negra, luzindo o recanto fétido com suas faces encarquilhadas, enchendo o ar com as gargalhadas que vinham das bocas com um só dente. Danãe encolhia-se, debatendo-se inutilmente entre os braços de Cronos e as faces das moiras. Não via saída. Cansada, enfim abandonou-se à queda, nada esperando de si ou de outrem.
De súbito, uma luz fulgurante ardeu os olhos das moiras, espantou Cronos, que rugia como um animal raivoso ante o tremular lúdico do espectro que ali pairava. Aos poucos os traços materializavam uma fulgurante mulher, que envolveu Danãe numa névoa, isolando-a das ameaças, cessando a queda nesse escudo de proteção. Abruptamente um doce calor acobertou a moça; e num leve toque de dedos da desconhecida, seu ser encheu-se de uma paz revigorante jamais sentida e, com o gesto de carinho, sarou-lhe as feridas, fazendo-a adormecer naquele cálido aconchego desconhecido.
Dafni, calada em sua poltrona almofadada, tinha o olhar distante, e os pensamentos tão rápidos quanto o passar da paisagem verde pelos seus olhos. Dirigia-se a Trulles, cidade onde sua mãe nascera. Não sabia o porquê do calafrio, quando pensava em seu destino próximo. Estava a poucos quilômetros de sua futura morada; e quanto mais se aproximava da sua vó, maior era o medo que sentia daquela estranha, em cujas mãos seria entregue.
Dafni tinha apenas dois anos, mas era muito desenvolvida para sua idade. Sua mãe sempre deixara claro que logo seriam obrigadas a separar-se; porém nunca lhe dissera o motivo. Além do temor desconhecido, importunava-lhe o fato de sua avó viúva, e com onze filhos para sustentar, a quisesse como mais um fardo. Pelo que sabia, Deméter trabalhava na terra de outros para conseguir o sustento dos filhos. Arava desde os primeiros raios do sol, parando quando, há muito, já se fazia escuro. Muitas vezes a chuva era sua companheira, varrendo-lhe o corpo franzino e esquecido.
No mesmo instante, muito próximo dali, uma mulher ardia sobre a inclemência do sol, que naquele dia parecia mais impiedoso, pois trazia consigo uma brisa suave, tão suave, que era incapaz de refrescar em sua leveza, insuficiente mesmo para quem estava sentado à sombra, quanto mais a “carpinar” violentamente como fazia Deméter.
Sem prestar atenção ao apelo suado da carne, trabalhava com afinco para esquecer do mundo que a circundava e, há muito não era bondoso com ela.
Deméter levantou a cabeça, retirou o chapéu de palha de grandes abas, destinada a protegê-la um pouco da ferocidade cáustica do sol. A seguir passou as mãos sujas da terra preta pela testa, numa tentativa de secar o suor grudento e salgado que escorria abundantemente pelo rosto, ofuscando-lhe a vista. Logo, porém, desistiu da inútil tarefa, recolocando o chapéu na cabeça, atando-lhe o nó duplamente ao pescoço. Já estava com a enxada em punho, pronta para abaixar-se novamente, quando seus olhos mostraram-lhe, ao longe, duas mulheres andando a passos lentos pelo campo, adentrando já a parte carpinada. Fez um esforço para melhor ver, mas o sol ardente levantava o calor do pântano aterrado para o plantio, envolvendo o ar num leve véu e confundindo as imagens quando vistas de longe.
Deméter, parada, notava a aproximação cada vez mais rápida de ambas. A mulher crescida trajava um longo e fino vestido de algodão tingido, cor de âmbar, cabelos acobertados por um lindo chapéu de palha fino, com fitas coloridas, com sapatos de couro resistente, porém de feitio artesanal e muito fino. Segurava, pela mão a mulher-metade, vestida com igual requinte. Deméter pensou, a princípio, tratar-se de uma das damas do condado próximo, visitando os campos em companhia da filha. Isto era habitual naquelas donas que, nada tendo a fazer, ocupavam-se em observar os aldeões, com superioridade enojante.
As duas vinham em sua direção. O que haveriam elas de querer? Pensava mal humorada a velha carpinadeira.
--Bom dia, disse, com voz pausada, a mulher feita.
Deméter, sem responder, continuou parada; olhava fixamente aquele rosto. Não, não poderia ser, pensava aturdida. Aquele rosto, a voz, seria? Arrancada do presente, lembrou-se, aos poucos, daquela presença familiar. Não havia dúvida: era, com certeza, Perséfone, sua filha. Quando saíra de casa, era apenas uma garotinha de dezesseis anos; era alta, porém muito magra. Seu rosto apresentava belos traços por certo; entretanto, a mulher parada a sua frente era somente uma suave lembrança da pequena, sua filha.
Perséfone tornara-se uma mulher de beleza singular. Alta, esguia, olhos de um violeta inebriante, pele alva, mãos finas e dedos longos como os de um artista. Apesar do chapéu, podia-se estar que os cabelos negros continuavam longos, pois estavam presos em grossas tranças, erguidas por fios dourados na parte de trás da cabeça.
--Mãe, não me reconhece?
Deméter saiu de seu devaneio sem demonstrar, em seus traços, algum vestígio de surpresa. Respondeu filha com voz natural, como se a visse todos os dias e sua presença não causasse surpresa alguma.
-- Sim, claro! Uma mãe jamais esquece da filha, mesmo após dez anos sem pôr os olhos nela.
Perséfone, em um impulso, abraçou a mãe, achando ser suas palavras uma demonstração de saudade carinhosa. Deméter permanecia imóvel diante da manifestação espontânea de afeto da filha. Falou num tom impessoal, frio.
-- Estou com o corpo suado, malcheiroso, tenho terra nas mãos e minhas vestes estão impregnadas de suor. Certamente vou sujá-la se persistir em me agarrar. Perséfone afastou-se esmorecida. A mãe nada tinha mudado; continuava odiando-a com a mesma fúria do dia em que fora expulsa de casa. Ela, porém, tinha mudado, e muito, nesses dez anos para se deixar abater pela cena da mãe. Nessa década de solidão, o autocontrole havia-o desenvolvido muito bem, e sabia dominar seus sentimentos com a destreza de um domador de cavalos selvagens. Diante de uma ameaça, estava longe de ser a garotinha assustada a ser dominada por todos, ou motivo de chacota e satisfação dos prazeres sádicos dos pais. Imediatamente, ao ouvir tocar seu sino de defesa, tomou posição ereta, dirigiu um olhar cortês à mãe, dando-lhe uma resposta magnânima, impregnada de sarcasmo sutil.
-- Com certeza, precipitei-me no gesto, há pouco.
Fez ligeira mesura com a cabeça como uma rainha: -- Queira perdoar-me!
Afastou-se de imediato, voltando as costas para a mulher, que se dizia sua mãe. Voltou para junto de Dafni, a menina permanecia imóvel, de olhos baixos fixados na terra preta, cuja imaginação, fincavam seus pés nela como se tivessem criado raízes. A garota miúda, cabelos pretos muito ralos, olhos negros, demonstrava uma timidez férvida, refletindo em seu rosto, o brilho triste de um adulto que sofreu muito na sua jornada longa pelos caminhos inócuos da vida. Em nada se parecia com a figura régia que lhe dera vida.
Suas mãos pequenas, cruzavam-se no ar, formando uma concha, dentro da qual tentava reter todo o medo que sentia no momento. Isso sempre funcionava; agora, porém, estava devorada pelo pavor. Absorta em seus pensamentos, sobressaltou ao ouvir a doce voz da mãe, agachada a seu lado, olhando-a com um carinho denunciador da hora da separação.
Perséfone nunca foi rude com a filha, mesmo nos momentos em que merecia. Procurava educá-la com amor. Carinhosa, estava sempre pronta a aproveitar cada minuto, que podia, junto da pequena. Isto dera a Dafni a sensação de perda. Naquele exato momento entendeu seus sentimentos. O olhar da mãe estava enodoado pela dor; seu coração ouvia o choro da alma de Perséfone. Então, procurou dentro de si toda a força possível, buscando parecer forte o suficiente para amenizar o sofrimento da mãe.
-- Querida, venha! Conheça sua avó! Seja boazinha e cumprimente como a mamãe ensinou! Por favor, meu anjo! Dafni obidiente, caminhou até a desconhecida, apontada como sua avó.
Elevou os olhos e, descruzando as mãos, fez uma reverência breve com a cabeça dobrando levemente os joelhos.
-- Como vai, senhora? Digo sinceramente estar honrada em conhecê-la, parente.
Deméter soltou um riso estrondoso, deixando a menina imediatamente confusa. Dafni levou as mãos instintivamente ao ouvido, tentando abafar aquele gargalhar medonho. Seu primeiro impulso foi correr, ir para os braços da mãe, pedir que não a deixasse nas mãos daquela mulher horrível, mas, não o fez. Havia nela uma força maior que a impelia a encarar a mulher que representava seu futuro. Esse era o seu destino. Sempre soube ter que enfrentá-lo. Não poderia fugir de si mesma para sempre, disso tinha consciência. Era inexplicável essa atitude tão madura em uma garota de dois anos; porém Dafni nunca fora uma criança comum; a gratuidade dos atos infantis ela jamais conheceria, pois carregava em si a marca da sabedoria, dos que nascem no tempo, mas não vivem segundo suas regras.
Apesar de pouca idade, seus valores estavam bem definidos. Sob a capa de aparente fragilidade, escondia-se uma força inumana, pronta a irromper com toda a fúria daquele corpo pequeno.
-- Vejo que tem maneiras de trato como as de uma dama, comentou sarcástica a avó.
-- Meu nome é Dafni, senhora.
-- Ora, vejam! É insolente também. Vejo que nega sua mãe só no físico, mas a afirma em sua bestial arrogância.
-- Sinto muito, continuou impassível a menina! Trazia, porém, nos olhos um brilho de desafio, que Deméter conhecia muito bem. E, com voz amável, acrescentou:
-- Minha intenção não era parecer desagradável.
-- Ora, vamos, pirralha! Guarde sua “rendas”, pois aqui elas de nada servirão. Havia, na voz de Deméter, uma nota dissonante tão intensa de ódio contra o sangue que Dafni carregava nas veias, e que tão bem o defendia.
-- Certamente o farei, respondeu seca a menina, fazendo, em seguida, a reverência para retirar-se junto a mãe.
Deméter enfurecida, dirigiu um olhar feroz a Perséfone, que se mantivera impassível até aquele momento ante a discussão, dando a entender ser a filha perfeitamente capaz de cuidar-se. Ou antes, pensou Deméter, poderia estar a avisá-la do perigo que a menina representava, acaso fosse sua intenção maltratá-la.
-- Como pode uma criança de dois anos falar com tal desenvoltura desafiando abertamente uma anciã como eu? O que foi que me trouxe Perséfone? E com voz um tanto trêmula, acrescentou quase para si mesma: - Um pequeno demônio?
-- Entrego-lhe minha única filha, fruto amado de meu ventre, meu sangue, minha vida como exigiu. Minha mãe ... Perséfone falava como nunca Dafni lembrava tê-la ouvido: sua voz ressoava como o choro de um animal que vaga pela floresta, há muito ferido, sem encontrar lugar para repousar, pois onde quer que se deite, seus ferimentos o incomodarão, preferindo perambular noite e dia, gritando sua dor a todos que a habitam, lembrando que eles também podem a qualquer minuto serem atingidos, e que todos morrem, quando não pela lança, pela natureza. Dafni aturdida não entendia a conversa das mulheres, mas sentia uma arrepio percorrer a espinha, porque a atmosfera se empregnara de ódio. Qual o motivo de ter que ser ela entregue a sua avó?
A mãe a alertara de que haveriam de separar-se muito em breve. E, quando perguntava o motivo, recebia uma resposta vaga, vestida nos farrapos da mentira. Até o velho da batina luzente, responsável pela sua educação, nunca lhe dissera a verdade sobre isso, embora sobre as demais coisas fizesse sempre questão de esclarecer, fossem suas perguntas banais ou embaraçosas. Porém, ao perguntar-lhe sobre seu destino, este respondia com um sorriso obscuro.
-- Em seu devido tempo a verdade virá a desempenhar seu papel. Você verá pequena!
Seria um consolo aquele sorriso? Algo, porém, dentro de sua alma, fazia-a crer mesmo, sem entender, sentia energia fluir dentro de si, embora desconhecida a origem e como utilizá-la. Um dia, um dia saberia usá-la. Esta era a única certeza de que tinha para o momento.
A voz da avó chegou aos ouvidos como o vibrar de um instrumento desafinado, arranhado por um amador sem qualquer talento musical. Esforçou-se para entender o que dizia; sua cabeça era um emaranhado de idéias confusas ensurdecendo seu pensar. Deméter berrava em exaspero de velha cansada. Ou seria rugido demoníaco que, num repente, num rebento, surgia rasgando a carcaça aparente frágil que a envolvia, dando seu espaço corpóreo.
-- Ensurdeceu a espertinha?
-- Desculpe, distraí-me, contemplando seu belo campo. Realmente, é muito habilidosa, mulher que soterra, sem ajuda, um pântano e faz dele um campo fértil; é, sem dúvida, digna da graça dos deuses.
-- Como sabe que soterrei sozinha o pântano?
-- Está aqui só. Tem muita rapidez no manuseio da enxada, além do que seu arado tem lugar somente para uma pessoa, do seu porte físico para puxá-lo agilmente. Seu campo é plantado em linha reta, somente quem trabalha sozinho o faz, e seus pés trazem marcas de mordidas de gentes, esses animais só vivem no pântano, atacando somente quando sentem a terra misturada ao Sertri que os sufoca, tirando suas vidas; e o Sertri é dado por lei somente a quem trabalha sozinho em terras alugadas.
-- Como aprendeu tanto a respeito do cultivo dos pântanos? E a existência do Sertri só é conhecida por poucos. É segredo dos alquimistas de Trulles. Como pode saber?
-- O senhor Peleu, foi meu mestre; é ele alquimista pai.
-- Entendo. Tenho um pequeno demônio, com certeza. Pronunciou a palavra num som gélido. Inaudível, um presságio abrasava sua mente em pensamento ventoso.
Perséfone ouviu o pensamento da mãe, com um aviso; lançou um olhar faiscante, impregnado de ameaças que somente as duas entendiam. Ao fazer dos sons, propagava-se pelo espaço um retumbar de pavor, perpassando Deméter como um fio cortante de uma lança afiada, que sentiu a dor do golpe invisível. Deméter quase soçobrou ante o inesperado poder da filha.
-- Mãe, falou com fingida doçura, seu algoz. Viajamos muitas milhas, o sol é escaldante. Leve-nos até sua casa para tomar um pouco de água fresca, descansar à sombra o corpo exausto.
Deméter, estarrecida, não ousou um único protesto, nem mesmo um pensamento desafiador; estava entre o medo e a surpresa, decidindo manter-se sobre as asas da prudência. Sim, o desconhecido estabelecia a linha divisória do terreno firme onde os pés calcam seguros e o pântano lodoso onde se deve conhecer cada palmo da terra antes de pesá-la sem o risco de soterrar-se para sempre, num poço fundo, sem a menor aparência do perigo. Tentou manter a calma. Com um gesto estudado, limpou as mãos no avental e, ao mesmo tempo falava com voz mansa.
-- Sim por certo que as convidarei! Jamais neguei água a ninguém. Aviso que o caminho é longo, terão que andar muito até o descanso.
-- Não será necessário! Teremos um carro fechado logo no começo do plantio. Venha! Logo estaremos em sua casa.
Andavam as três lado a lado, refletindo, por um instante, sobre destinos tão diferentes, tão iguais, inseparáveis, ironicamente inseparáveis.
Ao avistar a carruagem, Deméter deixou escapar um pequeno suspiro de espanto; seus olhos percorreram a enorme abóbada negra, com janelas enfeitadas de cortinas claras, dois pares de cavalo puro-sangue, tão negros que suas belas e bem cuidadas crinas reluziam ao sol majestosamente. Um homem alto, elegantemente trajado, com um chicote de cabos de ouro e uma escrita que pareceu a Deméter os símbolos usados pelos santos sacerdotes da região do grande rio bondoso. O homem, em pé parecia uma estátua de mármore, ereto à espera de ordens para mover-se. Foi, então, que Deméter despertou para seu estado lastimável. Suas roupas contrastavam brutalmente com todo aquele luxo. Onde Perséfone arranjara ouro para tanta pompa. Prostituta não era, seus modos eram finos como os da aristocracia; parecia esposa de um nobre. Deméter pensava, perdendo-se cada vez mais em seu labirinto de idéias, indo da mais suntuosa à mais miserável das conjecturas. Perséfone não poderia ter-se casado dignamente, principalmente com um nobre. A hipótese era inverossímil. Nenhum nobre jamais se casaria com uma moça sem saber todo seu passado, sem imiscuir-se em todos os recôndidos de sua vida e da vida de seus familiares. E, embora não encontrando mácula em sua escolhida, era-lhe ainda requerido o título da nobreza, ainda que ele fosse comprado de um nobre falido. O ouro, certamente, ofuscava as marcas do plebeu; porém não a retiravam jamais. Perséfone arrancou a mãe de seus pensamentos, como se os visse e não gostasse nada do que seus olhos presenciavam.
-- Vamos! Entre, mãe!
O cocheiro abrira a porta da carruagem oferecendo a mão para ajudá-la. Sem tempo para pensar decidiu entrar. Sentou-se no banco da esquerda, ficando de frente para a filha e a neta. Sentiu o frescor do vento soprando pelas janelas assim que o carro se pôs a mover velozmente; no acento macio, suas mãos repousavam sobre o tecido fino e liso que o acobertava. Era seda por certo. Mas de que tipo? Não parecia em nada com as feitas pelo bicho caseiro da seda. Eram macias, porém resistentes como só havia um tipo de tecido; era mais resistente que um fio de aço para agüentar o peso de qualquer pessoa que se sentasse naquele banco, lanoso e colorido. Deméter reconheceu ser a seda fabricada pela Araneus Díade. Perplexa pela descoberta, pensou nunca ter visto ninguém, naquelas terras, vestir-se com tal tecido, pelo alto custo e sua difícil obtenção. E ali estava ela, sentada em bancos acobertados pelo rico artefato. Já era demais. Onde conseguira a filha tudo isso? Deméter olhava inquisitiva Perséfone, que permanecia inflexível ante a curiosidade mórbida da mãe. Foi, então, que Deméter decidiu investir em voz alta contra aquela que a exasperara até então.
-- Casou-se? – inquiriu com um sarcasmo que detonou a fúria de Perséfone.
-- Sim! Respondeu num monossílabo carregado de ostensiva raiva.
-- Com quem? – continuava a outra fingindo não perceber o dissabor de suas interrogações.
-- Com um senhor de terras muito distantes.
-- Deve ser ele muito rico. Fez uma pausa como para deixar às claras o que realmente pensava a respeito da integridade moral da filha. Para proporcionar tanto conforto assim sua esposa, é, sem dúvida, muito generoso; vê-se logo que lhe emprestou o melhor carro para a viagem.
-- Este carro me pertence. Não é, também, o melhor dos que possuo; porém é de grande utilidade em viagens longas.
-- Qual é o nome desse senhor tão próspero, e que tipo de negócios o ocupam?
-- Hades.
-- O que é ele, afinal?
-- Senhor absoluto do lugar onde vivemos.
-- Esse lugar não tem nome?
-- Fobos! Fica no sul. ao pronunciar tal nome, um trepidar rápido e violento abalou a carruagem. Deméter sentiu um arrepio pelo corpo, uma sensação de enrijecimento retesou seu músculo. Foi, então, que percebeu sua falta de perspicácia. Tentou amenizar seu medo, dando a sua voz um som amável, mas pouco convincente.
-- Tem razão! Não sei onde fica tal lugar. Diga-me como um nobre de tal estirpe, cuidando de um feudo, certamente grande pelas sua posses, casou-se com uma estrangeira e, sem questionamentos, aceitou-a sem título, sem família e sem dote?
-- Engana-se mãe! Meu senhor e cônjuge não cuida de feudo algum, ele é o rei de Fobos. Casou-se comigo por amor. Ninguém, em seu reino e nem nos arredores, ousaria contestá-lo. Sua vontade reina suprema sobre a de todos.
-- O que me diz? E rainha? E a menina é filha de seu marido.
Perséfone sobressaltou-se ante a pergunta. Seus olhos tinham um brilho frio e ameaçador.
-- Por certo que sim! Por quem me toma? Deméter tremeu diante da fúria da filha; seu sangue gelara e o coração batia acelerado querendo saltar-lhe do peito. Sem se dar conta, articulou um pedido de desculpas, no qual deixou transparecer todo seu medo. Os olhos de Perséfone voltaram ao azul límpido, perdendo o tom fogo-gélido adquirido ante a ofensa da mãe; aquele to azulado pacífico era uma brutal cortina que cobria as duas tochas há pouco prestes a queima Deméter, numa forma desconexa e fogo morto. Deméter não conhecia aquela mulher. Certamente não havia ela dado ao mundo aquela criatura.
-- Sinto, Perséfone! Minha intenção não era ofendê-la. Creia-me! E que sendo filha de um rei a menina, como consentiu em entregá-la?
-- Nunca escondi nada de meu marido. Sabia ela desde o princípio a dívida que tinha. Estou aqui a pagá-la com seu total consentimento.
Deméter abriu a boca. E, antes mesmo de articular um único som, a carruagem parou, vindo o cocheiro oferecer-lhe ajuda para descer.
Desceu do carro, muda e, ao mesmo tempo, agradecida pelas palavras que foram cortadas na garganta. Por vezes, o tempo salva vidas sem dizer o porquê.
-- Dafni.
-- Sim, mamãe?
-- não esqueceu nada sobre o que conversamos, não é amor?
-- Não, mamãe! Não se preocupe e diga a o papai que já sou moça crescida. Abraçou a mãe. A seguir deu a mão, como uma verdadeira dama, para descer da carruagem.
-- Senhora vai descer agora?
-- Ah! Sim! Já estou indo. Obrigada, Cérbero! Aguarde-me aqui! Voltarei em breve.
-- Sim, senhora!
A casa parecia exatamente igual ao dia em que Perséfone a deixara: um amontoado de tijolos de barro cozido, superpostos de forma que não necessitassem de outro tipo de massa para fixá-los além do barro com o qual eram construídos. A casa era alta, e tinha formato arredondado como a maioria na aldeia; dividia-se em dois andares em seu interior e a parte de cima era reservada para dormir. As camas eram também feitas de tijolo, uma ao lado da outra. Em cima das mesmas havia palha seca envolta por tecido feito de algodão cru, servindo de colchão. Os travesseiros e cobertas eram de pena, acobertados pelo mesmo tecido. Chegava-se à parte de cima, subindo uma escada feita de madeira. O chão da casa era de terra batida, caiada com barro branco, e dando-lhe um aspecto fresco e limpo. Quase todos os objetos da casa eram feitos de barro: o fogão, o balcão que ia de uma extremidade à outra da casa, começando na ponta do grande forno de barro do lado esquerdo no canto e acabando na parede; seu interior era aberto, servindo assim para guardar os utensílios domésticos, tanto na parte externa em cima quanto na parte interna. Tudo era cuidadosamente coberto de barro branco todos os dias: os pratos, os copos, até os jarros que serviam para guardar água. As panelas, a chapa do fogão eram de ferro. No centro da casa, estava uma mesa feita de carvalho e dois bancos inteiriços, sem encosto, que acompanhavam longitudinalmente a mesa, na qual eram servidas as refeições. Na entrada uma esteira feita de palha, tecida à mão, servia de tapete. Do lado esquerdo da escada que dava para os quartos, no fim do balcão, prendia-se uma rede de algodão cru, servindo de assento para as visitas ou lugar de descanso para Deméter. Naquele momento, balançava solitária, esquecida naquele canto sem luz. A casa só tinha uma janela que ficava em frente a mesa das refeições. Tanto a porta quanto as janelas eram fechadas somente à noite, pois era grande o trabalho para erguer as trancas amarradas com cipó, usadas como fechaduras; eram elas escoradas por um tronco grosso, que ficava semi-deitado qual guerreiro a guardar os sonhos dos moradores, garantindo, com a força de seus braços, o afastamento de qualquer intruso. Perséfone olhava atentamente a casa na qual vivera durante anos de sua vida e, em cada utensílio, achava uma estória, cada tijolo um minuto de sua vida. ali estava seu passado e ali ficaria seu futuro.
-- Entre, Perséfone! Foi você quem insistiu em vir até aqui; agora parece mesmo espantada. Será a humildade de minha casa o motivo de seu arrefecimento?
-- Ora, mãe! Você, por vezes, parece esquecer que aqui nasci e vivi anos de minha vida. Com um ar inquisitivo, Perséfone voltou os olhos ao interior da casa e suas palavras traziam, em seu bojo, uma sombra de dúvida.
-- Não foi mesmo isso, Deméter? Era a primeira vez em toda a sua vida que chamava a mãe pelo nome; e, ao fazê-lo, tinha no olhar aquela ferocidade que tanto assustava Deméter por não conhecer o que viria após terem cessado as faíscas de seu ódio. Deméter apressou-se em acrescentar palavras para induzirem Perséfone a outras fontes de pensamento, desviando-o de seu primeiro intuito inquisitivo.
-- Agora você é uma rainha. Acostumada a riqueza, ao luxo, esse lugar deve ferir seu senso estético. E a pequena? Pobre princesa! De um castelo a um casebre de aldeã. Gargalhou prazerosa em sua afirmação eivada de maldade. Regozijava-se por sua aldácia perspicaz, quando a pirralha se precipitou para dentro de casa, e com voz gentil, solenemente satisfeita declarou:
-- Garanto, vovó, que estou imensamente satisfeita. A beleza não está na casa, mas na forma como ela é vista e por quem é vista. Meus olhos afirmam ser agradável o que revela seu ambiente... O sórdido gargalhar de Deméter morreu por completo. Seu rosto tinha agora uma expressão “truculenta”, bem desfavorável. Virou as costa indo até o balcão apanhar um jarro com água fresca. Perséfone entrou, sentando-se no banco da mesa de refeições, do lado oposto da janela de costas para a mesa. Foi imitada em todos os passos pela filha. Tirou o chapéu, e ajudou a Dafni livrar-se do dela; colocou ambos na mesa atrás de si. Nas mãos segurava um lenço preto de seda que remexia uma atitude nervosa. Dafni percebeu o suor da fronte da mãe, sobrepôs a pequena mão sobre às de Perséfone e sorriu largamente, um sorriso confiante com um fulgor maléfico, que não tirava o brilho e o encanto daquela boca pequena e misteriosa. Dafni pareceu, nesse momento, um espectro saído das sombras do passado, vindo de muito longe para consolar Perséfone. Era a própria imagem de Hades estampada naquele sorriso repentino e benéfico, ao qual Perséfone retribuiu agradecida.
Deméter voltou trazendo consigo um jarro de barro cheio de água fresca, colou sobre a mesa e voltou ao armário para pegar canecas, também de barro, e um pão sem cortar, serviu, igualmente, amoras colhidas no dia.
-- Obrigada mamãe! Levarei um pouco de água e uma fatia de pão a Cérbero; sei que deve estar faminto. Logo que o alimente, mandarei que traga a bagagem de Dafni, pois pretendo voltar antes do escurecer.
-- Como quiser!
Perséfone cortou uma grossa fatia de pão, encheu um copo grande de água e pôs-se porta afora.
-- Cérbero, trouxe comida e água! Mata sua fome e depois descarregue os baús e as coisa de Dafni.
Cérbero fez afirmação com a cabeça, ao mesmo tempo em que devorava o pão e bebia afoito sua água. Perséfone riu, dando-lhe uma advertência.
Contenha-se Cérbero! Você usa uma cabeça e está ereto sobre dois pés! Use suas mãos como um humano.
-- Num gesto humilhado, Cérbero encolheu-se instintivamente, baixado os olhos de forma encabulada e triste. Perséfone, por sua vez, afagou-lhe a cabeça, levantando-a .
Não se entristeça comigo, Cérbero! Só estava tentando lembrar a forma como deve se portar nesse mundo. Devemos ter todo o cuidado, pois qualquer gafe pode nos prejudicar seriamente. Eu estou amedrontada; gostaria que Hades estivesse aqui para lembrar-me de certas coisas.
Cérbero sorriu ao ouvir o nome amado e respondeu com sinceridade:
-- Onde sua sombra estiver, a de meu senhor também estará. Perséfone cabisbaixa, quase a ponto de se entregar ao pranto, procurava a todo o custo conter-se. Cérbero colocou a mão em seu ombro para consolá-la.
-- Não se preocupe senhora! Logo estaremos em casa.
-- Vejo que Dafni se comporta com mais iniciativa que eu.
-- Os mistérios estão em seu sangue; logo ele saberá o que fazer. Assim deve ser.
-- Por certo nossos destinos diferem. Aqui deixamos de andar na mesma estrada. De certa maneira sinto que passo meu fardo para seus ombros.
-- Senhora! Nada pode ser feito! Agora deve voltar e cumprir sua tarefa. Sua mãe já está a desconfiar de sua demora.
-- Vê! Ainda preciso que sinta o que devia eu sentir.
-- Logo estará preparada. Agora vá!
Perséfone, obediente adentrou a casa com ar tranqüilo. Desvencilhou-se de insinuações de Deméter, ignorando o cinismo das palavras lançadas ao vento, aqui e acolá, na única intenção de ferí-la ainda mais.
Cérbero surgiu na porta, carregando dois grandes baús. Foi, então, que Dafni se deu conta que a mãe estava prestes a partir.
-- Cérbero, deixe os baús enfileirados junto ao balcão. O servo obediente trouxe um a um os baús, enfileirando-os como lhe foi ordenado; ao todo dez grandes baús de carvalho, com fechadura de ouro maciço.
-- Mãe!! Essas são as vestimentas de Dafni. Perséfone apontou para um pequeno e humilde baú nas mãos de Cérbero.
-- Onde posso deixá-las?
-- Deixa ao lado da mesa!! Depois arranjo outro lugar. Deméter não disfarçou nem um instante sua curiosidade, com olhar abismado de boca semi-aberta, esperava, com ar embasbacado, uma explicação.
-- Mãe! Isso lhe pertence. Perséfone tinha nas mãos um pequeno baú, similar aos grandes; entregou à mãe que segurou com mãos trêmulas o pequeno tesouro, fitando-o imóvel e aturdida. Dafni falou alegremente:
-- Este não tem cadeado. Abra-o, vovó. Deméter, sob o efeito hipnótico da surpresa, não contestou a menina; ao contrário, seguiu fielmente sua voz. Soltou um grito diante do brilho ofuscante saído da caixa.
-- Por Zeus..., são moedas cunhadas a ouro. Num gesto rápido pôs o baú sobre a mesa, pegou uma das moedas mordendo para ter certeza de que não eram falsas. Dava saltos de felicidade, para de repente tornar a si. Dirigiu seu olhar primeiro a Dafni, depois a Perséfone.
Perséfone respondeu a pergunta muda de Deméter:
-- Sim, mamãe, é todo seu! Não pertencem a Dafni, bem como os baús são presente de meu marido que manda seus respeitos, oferecendo humildemente seus préstimos. Aqui estão as dez chaves. Abre-os somente quando já tiver partido. Esse foi o desejo de meu senhor.
Deméter segurava as pequenas chaves de ouro, como quem não acredita na própria sorte. Guardou-as no bolso de seu avental, demonstrando com seu gesto ter acedido ao desejo da filha. Por um milésimo de tempo, uma dúvida assolou sua alma. Como coube tanta coisa em uma só carruagem? – perguntou em voz alta, com o risco de acordar, ao som de suas palavras, daquele sonho confuso. Correu porta afora, sem esperar resposta. Viu uma outra carruagem aberta; puxada por doze puros-sangue; tinha quase doze metros de comprimento.
-- Onde estava? – perguntou-se a si mesma. A resposta de Perséfone foi ouvida atrás de si:
-- Aqui mesmo!
-- Como?
-- O primeiro lugar ao qual viemos, foi este. Deixamos então o carro de carga atrás da casa para surpreendê-la.
Deméter convenceu-se da veracidade das palavras da filha, voltou para dentro da casa, sentando-se pensativa na escada de madeira.
-- Com essas moedas de ouro poderei comprar minhas próprias terras.
Perséfone calou-se a respeito do comentário da mãe, passando imediatamente a outro assunto.
-- Mãe! Meu marido manda que lhe faça um pedido.
-- Faça-o!
-- Gostaria que Dafni fosse educada pelos sábios das grandes montanhas.
-- Como? Ninguém sobe o rochedo sem o conhecimento prévio dos monges.
-- Leve-a quando caírem os primeiros flocos de neve de Janus. Estarão a esperá-la.
-- Por que eu o faria?
-- Dafni corre grande perigo se não for iniciada. Não somente ela. Bem sabe! Não terá gasto nenhum pois meu marido arcou com todas as despesas. Ao levá-la, basta arranhar a rocha com um pedaço de metal três vezes e descerão o cesto para levantá-la até o templo.
-- Como terei certeza que a devolverão a mim?
-- Todo o primeiro dia de Janus, deve esperá-la ao pé da colina. Ela descerá como sinal, que continua a ser sua propriedade.
Deméter calou-se. Perséfone sabia, pelo seu olhar, que o pedido tinha sido aceito. Não por bondade, mas sim pelo medo do que poderia acontecer no futuro se Dafni não fosse iniciada a tempo. Deméter já tinha uma recordação desagradável a esse respeito com Perséfone. Não correria o mesmo risco, assim pensava a filha. Como para quebrar a gravidade de suas lembranças, Perséfone perguntou a mãe onde estavam os irmãos. Deméter sobressaltou-se raivosa.
-- Como ousa referir-se a meus filhos como seus irmãos? Esqueceu as leis? O sangue deles foi purificado. Nenhum laço os une. Somente eu continuou amaldiçoada; meu sangue corre por suas veias, nada pode mudar isso. De meus filhos, nem a sombra jamais verá; essa é a lei.
-- Perdoa-me, fui insensata. Um silêncio mortal tomou conta do ambiente. Por minutos intermináveis, o grito do ódio da mãe sobrepunha-se à humilhação calada da filha. forças opostas digladiavam-se no ar; nem olhos nem sons poderiam manifestar a fúria das sombras do passado, intrépidas levantam-se de suas tumbas num clamor de vingança.
O que é o tempo? Uma sucessão de ações? Um movimento posterior tornaria nulo a anterior? Se o fossem, não o era naquele reino; o passado nunca era menos importante que o presente. Por uma lei estranha, regendo aquele universo, o presente não delimitava o futuro, mas o passado. Os atos congelados não impediam o movimento da vida; porém saíam como fantasmas vivos a cobrar um futuro, um corpo, uma vingança. O primeiro brado de vida seria o mesmo da morte. Naquele mundo, a vida girava em círculos; o fim era sempre o começo. Por mais que se andasse, voltava-se sempre ao lugar de origem e mesmo em seu último suspiro, a vida cobraria todos os erros cometidos. Era impossível fugir desse retorno sem o pagamento exigido pela vida ou pela morte.
Perséfone livrou-se do devaneio que a envolvera. Falou com voz suave que pareceu retumbar pelas colinas de seu passado enevoado pela dor, chegando ao presente não menos doloroso que delimitava o futuro, sem entretanto cortar o cordão das imagens do passado.
-- Devo ir. Já se faz tarde. Dafni, venha até aqui!
-- Dê-me um beijo! Mãe e filha trocaram um abraço caloroso, seus lábios permaneceram fechados. Olharam-se com alegria, uma estranha felicidade que não cabia no momento.
-- Adeus, mamãe! Ficarei muito bem, leve-me sempre em seu coração. Lembre-se onde eu estiver, estará comigo.
Perséfone levantou-se, colocou a mão esquerda sobre o peito, segurando o lenço preto junto do coração.
O mesmo fez Dafni. Ambas trocaram os lenços em um estranho ritual.
Perséfone voltou o olhar para a mãe.
-- Adeus! Acredito ser esta a última vez que nos vemos.
-- Sim. Adeus! Diga a seu marido que farei o que me pediu!
-- Agradeço em seu nome. Virou as costas e saiu sem olhar para trás. Ouviu-se o galopar rápido dos cavalos. Um silêncio tumular adentrou a casa. UM vento gelado com cheiro de Hortênsia invadiu o interior da casa durante uma fração infinitesimal de segundos. Deméter encolheu-se como quem leva uma forte chibatada.
Dafni sorria, como quem recebe um último afago da pessoa amada. Não tinha idéia do que fazia ali; porém sabia que logo descobriria e encontraria, de certo, forças para enfrentar seu destino e mudá-lo se preciso. Lembrou-se do velho da batina, que certa vez a levara a passear em um bosque próximo ao castelo e resolvera voltar sem concluir o passeio. Ela havia protestado com veemência, e o velho, paciente, apontou a céu carregado de nuvens negras. Vê disse ele, em sua empolgação pelo passeio esqueceu as precauções necessárias. Quando saímos, o sol brilhava e agora prepara-se para descarregar grande quantidade de água sobre nós. Se seguíssemos teríamos que atravessar a ponte, e, ao voltar, o rio estaria transbordando como sempre acontece. Teríamos que passar a noite no bosque o que não seria nada agradável. Nunca se esqueça pequena, de observar o céu, o tempo, o clima, a chuva e a vida. Vêm e vão muito rápidos. Por descuido de poucos minutos poderá valer-lhe uma existência de reparos. No dia nada entendera; porém agora entendia, com clareza, as palavras do velho.
III
Tudo no mundo não passa de ilusão. O que teus olhos vêem podem enganar-te, o que teus ouvidos te dizem verdadeiro pode ser a mais crua falcatrua. Nunca tomei como verdade absoluta o céu azul ou o canto dos pássaros. O real para mim é aquilo que vivo, conforme vivo; e, de certo, vivo do engano de meus sentidos. Em meu mundo, não no seu. O maior de todos os mistérios é o homem. Pensas conhecer-me, por conviver diariamente a meu lado. Sabes como ando, sento e falo; conheces fragmentos do meu ser. Não te iludas achando que abro todas as portas de meu universo interior. Existem dentro de mim portas que não ouso abrí-las. Não por temor de ti; mas por medo do que vou encontrar de mim mesmo.
Deméter continuou em pé, olhando a menina a sua frente. Mantinha as mãos no bolso roçando suavemente os dedos nas chaves dos baús. Dafni, sentada no banco da mesa de refeições, mantinha a cabeça levantada com os olhos presos nos da avó. Atrás de sua cabeça brilhava o ouro do baú aberto, depositando em cima da mesa. A pequena segurava firme o lenço que a mãe lhe dera entre as mãos fechadas sobre o colo. Seu semblante amorfo, procurava amoitar o pavor do momento crucial.
-- Parece um ratinho. Nada tem de parecido com sua mãe; você é mesmo bem feia!
Dafni baixou os olhos, sem nenhum garbo; caiu num pranto profundo, soluçando de estremecer todo o corpo. Deméter, em instinto maternal, correu e abraçou a menina.
-- Ora, vamos! Parece mesmo um ratinho assustado. Não fique triste! Todas as crianças são mesmo feias.
A menina abraçou a avó com tanta força, calor e ternura, que, por um momento, aqueceu a alma gélida da mulher, que há, muito, não sentia seu coração fervilhar por um sentimento bom. O gelo derretido fez-se lágrimas e Deméter sentia-se acabrunhada ao sentir o gosto do sal nos lábios. Estava chorando..., seria mesmo possível? Há quanto tempo não chorava? Pensava ser um deserto árido, no qual não havia nem, nascente, ou outra forma de vida. Havia muito tempo, não tinha esperança de encontrar seu oásis. Agora ali estava sua pequena nascente. Tomou a menina nos braços, aconchegando-a em seu colo. Foi até a rede, abraçou-a, aquecendo-a em seu peito. Dafni não reagia. Parecia agora um gatinho manso, à procura de um carinho.
-- Acha que vou crescer e ficar bonita um dia? – perguntou a menina com voz entrecortada por soluços.
-- É claro que sim! Você já viu um pintinho quando nasce?
-- Não! Acho que nunca vi. Respondeu limpando as lágrimas com as pontas dos dedos e espirrando fortemente o nariz, gesto que fez a avó rir.
-- Pois vou contar como é. A mãe pode ser a mais bela galinha de todo o terreiro; penosa e gorda. O filhote, porém, sai da casca molhado, e quase sem penas, magro e feio de dar dó. Mas, quando vai crescendo toma forma, tornando-se muito belo ou deixando de ser tão feio.
-- Isso quer dizer que serei bonita, ou deixarei de ser tão feia, hein vovó?
A avó não conteve o riso. Dessa vez nada tinha de sarcasmo ou sádico, como às vezes anteriores em que estrondosa gargalhava. esse era um riso alegre, descontraído.
-- E um consolo ao menos. Imagine se você tivesse a certeza de continuar sempre como está, uma pequena chorosa, que só pensa em tornar-se bela?
Dafni sorriu, protestando ao mesmo tempo:
-- Pequena já não é um tanto ofensivo; ainda o completa com chorosa. Tem razão! E mesmo consolador saber que se não me tornar uma bela mulher, ao menos mais feia não ficarei. Ou ficarei?
Deméter e Dafni divertiram-se com a observação; ficaram horas a conjecturar quão terrível destino teria se ficasse ainda mais feia do que já era. Até que cansada, aconchegou-se ao corpo da avó e, aninhando-se, agarrou-se de tal forma que mesmo quando adormecida Deméter não pôde desvencilhar-se, ou, na verdade, não queria deixar aquele aconchego. Adormecera agarradas, com a casa totalmente aberta.
Os primeiros raios de sol iluminaram o interior da moradia, fazendo cócegas nas pálpebras fechadas de ambas, adormecidas na rede. Abriram lenta e preguiçosamente os olhos, sem querer despertar da magia da noite, para enfrentar o dia em sua inclemência.
-- Vovó! Como eu faço para me levantar dessa coisa?
A avó sorriu diante da ingenuidade da menina.
-- Essa coisa se chama rede. Vamos! Eu a ajudarei. Logo saberá deitar e levantar sozinha; basta acostumar-se e não fará mais diferença se a rede se mexe ou não, pois você sempre será mais veloz que ela.
Deméter levantou-se de um só pulo, com a garota nos braços. Dafni riu, às “favas”, do evento.
-- Nunca serei tão rápida, pode acreditar. Quando pensar em pular, “puft”, já estarei, há muito, no chão.
-- Seu traseiro ficará roxo até conseguir, disso pode ter certeza.
-- Quero fazer xixi.
-- Está bem! Vou mostrar-lhe como se arranjar.
Deméter levou Dafni pela mão até os fundos do casebre. Entre os arbustos havia um pedaço de madeira, ao lado uma enxada.
-- Está vendo esse buraco? Deve fazer aqui suas necessidades, para depois cobri-lo com terra. Abra um outro buraco e deixe a madeira em cima. Para limpar-se, use aqueles sabugos secos do cesto da cozinha.
-- Puxa! Que trabalhão!
-- Bem, pode começar! Quando terminar, estarei à sua espera dentro da casa. Dafni concentrou-se na tarefa, enquanto a avó se afastava voltando para dentro da casa.
Demorou muito para conseguir arranjar-se; a enxada era muito pesada e o máximo que fez, foi um semi-buraco na terra, cobrindo-o com a madeira. E decidiu que só faria suas necessidades básicas em caso de extrema urgência. Voltou correndo para casa, pronta para contar a aventura à avó. Chegando à porta, enrubesceu. Parou sem saber o que fazer. A mesa estava repleta. De onde vinham eles, perguntava-se confusa? Lembrou que, no dia anterior, não vira ninguém na casa; e, agora, ali estavam doze pessoas em volta da mesa. Sentiu um vazio no estômago. Abriu e fechou os olhos para comprovar se não estava tendo alucinações. Foi inútil. Eles continuavam lá, bem vivos e todos a olhavam com um ar não muito amigável, segundo sua interpretação.
Deméter em pé, na ponta da mesa, fez sinal para Dafni entrar. A menina caminhou vacilante até onde a avó se achava e, por um instante, olhou as mãos como quem procura algo para adquirir seguranças. Foi, então, que percebera a falta do lenço que a mãe lhe dera. Esqueceu logo a idéia, indo colocar-se quieta ao lado de Deméter, que chamava por um nome que Dafni, confusa, não entendeu de imediato. Viu aproximar-se uma moça alta de cabelos ruivos, olhos incrivelmente verdes; era esguia e caminhava jeitosa e decidida.
-- Essa é Cânace, minha filha mais velha. E a ela que deve ouvir quando estou ausente. a moça sorriu um pouco arredia; sua face demonstrava uma expressão desconfiada.
-- Seja bem-vinda! Sua voz soou segura e amável; porém Dafni não sentiu veracidade no som ouvido.
Mélia, a outra moça sentada após Cânace, levantou caminhando em direção a Dafni; era igualmente alta, porém mais magra, com o corpo ainda em desenvolvimento; seus cabelos era de um ruivo mais cor de fogo que os da irmã, e seu andar mais ligeiro. Os traços não eram tão belos, mas superava, em sinceridade, o sorriso de seus lábios. Os olhos eram brilhantes e alegres. Quando Cânace estiver fora, dizia Deméter, Mélia dá as ordens.
-- É um prazer tê-la conosco, disse com alegre sinceridade. Dafni retribuiu o sorriso, o que não havia feito anteriormente, gesto que não passou despercebido aos olhos de Cânace.
Mélia voltou para mesa, onde Cânace também ocupava seu lugar. Pélias, a moça ao lado de Mélia, levantou. Essa era um pouco menor em altura, seu físico era o de uma garota magra e lisa. Os cabelos eram tão ruivos quanto os de Mélia; porém os olhos e o andar assemelhavam-se aos de Cânace. Deméter apresentou Pélias sem qualquer entusiasmo, tendo na voz aquela sonoridade sarcástica tão bem conhecida por Dafni. Pélias tenta dar ordens, mas ainda é jovem e inexperiente; não tem capacidade para isso, ao menos por enquanto. A garota levantou os olhos; seu rosto exprimia um ódio manifesto à mãe, não fazendo questão de disfarçá-lo.
-- Como vai? Suas palavras frias como o gelo demonstraram a Dafni que não era bem vinda. Permaneceu em pé frente a Dafni, com uma atitude agressiva. E, quando se preparava para articular suas próximas palavras, foi interrompida bruscamente por Deméter, que, com voz severa, ordenou que a moça voltasse ao lugar. Essa o fez a passos largos e muito rápidos, demonstrando toda sua insatisfação.
Ao chamar Toossa, Deméter mudou totalmente sua fisionomia. Sua face enrugou e sua voz era rouca e áspera. Dafni atribuiu, por um momento, o exaspero da avó a Pélias, indagando consigo qual a razão da atitude inóspita da moça para com a mãe. Toossa aproximou-se e Dafni, em seu devaneio, só a percebeu quando estava a sua frente. A moça, em pé, parecia mais velha que Pélias, superando-a na altura e desenvolvimento corporal. aquela garota apresentava indícios de uma mulher bela, que muito lhe prometia o tempo de bom em seus traços. Eram cabelos muitos lisos, destacando-a das irmãs que apresentava, no ruivo fogo dos cabelos, cachos grandes e leves. A cor de seus cabelos, porém, não negava o ruivo mais ameno de Cânace. Toossa tinha a pele coberta de sardas; isso, porém, não tirava em nada seu encanto. Os olhos eram azuis. Dafni gelara. Os olhos de Toossa eram azuis, tão límpidos como os de sua mãe. Tudo ficou claro a partir desta constatação; era esse o motivo de raiva da avó. Toossa era muito parecida com Perséfone, não por certo em detalhes físicos; mas a voz, o sorriso, em tudo assemelhava-se aos da irmã. Dafni demonstrou abertamente sua simpatia pela moça.
-- Seja bem vinda, pequena! Toossa inclinou-se e beijou suavemente o rosto de Dafni, e, como sua mãe, a menina a fitou intrigada. A moça sorriu-lhe e a covinha do queixo exibiu mais uma semelhança incontestável das duas mulheres. Deméter, ao perceber a proximidade cúmplice das duas, ordenou, de imediato, a Toossa que voltasse ao seu lugar. Foi então que Neleu, o rapaz levantou-se com garbo, andando como um cavalheiro de armadura, em sua direção. Dafni quase não conteve o riso ante a comicidade da situação; retraiu-se, pois o bom senso a advertia que Neleu levava sua postura muito a sério e rir de suas maneiras seria uma grave ofensa ao jovem. Seus traços eram semelhantes aos das irmãs; seu corpo, porém, era truculento, demonstrando um homem-menino. Esse é o mais velho de meus filhos homens, disse Deméter num tom de voz denunciando que seus modos não eram engraçados, somente a Dafni.
-- É uma honra recebê-la. Saiba que estarei ao seu inteiro dispor, caso precise da proteção de um homem. Fez um gesto gentil com a cabeça. Deméter não se contendo, gargalhou uma torrente de risos contidos até então. Neleu cruzou a mão nas costas num gesto autoritário, dando meia volta na ponta dos pés e, com um semblante muito sério, demonstrou ter sido gravemente ofendido em sua dignidade masculina. Ao acalmar dos risos, Deméter apresentou Tiro, Alcione, Celeno, Bentesicime, Despoina, e Pluto. Os cinco primeiros em tudo se pareciam. Pluto, o menor, era uma negação total do restante da família. Seus cabelos eram de um loiro quase esbranquiçado; os olhos eram duas órbitas brancas, onde não se viam as pupilas; seu corpo era miúdo e magro, deixando seus ossos à mostra; dentes dissemelhantes, finos e bem separados; e o rosto austero dava-lhe cem anos. Lembrava um cadáver pensou Dafni de si para si. Foi com asco que Dafni percebeu a aproximação do garoto. Suas mão geladas tocaram seu rosto e seus dedos caminharam lentamente por todos os seus traços. Dafni retesou-se num gesto angustiado e amedrontado. Deméter levou o filho ao colo, com um carinho especial e beijou-lhe a face ternamente.
-- Como vai, meu pequeno tesouro? Sente-se bem hoje? Ah! Quer ir com a mamãe ao campo? Boa idéia! Sabia que gostaria. Suba e pegue suas coisas.
Dafni paralisada, não sabia o que pensar diante do monólogo da avó. Estava muito assustada. Em toda sua vida, embora feita de poucos anos mas de muita experiência, nunca tinha deparado com uma figura tão assustadora como a do pequeno Pluto. Sentia a cabeça rodar e demorou para decifrar a voz longínqua e melíflua de Deméter. Olhou fixamente o garoto subir seguro as escadas, sumindo no andar superior da casa.
-- Dafni! Está me ouvindo? Deméter sacudia a menina, preocupando-se com a palidez de seu rosto. Dafni, você está se sentindo mal?
-- Hã? Sim! Quer dizer, não! Acho que fiquei um pouco atordoada, só isso.
-- Não se assuste com Pluto! ele é inofensivo. Sabe, ele é mudo. E ao tocá-la, queria somente saber como você era, pois é a única forma de poder conhecê-la. Ele, também, não pode enxergar: é cego surdo-mudo de nascença.
Dafni, quase desfaleceu diante da revelação. Como pode? Pluto parecia ver e ouvir perfeitamente. Há pouco não fizera o que a mãe lhe propunha? Como sabia onde encontrá-la sem luz e sem sons.
Deméter, como se ouvisse os pensamentos da menina, esclareceu:
-- É estranho de certo, mas Pluto entende tudo; e, de certa forma, vê melhor que todos nós, ouve e entende. Não se ocupe tanto em saber como; ainda não é o momento certo; logo muitas coisas ficarão entendidas, e as sombras que pairam em sua mente se desfarão. No momento basta que não tenha medo dele. Encare-o apenas como uma pessoa um pouco diferente de você.
-- Quantos anos ele tem? – perguntou de um fôlego só, dando margem aos seus impulsos, sem ouvir sua razão que a advertia para não ir além na questão.
-- Quatro. E apenas dois anos mais velho que você. Poderão ser amigos não acha?
-- Por certo! – respondeu Dafni com voz trêmula e pouco convincente.
-- Cânace tem quatorze anos, Mélia treze, Pélias doze, Toossa onze, Neleu dez, Tiro nove, Alcione oito, Celeno sete, Bentecisime seis, Despoina cinco. Agora você é a mais nova da família.
-- São anos solares? – perguntou em voz falseada e de admiração.
-- Sim! É claro! Sempre contamos a idade em anos solares.
-- Mamãe tem vinte e seis anos solares. Contou-me que cuidava de todos eles, menos de Pluto que não havia nascido quando partiu. Ela tinha dezesseis anos quando deixou sua companhia. Como então podem eles ter tão pouca diferença de idade?
Deméter exibiu novamente aquele ar furioso, que a transformava em um outros ser; uma criatura medonha e perigosa, uma serpente pronta a dar o bote. Respondeu à neta com voz retumbante, impregnada de rancor:
-- Foram purificados. Nunca mais, nunca mais, ouça bem pois só direi uma única vez, nunca mais toque no nome de Perséfone dentro dessa casa, e, principalmente, apontou com o indicador na direção dos filhos, diante deles.
-- Cale-se! Nunca queira saber o que não deve. O que não entende, não lhe cabe compreender; o que for útil a sua sobrevivência, eu mesma lhe contarei. Quanto ao restante, não desenterre ossos, pois pode ser muito pior para você. Entendeu? Deméter segurava os braços de Dafni com tamanha força que chegou a interromper-lhe a circulação naqueles músculos. Dafni estava prestes a chorar de dor, demonstrando em sua face o terror dos olhos da avó. Ouça menina, a dor física, por vezes, é bem mais amena que a de certas recordações. A incerteza é benéfica, pois traz consigo duas probabilidades: ou que queremos saber nos trará muita alegria ou sofrimento disparital e irreparável. Portanto, fica meu conselho: mergulhe em suas dúvidas, e procure, em suas idéias, fantasias boas para saná-las. Creia-me! Isso a fará bem mais feliz.
Deméter largou o braço de Dafni repentinamente, sumindo do interior da casa. A menina, em desespero, procurou novamente o lenço da mãe entre as mãos, esquecendo-se por completo de não tê-lo entre os dedos.
Dos irmãos, somente Cânace parecia feliz com a situação constrangedora. Os demais permaneciam calados com um olhar de piedade voltado para Dafni.
Cânace, sorrindo, começou a dispersar todos, dando a cada qual duas tarefas diárias. Quando se encontrou só com Dafni, agachou-se, e, com um olhar maldoso, acrescentou:
-- Então, garotinha esperta? Satisfeita? Pode chorar se quiser. Prometo que não direi nada a ninguém. Fez uma careta, que em qualquer outra situação seria cômica, mas ali, naquele instante, era mais uma forma de ataque frontal à garota. Cânace queria saber até que ponto Dafni lhe daria trabalho; isso ela saberia testando sua resistência; quanto mais cedo fugisse ou chorasse, melhor para ela. Não gostava de domesticar cavalos selvagens. Uma coisa deveria deixar bem clara aos olhos da pirralha: era quem, depois de sua mãe, dava as ordens ali.
-- Vamos, continuou impiedosa! Chore ou corra! Faça o que quiser!
Dafni permaneceu imóvel por alguns minutos.
Depois com voz calma e olhar pacífico, perguntou a Cânace:
-- Quais são minhas tarefas? Exasperada Cânace ergueu a mão direita e esbofeteou a garota tão forte que a jogou no chão. No canto de sua boca o sangue corria, dando uma coloração avermelhada ao rosto desafiante da menina.
-- Então, Cânaca! Hoje nada devo fazer além de servir-lhe de saco de pancadas? Se assim for, diga-me, pois levantar-me-ei quantas vezes cair, até que seu braço canse, ou, então, o sangue se esvazie de meu corpo.
Cânace atirou-se em cima de Dafni e pôs-se a esbofeteá-la ferozmente, sem que a mesma soltasse um gemido de dor. Foi, então, que Deméter entrou subitamente, deparando com a cena. Gritou com toda energia.
-- Cânace! O que está fazendo? A moça susteve o punho fechado no ar e voltou-se pálida na direção da mãe que, já bem perto, agarrava-lhe os cabelos.
-- Como pode? Não vê que é só uma criança?
-- É um demônio encarnado no corpo de uma menina. Não vê isso mãe?
Deméter, ainda segurando a filha pelos cabelos, voltou forçosamente seu rosto de frente para o seu.
-- Ouça, Cânace! Sei bem o que faço! E você sabe que não deve castigar ninguém nessa casa. A única pessoa que tem tal direito sou eu. Perderá seu direito de primogênita durante duas luas, pelo seu ato impensado. Cânace calou sabendo ser qualquer protesto inútil naquele instante; porém prometeu a si mesma que Dafni pagaria muito caro por aquilo.
Deméter ajudou Dafni a levantar-se e cuidou de seu rosto ferido, sem uma palavra. Ao terminar, Pluto encontrava-se ao seu lado sem ter sido notado até então. Colocou a mão no ombro da mãe durante alguns minutos, e Deméter olhava para seus olhos mortos como se eles dissessem alguma coisa. Então balançou a cabeça num gesto afirmativo, e o menino exibiu de imediato seus dentes pontiagudos numa forma de sorriso.
-- Dafni! Pluto pediu para você acompanhá-lo ao campo. Quer vir conosco?
Sem nada entender, concordou satisfeita por livrar-se de Cânace, ao menos naquele dia.
Andaram durante um quarto de hora sem descanso. O sol alto teimava em fazer a paisagem tremeluzir. Antes os olhos de quem as contemplasse, pareceriam miragens, imagens de um sonho. Dafni mal conseguia respirar, molhada de suor; seus pés, doíam, bem como seu rosto que inchara bastante devido às pancadas de Cânace. Deméter andava com ligeireza bem à frente dela e de Pluto que, embora andasse a passos curtos, parecia fazê-lo somente para acompanhar Dafni, o que a irritava profundamente. Quem pensava ser ele? Aquele verme sorrateiro, cego como um morcego, queria ser sua mão guia. Era muito atrevido. Quanta audácia achar que ela, Dafni, não poderia se virar sozinha; pois, em, breve, ele saberia do que ela era capaz. Pluto virou-se na direção de Dafni e, como a responder seus pensamentos, mostrou aqueles horríveis dentes pontiagudos sorrindo divertido. Dafni, raivosa, espremeu os lábios, levando as mãos ao chapéu muito grande para sua cabeça, e segurou com toda a força alçando vôo na tentativa de ultrapassar Pluto e alcançar Deméter. Marchando ruidosa, seus pequenos pés levantavam poeira ao alcançar a avó que, mesmo sem voltar-se um só instante para trás, estava com riso de quem tudo observa, e divertiu-se com o gênio tempestivo da menina.
-- Então, Pluto lhe agrada ao ponto de deixá-la fora de controle? Cuide-se, Dafni! Pode apaixonar-se pelo meu pequeno príncipe.
-- Vovó! Sei que pode ofender-se com minhas palavras, mesmo assim as direi. Pluto é estranho, insuportável, arrogante e, além de tudo, ainda é muito feio.
Deméter virou-se com um ar preocupado para a neta. Percebia seus olhos esfogueados, a face rubra e os lábios pressionados pela raiva.
-- Como pôde em tão pouco tempo? Pluto já roubou-lhe o coração. Quando se ama muito jovem e com tanta intensidade, jamais se esquece esse amor. Que Afrodite a encante junto a Pluto; caso contrário tenho pena de meu menino. Você não parece o tipo de mulher que desiste fácil quando deseja alguma coisa. Temo que se ele não a amar por bem, vai ter que se acostumar a ser amado por você, sem reclamar. Dafni perdeu completamente o controle qual uma garotinha mimada. Encarou a avó furiosa e soltou um grito sonoro prolongado, ao mesmo tempo que mantinha os olhos fechados, os punhos travados e jeito de um pequeno lobo prestes a atacar sua presa.
-- Eu o odeio! Eu odeio esse morcego, essa criatura horrenda! Gostaria que não existisse. Ao terminar seu desabafo, correu, entre lágrimas, pela vegetação rasteira e escassa. Deméter ria abundante da reação da pequena, quando Pluto a alcançou. A mãe, abaixando-se, afagou os cabelos do menino e, com a voz permeada pelo riso, tentava concluir sua frase:
-- De certo, Pluto, sua presença a atormenta bem mais que os bofetões de Cânace. O garoto sorriu à mãe que complementou:
-- Ah! Então, também foste dela? Vejo que terei muitos problemas nesse embate amoroso. Segurando as mãos do garoto seguiram em frente, ainda, com as faces iluminadas pelo riso prazeroso. Avistaram as primeiras árvores que anunciavam estar o campo perto. A vegetação abundava naquela parte e o verde das colinas amenizavam o calor. O campo, onde Deméter trabalhava, ficava além do frescor das árvores e da proteção das asas das colinas, ao lado dos pântanos, onde donatários descobriram a forma de aterrá-lo e fazer dele terra produtiva; para tanto utilizavam-se os serviços dos aldeões que mais necessitavam, dando-lhes, no final do plantio, algumas moedas de prata, algodão cru para fazerem suas roupas e pequenos apetrechos necessários à sobrevivência. Na colheita, davam-lhe cerca de dez por cento do trigo colhido e com isso passavam até a próxima colheita. Havia famílias que lucravam com esse sistema, pois possuíam muitos filhos crescidos e prontos para o trabalho; e, tendo a sorte de ser vassalo de um bom suserano que permitisse os filhos trabalharem, junto com os pais, era compensador. No caso de Deméter, seu trabalho era sacrificado, mas rendendo-lhe o bastante para sobreviver. Não podia contar com a ajuda dos filhos no campo, pois seu proprietário julgava darem azar no plantio Sendo assim, com grande habilidade nutria a todos sem deixar nunca faltar o básico. Avistando a entrada para seu campo, que era demarcada por duas pedras pontiagudas em forma de portal, Deméter falou a Pluto que enchesse o cantil de água e pegasse a sacola, feita à mão com tecido de algodão, na qual havia pão e algumas tâmaras, e voltasse à procura de Dafni.
O menino obediente, cerrando o cantil, ao mesmo tempo que pendurava a alça da sacola nos ombros, sorriu e beijou a mãe.
-- Pluto, deixe bem claro a Dafni que não deve passar os limites da pedra, pois, o senhorinho pode aparecer de repente e isso causará muitos problemas. E, Pluto, não a deixe muito furiosa, está bem! Ela já se cansou muito por hoje. Pluto saiu a passos seguros, indo direto ao encontro de Dafni. A menina estava sentada em uma pedra à beira de um pequeno riacho coberto por árvores pequenas e frondosas; o início do riacho era límpido e calmo dando para avistar a areia branca do fundo raso; alguns poucos metros, à frente suas águas tornavam-se violentas, e ao limpidez inicial tornava-se turbulência e perigo.
Dafni absorta na paisagem não percebeu Pluto atrás de si. Diga-se, porém, que Pluto caminhava suave como animal traiçoeiro, só notado por sua vítima quando estava prestes a ser abatida. Dafni estremeceu pelo susto ao deparar o pequeno ser cadavérico às suas costas. Num gesto desolado, deixou-se cair levemente na pedra e deitada, puxou o chapéu sobre o rosto, ignorando a presença do menino. Pluto retirou a alça da sacola que trazia nos ombros e abandonou-a junto ao cantil no encosto de uma árvore; sentou ao lado da pedra onde estava Dafni e lá ficou esperando a boa vontade da menina. Após um longo silêncio cortado somente pelo canto dos pássaros, Dafni resolveu mover-se; sentou-se e ficou a olhar o riacho, pensativa, enquanto remexia o chapéu de palha em círculos.
-- E um lugar muito bonito esse! Falava sem voltar-se para Pluto. O rio é calmo e raso no começo, tão limpo e convidativo; tenho vontade de nele banhar-me. Levantou-se deixando o chapéu sobre a pedra. Prestes a lançar-se nas águas do riacho, estava feliz pela idéia de poder sentir a água fresca em seu corpo após a cansativa caminhada. Tirou os sapatos e, quando se preparava para entrar na água, as mão de Pluto a impediram com violência. Dafni horrorizada sentiu as garras cadavéricas a pressionar seu antebraço.
-- Largue-me, idiota! Como se atreve! Olhou as órbitas sem vida do garoto sentindo uma aflição por detrás daquela cortina branca, uma preocupação velada que o garoto tentava desesperadamente passar.
--O que está havendo, Pluto? Não se preocupe! Não passarei a parte brava do rio. Pluto apertava mais o braço de Dafni e num gesto de desespero, remexia os lábios sem som e seu rosto mostrava pavor, quando a puxou até um galho fino de árvore que se estendia prestativo sobre seus pés. Sem largá-la um minuto, levou-a até as margens do pacífico riacho e mergulhou o galho em suas águas límpidas até alcançar a areia do fundo. Dafni empalideceu ao ver o galho ser subitamente tragado pelo fundo do rio. Impiedosa a areia engoliu, veloz, e de mansa e pálida tornou-se um redemoinho voraz. Nenhuma criatura que ali pisasse, teria a mínima chance de ver a luz do sol novamente. Apavorada com o que seus olhos acabavam de contemplar, disse num fio de voz:
-- Mas, maaas... ele parecia tão inofensivo, tão tranqüilo! Como pude me enganar?
Pluto, com os dedos, começou a escrever na terra, na escrita que só os sacerdotes conheciam. Dafni aprendera sua leitura com o velho da batina e, após um curto espaço de tempo, a menina leu a mensagem.
A natureza é como o coração do homem. Nunca é o que aparenta ser; por vezes traiçoeira nos leva ao abismo da morte; outras, à fonte da vida. Os olhos da carne vêem só o aparente; como a natureza, o homem só mostra de si aquilo que quer que seja visto. Uma mesmo homem pode parecer bom a você e mau a seu vizinho mais próximo; tudo depende das intenções de tal homem. O ser humano é um enigma, seu coração um labirinto em que nem mesmo seu dono encontra a saída. A totalidade suprema do bem e do mal são segredos que o homem, em sua corporeidade desconhece. Ninguém é totalmente bom, ninguém é totalmente mau. A vida é tempestiva e inconstante; num minuto somos anjo, no seguinte demônios. Entender um único homem em sua amplitude, seria entender todo o universo e seus mistérios de uma só vez. O rio em sua aparência era calmo e seguro; porém, em sua essência, era um monstro voraz. Nunca julgue um homem pela capa que veste, pois, por trás das vestes de um moribundo, pode esconder-se um deus audacioso e em pleno vigor. Dafni terminou a leitura permanecendo calada por algum tempo; levantou os joelhos do solo e, com voz tirilitante, perguntou onde Pluto havia escondido a comida. foi numa atmosfera despreocupada e agradável que passaram o restante do dia. Dafni falava todo o tempo de futilidades; e Pluto não escondeu seus dentinhos de roedor um só instante. A tarde caiu serena; o céu cobriu-se com vestes alaranjadas, e o sol mostrava-se por inteiro calmo, prestes a deitar-se nos braços da noite.
Deméter achou os dois garotos estirados sobre a relva verde, Dafni apoiava a cabeça no ombro de Pluto, embora estivesse na posição inversa do mesmo, e dormia tranqüila e profundamente, assim como Pluto. Deméter ficou por instantes a admirar a magia daquele quadro para a seguir despertá-los com passos pesados, como se acabava de chegar. Os dois abriram os olhos lentamente, como se desejassem nunca mais acordar. Deméter fingiu, com rispidez, tentar apressá-los.
-- Vamos! Tenho pressa! Não ficarei a esperá-los por toda noite! Temos longa caminhada a nossa frente. E partiu célere em meio as árvores, fazendo Dafni e Pluto correrem atrás, cabendo a Pluto segurar, desajeitado, a sacola, o cantil e o chapéu da Dafni.
Chegaram a casa banhados pela luz cândida da lua. Ainda distante da porta, via-se o tremeluzir das chamas da lamparina, formando espectros sobre o chão branco do terreiro limpo. No ar, o cheiro de carne assada, roçava as narinas dos famintos recém-chegados. Deméter entrou na casa, imediatamente acolhida com calor por todos, inclusive Cânace. Faziam uma algazarra estonteante. Queriam contar seu dia em uma só voz; Deméter, divertida, ouvia todos respondendo com igual zelo desde interpelações mais sérias às simples provocações de um irmão com a outro. O jantar transcorreu nesse clima divertido. Nele dançou e cantou; todos riram e aplaudiram entusiasticamente os passos de gazela do garoto. Foi quando Mélias com um bater de mãos, como quem lembra um fato imprescindível, em voz hilariante dirigiu-se à mãe:
-- Mãe? O que são esses baús? – perguntava apontando para os suntuosos e calados objetos, esquecidos em fila no canto da sala.
-- Bem lembrado, Mélias! Esquece-me por completo, de abrir os presentes do pai de Dafni.
-- Deixe-me abrí-los, mãe? Onde estão as chaves? – perguntou Mélias com as mãos abertas paradas no ar.
-- E claro que tenho as chaves; mas não será você a felizarda a abrí-los, respondeu à filha, dando-lhe um tapinha na mão estendida à espera das chaves.
-- Abra-os gritou. Cânace, eufórica!
-- Está bem! – respondeu, levantando a mão num sinal de calma, que fez todos silenciarem. Caminharam até o canto onde estavam os baús, e Deméter, tirando as chaves do bolso, começou a experimentá-las uma após outra; achando a do primeiro baú, perto da porta, deixou-a no cadeado e, assim, procedeu com os outros nove, ainda, por abrir. Ao terminar a distribuição das chaves, olhava, excitada, e hesitante as fechaduras com feição de quem não sabe o que vai encontrar. Enfim decidindo-se tornou, em passos lentos, ao primeiro baú; agachada, levou as mãos trêmulas ao cadeado e, imobilizada nessa posição, hesitou amedrontada.
-- Abra! Vamos, mamãe! O que está esperando? Abra! – gritavam todos em coro.
Deméter girou a pequena chave lentamente; retirou o cadeado, que obediente não ofereceu resistência.
levantou a tampa e um rangido desagradável agrediu o silêncio do recinto; ao ver, à luz, o que guardava cuidadoso em seu âmago, Deméter não acreditava em seus olhos. Levou as mãos à boca, soltou uma expressão de alegria frenética.
-- Aaiii! Hã! Não posso acreditar! E mesmo verdade? Correu os olhos na direção dos filhos como a pedir que confirmassem se era verdade o que os olhos viam. Todos, pasmos, mostravam a mesma expressão de espanto incrédulo do rosto da mãe.
Embevecida de prazer. Deméter correu a abrir com sofreguidão baú após baú, sustando a respiração. Parecia agir em transe hipnótico. Gritava a cada chave que cedia ordens de seu punho veloz. Quando todos estavam abertos, parou resfolegante no meio dos dez baús, como o sol ao meio-dia. Aquecia com seu olhar os objetos reluzentes. Num espasmo conjunto, todos os dez filhos, à sua volta, pulava, berrando como animais selvagens. Cada baú estava repleto de pedras preciosas: rubis, safiras, esmeraldas, pedras de ouro negro, pérolas, cravejos rosados, mançans, sangrons. As três últimas só eram encontradas nos tesouros secretos dos grandes reis das terras baixas.
Deméter gritava sem parar. Compraremos o mundo; somos donos da terra. Os filhos a abraçavam fazendo planos mesquinhos, procurando relíquias para comprar com toda aquela riqueza. Dafni, entre a confusão, foi até a rede encontrando seu lenço. Estava a observar a cena de costas para a escada, quando sentiu o gelo da presença horripilante de Pluto, numa ameaça muda. Virou-se para encará-lo; seus olhos eram duas chamas ardentes e seus dentes pontiagudos abriram-se num sinal de raiva, que atingiu diretamente a alma da Dafni como uma flecha afiada. Ela gemeu de dor; segurou seu lenço entre os dedos com muita força, recompondo-se de golpe inesperado. Pluto voltou lentamente a cabeça para a família, virou-se novamente com ar soturno para a menina. Dafni, porém, dessa vez não teve medo, enfrentando seu olhar. Sorriu diabolicamente; abriu o pequeno lenço negro e estendeu-o em frente ao rosto de Pluto, queimando-lhe a alma com as chamas de um fogo que ao menino pareceu eterno. Dafni via Pluto contorcendo-se de dor, ouvindo seus gritos mudos aos ouvidos, regogizando-se em seu sofrimento. Aos olhos carnais, Pluto permanecia imóvel; porém sua alma gritava para que Dafni parasse:
-- Por favor, Dafni! Pareee! – rugia a alma do menino em seu suplício.
-- Foi você quem começou! Gostaria de manter seu espírito a arder pela eternidade, mas não o farei; porém um gesto de traição e jogá-lo-ei na mais completa escuridão.
-- Farei tudo que desejar, prometo! Pluto era agora seu humilde servo e Dafni resolveu poupá-lo. Retirou o lenço do rosto de Pluto, guardando-o no bolso de sua anágua comprida. Agora ela e Pluto tinham um pacto. Sentaram-se no chão lado a lado, pernas cruzadas, observavam calmamente alegria dos diamantes e o triunfo do ouro sobre os homens. Eram seres humanos no auge de uma felicidade feita por pedras.
IV
Os olhos são as janelas do corpo; através deles conhecemos o universo material visível. Existem, porém universos em que a luz do olho humano não pode penetrar.
Esse universo complexo, invisível a olho nú, envolve muitos outros universos, onde nem sempre o homem é convidado a entrar. Em uma gota de água existem vidas, diferentes da nossa, e que ignora, como nós, a existência de outros cosmos, de outras vidas. Vivem em seu micro universo, isoladas. Vivemos na terra, ocupamos um lugar no espaço; mas só um lugar. Separados pelo espaço e pelo tempo, estamos presos em uma dimensão. Muitos existem em seu mundo; porém seus olhos não os podem ver. O corpo é a prisão da alma; a matéria, a limitação do conhecimento. O homem é um ser natural, uma mediação entre o conhecimento e o desconhecido. Ele é homem animal e deus racional. Onde esta o limite? O desconhecido conhece o homem. Cabe ao homem tentar conhecer os mistérios que o cercam.
Qual é o preço da ousadia do homem que arrisca adentrar no obscuro universo, no desconhecido? Sair da animalidade, tomar consciência de si e dos mistérios do mundo, é abandonar a inocência dos animais, é tomar conhecimento de quem e do que é, e do que se deve ser, é desempenhar seu papel frente ao mundo em que se vive. Quando não se tem consciência, a defesa pode ser a falta da luz da verdade; porém, ao ser iniciado nos mistérios do mundo, o homem passa a ser culpado pelo seu conhecimento, responsável pelos seus atos, sem ter mais asas da ignorância a protegê-lo. O conflito, o desespero, a mendicância vêm ao homem que, conhecendo seu papel no universo, não o desempenha pelo medo da arbitrariedade dos outros, teme o ridículo de ser diferente, e tendo a espada da verdade nas mãos não a usa, pois prefere seguir o mesmo passo dos animais, e negando sua essência, morre ainda tendo vida nos poros.
-- A ignorância, talvez, seja a melhor amiga dos homens, a cegueira sua fiel comparsa. Cego, ignorante, frágil, segue o homem seus dias, suas noites, sem perceber a diferença de um ou outro. Não sou responsável pelo que fizeram ao mundo. Dizem, quando vim a ele, o encontrei feito, acabado. O que pode um único homem fazer frente a uma multidão, senão seguí-la?
Os céus demonstrava insatisfação. Muitos dias e noites velara o rosto azul, com o manto negro e turbulento. Chovia torrencialmente há duas luas; os ventos açoitavam as árvores e os homens, com fúria titânica.
Dafni estava na janela da torre observando os raios a rasgarem o véu escuro daquela noite-dia. Pluto, a seu lado, estava inquieto; seus sentidos, sua energia era aguçada pela energia furiosa que a natureza despendia. Pluto via o mundo através ondas de energéticas; e sua deficiência física tornava-o capaz de sentir e ver coisas que os homens perfeitos não viam. Dafni compreendia sua excitação, e, no forte vínculo que havia entre suas almas, seu sofrimento era agonia a alma de Dafni, na mesma proporção.
Dafni tornou-se aos olhos carnais de Pluto; ouvia sons por ele e os passava numa comunicação perfeita, forte, feita do silêncio da boca e do escuro dos olhos; suas almas conjuntas luziam o mundo externo e interno, constituindo fenômenos que a ambos assustava. Ninguém participava de seu mundo, de sua linguagem; sabiam que assim continuaria a ser, pois o dialeto que falavam, era o do amor; e, nesse campo de flores e sol, somente os dois caminhavam, sós, seguros pela presença um do outro.
Tudo havia mudado desde que Deméter recebera a fortuna dada por Hades. Moravam agora no alto da colina de Trulles. Deméter comprara uma antiga fortaleza pertencente ao Duque de Queens que, há muito, tinha mudado para as terras baixas, deixando o castelo ao abandono do tempo. Até então, ninguém em Trulles possuía ouro suficiente para comprá-lo; os nobres da proximidade tinham verdadeiro horror da pequena aldeia. Assim Deméter adquiriu a propriedade com ouro, pagando por ele apenas um quinto do seu valor, deixando o Duque satisfeito pelo negócio, visto o mesmo não haver recebido, até aquela data, proposta alguma pelo castelo, já abandonado, há dez anos. Deméter levantou suas ruínas, tornando-o um lugar bonito, agradável para se morar, comprou também todas as terras do Duque e seu título por duzentas safiras todas as terras do Duque e seu título por duzentas safiras e vinte diamantes, convencendo o nobre falido com o brilho de suas pedras valiosas. Era agora a mulher mais poderosa de Trulles. Dona de quase todas as searas, decidia a vida de todo o povo da aldeia; sendo severa em seus julgamentos, instituía leis de vida e morte dentro de seus domínios.
O castelo estava abarrotado de empregados pagos e servos permanentes. Cânace divertia-se em perambular entre essas pobres criaturas o dia todo, dando ordens abusivas só pelo prazer de matar o tempo. Para animar o dia monótono, chegava à cozinha pedindo que preparassem frango acompanhado de batatas para o almoço, que era servido rigorosamente às onze horas. Então decidia-se por outra iguaria de difícil preparo, dando novas ordens minutos antes da refeição. Se o chefe de cozinha dissesse ser impossível o preparo de nova refeição em tão pouco tempo, mandava açoitá-lo por julgar desafiada; se o mesmo fazia sua vontade servindo a refeição tardiamente, mandava que o jogassem no porão do palácio por dois dias, sem comida e sem bebida. Certa vez, enamorada do jardineiro, mandou que a esse subisse aos seus aposentos ao entardecer, dizendo precisar instruí-lo melhor a respeito do cuidado do plantio das flores da estação que logo vinha. O rapaz, desconfiado das verdadeiras intenções da moça, decidiu, temeroso, consultar Deméter antes de cumprir as ordens da jovem. Disse a Deméter, com grande arte nas palavras, que se julgava indigno de subir aos aposentos de Cânace, sendo ele um simples servo e ela sua senhora, bela e casta. Deméter dispensou o rapaz, tranqüilizando-o quanto ao seu destino, desobrigando-o da tarefa imposta pela caprichosa Cânace; mandou-o voltar para seu quarto na ala dos servos, pois percebeu, com clareza, as intenções da filha. Mandou uma de suas amas chamá-la, impondo, em voz firme e clara, que desejava a presença imediata da filha. Cânace desceu imediatamente com a ordem que recebera, chegando resfolegante à presença de sua algoz. Recebeu dura admoestação pelo ato indigno de uma moça de sua posição, ao que ela fez ar de arrependida, alegando ter sido enfeitiçada pelo belo rapaz. Deméter, ante as lamúrias da filha, dela apiedou-se e deu-lhe o servo de presente. Cânace agradeceu, efusivamente, à mãe. Mandou chamar o “pobre moço” aos seus aposentos que obedeceu à nova ordem, pois já havia sido informado do seu destino.
Ao chegar, encontrou a pesada porta semi-aberta, fazendo-o hesitar. Foi quando ouviu uma voz vinda de dentro dos aposentos:
-- Entre! Tranque a porta!
Foi feito. Trancou a porta com a chave de ferro. Adentrou ao quarto. O ar tinha cheiro forte de jasmim; as velas tremulavam em suas chamas o vermelho do tapete e das cortinas. No centro do quarto havia uma enorme cama de carvalho lustroso, coberta de véus rubros, atado nas quatro pontas da cama; os lençóis, que a cobriram, eram de pura seda, cor de “carmim”. O aposento era rodeado inteiramente por balcões de carvalho, com detalhes talhados à mão. Sobre eles pousavam vários castiçais de ouro, guardiões calados a segurar suas tochas, iluminando aquele pequeno mundo, de ar impregnado pelo desejo dos dois corpos, separados por curto espaço de tempo, sufocados pelo prazer antecipado por suas idéias, suando o desejo não satisfeito pela carne, mas já vivido pela alma; em cantos opostos, seus corpos fremiam impossibilitados por um passo, temendo acabar a magia daquele ambiente rescendendo a jasmim e temendo esvaiar-se pelas frestas aquela luz bruxoleante das velas de seu coração quando seus corpos se tocassem.
Em passos lentos, Cânace surgiu dos fundos, parando do lado esquerdo da cama; no rosto guardava aquela empáfia tão conhecida. Vestia uma camisola fina de seda branca transparente. Seus cabelos soltos caíam nos ombros em cachos fogosos como o desejo que consumia seu corpo; seus olhos brilhavam denunciando, nos amplexos daquela mulher, o ardor de Afrodite. Cânace percorreu com os olhos, o rapaz parado à sua frente, deliciando-se ante a beleza apolínea: moreno, músculos salientes, cabelos negros encaracolados, olhos negros com sensualidade animalesca mesclada de uma ternura só encontrada no olhar das crianças. Um vento intruso remexeu a cabeleira negra de Hefaístos, fazendo seus cachos esvoaçarem ao léu, caindo obediente nos ombros de onde tinham saído. Hefaístos, cheio de desejo, olhava a mulher ruiva como chamas de uma fogueira e seu corpo inflamava-se mais e mais; caminhou com jeito de animal indomável, devido a sua altura e físico atlético graças ao trabalho pesado. Lenta e leve, caminhou rumo a sua presa.
Cânace tirou o roupão fino jogando atrás de si. Tinha sobre seu corpo somente a camisola longa, extremamente transparente, com um generoso decote, presa por duas fitas no ombro. O tecido fino deixava à amostra cada traço do seu corpo: seios firmes e pontiagudos demostravam o desejo de seus sexo. As linhas sinuosas do seu corpo eram, totalmente, reveladas por segundos, quando as luzes dos castiçais brincavam de esconde-esconde, aumentando e abaixando suas chamas.
Cânace perguntou numa voz rouca:
-- Qual é seu nome de batismo, servo?
-- Hefaístos, respondeu uma voz forte, impregnada pela dor da espera.
-- Tire sua túnica! Quero vê-lo antes de possuí-lo. Hefaístos desamarrou o laço do ombro esquerdo, deixando cair a túnica de algodão grosso de trabalhador. Cânace percorria, com olhos de tocha, cada músculo, cada minúscula partícula do corpo daquele homem, esquecendo, na plenitude do momento, mandar ar aos pulmões. Suas pernas bem torneadas caminhavam num ritmo lento; os pêlos que cobriam seu corpo, rescendiam o suor de seu desejo. Cânace levou as mãos até o laço da camisola e o desfez lentamente, deixando cair o lado direito; desvelando, por completo, seus seio alvo de aura rósea. Quando estava prestes a desvencilhar-se do outro laço, Hefaístos, como um relâmpago, estava a sua frente; segurou-lhe a cintura com as mãos fortes, apertou-a impetuosamente contra seu sexo rijo, aproximando seu rosto e deixando sua respiração confundir-se à de Cânace; num ímpeto de desejo furioso, Hefaístos desceu os lábios até o seio da moça, para subir lentamente até seus lábios cálidos; beijou-a demoradamente com paixão. De súbito separou seu corpo do dela; olhou a moça semi-despida, suas mãos buscaram-lhe o decote rasgando-lhe a camisola ponta a ponta, num gesto único e preciso. Vindo, à luz, aquele belo corpo, nua por completo Cânace não tinha na face aquela expressão de zombaria; estava abandonada nos braços de um servo, que, agora ela estava a servir. Enfim, ao deparar com a jovem totalmente desarmada, Hefaístos agarrou-a com ardor furioso, unindo seu corpo ao dela; suas bocas e mãos, travavam uma guerra de paixão. Cânace devorava a carne de Hefaístos, procurando seus lábios, sedenta. Embriagados pelo êxtase, amaram-se por todo o tempo, em todo o aposento; e à noite se fez pouca diante de tanto desejo.
O dia chegou iluminando dois animais cansados, no chão de um aposento luxuoso. E o sol apareceu quente. A partir daquela noite, Hefaístos passou a ocupar um dos quartos acima de Cânace. Era ele o primeiro a habitar a cúpula dos servos-concubinos. Cânace não podia desposá-lo por tratar-se de um servo-residente. Porém, sendo ela nobre, tinha o direito de possuir até doze servos-concubinos em seu quarto cúpula. Estes vinham aos aposentos de sua senhora quando ela os requisitava. De resto passavam a vida no ócio ou entretendo-se em afazeres domésticos; alguns talhavam objetos em madeira, outros divertiam-se em domar cavalos. Hefaístos, por sua vez, tornou-se ferreiro do palácio.
Cânace o amava, porém tinha o dever de escolher um nobre como marido. E outros onze concubinos para que um único homem não tivesse exclusividade sobre seu corpo. Assim acontecia porque as mulheres nobres eram vistas como senhoras supremas da vida e da morte; seu poder aumentava quando estavam ligadas ao cultivo da terra. As sementes eram por suas mãos abençoadas para nascerem viçosas; assim como também os campos eram arados e cultivados pelas mulheres, pois carregavam o fruto da vida, o princípio de tudo em seus ventres. Portanto, um campo arado pelas mãos de uma mulher, quando lançadas as sementes, certamente viriam bons frutos.
As senhoras da terra no primeiro dia de plantio, andavam com os pés descalços pelos campos semeados, transmitindo força vital à semente, embaixo de seus pés. Quando grávidas, tocavam em todo trigo estocado nos celeiros, para que sempre ali estivesse; como seu ventre abrigava a vida, os celeiros também abrigavam a planta da vida. Porém, tais regalias eram exclusivas das mulheres que tinham título de nobreza. As demais só podiam ter um marido, sendo proibidas de coabitarem com outros homens.
Mélia, ao ver Cânace adquirir seu primeiro concubino, passava seus dias atrás da mãe reclamando a compra de mais servos; alegava que os da casa ou eram mancos ou gagos, e insistia em ir pessoalmente ao mercado comprar os próximos servos residentes. Não satisfeita, Despona exigiu da mãe, que muito riu, um servo concubino.
-- Minha filha, não acha melhor completar seis anos antes? Provavelmente seu gosto por homens, até lá, haverá mudado muito.
Os dias passavam tranqüilos. Todos estava envolvidos em um tipo diferente de afazeres. Tiro e Neleu, divertiam-se na sala do segundo andar do palácio postados à janela que dava para o pátio, onde instituíram campeonato de cuspe. Ganharia quem acertasse maior número de cabeças. Passavam dias inteiros a cuspinhar nas vítimas que andavam pelo pátio. Alcione, achou uma cutia e resolveu adotá-la, fez-lhe roupas de lã e até um rabo de pele de carneiro; insistia ela em dizer que haviam cortado o rabo do pequeno mamífero roedor. Toossa, aprendia a montar; escolhia animais arredios; por isso toda noite ficava com o traseiro de molho dentro de uma bacia com água quente e ervas anestésicas, preparada ao entardecer para suavizar-lhe os ardores. Celeno e Bentesicime aprendiam a tecer com Deméter. Participavam do trabalho com jeito sério de damas fiadeiras.
Pluto e Dafni eram um só. Tornaram-se almas gêmeas; comiam e dormiam juntos. Deméter, a princípio, preocupou-se com o estranho laço entre as duas crianças; com o tempo aprendeu a encarar o fato com absoluta normalidade; achou mesmo bom Pluto ter encontrado companheira tão fiel, pois assim não se agastava atrás do menino, com medo de que esse se ferisse ou ficasse preso em algum cômodo do palácio sem poder ser socorrido caso algum perigo o ameaçasse.
Tinha muitos afazeres como castelã; preocupava-se com todo o povo que cuidava de suas searas. Sua aparência, também, levava boa parte de seu tempo, pois ao tornar-se Duquesa de Queens, não podia apresentar-se ao povo como uma camponesa gasta pelo trabalho. Mandou vir de Zeans, cidade vizinha, mulheres especialistas para cuidar de sua beleza. Era agora outra mulher; tomava banho de leite de cabra para melhorar a pele e seus cabelos ganharam nova vida com o banho de ervas e óleo. Trajava vestido de seda e acobertava-se com pele de ovelha; seus mantos eram de cores variadas; tinha mantos para ficar em casa, feitos de pele de ovelha comum, brancos ou amarelados; mas, para ir ao povoado receber homenagens, usava os mais raros, marrons ou avermelhados.
Quando vinham visitá-la ou pedir que julgasse uma causa de injustiça nos campos, cobria-se com seu mais raro manto, feito da lã das ovelhas Karakul. Era de pêlo brilhante, cinzento ou preto. Se o acusado era condenado, Deméter trocava o manto cinzento pelo preto e, em seguida, pronunciava a sentença, geralmente, muito severa.
Rejuvenescera graças aos muitos tratamentos de beleza; seu físico, antes curvo e diminuindo sua altura tornou-se ereto pelos exercícios de postura. Agora tinha novamente o vigor quase total de sua juventude: esguia, cabelos avermelhados, olhos azuis um tanto pérfidos, porém belos, mãos grandes e dedos longos, somente seu rosto e pescoço mostravam nuanças de sua idade. As filhas em tudo assemelhavam-se à mãe; a única exceção era Perséfone. Teria ela herdado as características físicas do pai? Até o momento Dafni sempre intrigada, não obtivera nenhuma resposta à pergunta. O nome do avô era tão vedado quanto sua imagem. Nem seu nome ela sabia; ninguém tocava em assunto que trouxesse, de alguma maneira, lembranças relacionadas ao avô. O nome de sua mãe e de seu avô eram envoltos em profundo mistério. Seus nomes eram proibidos; preferiam ouvir o clamor dos infernos ao nome de ambos.
Dafni seguia as regras. Ao menos por enquanto.
V
O mês de Janus chegou. Dafni estava em pé, frente a Pluto numa despedida que somente os dois partilhavam. Silenciosa Dafni abraçou o garoto com um calor carinhoso.
-- Estou pronta, vovó!
-- Muito bem! Sabe que nada pode levar de fora para dentro do mosteiro santo. Fui informada que sua iniciação será em Varlaan, no grande Meteoro. Astreu a levará até o vale do Penée.. No primeiro alvéolo, uma das sacerdotisas designadas pela mãe de todos, a levará até o cume do rochedo sagrado. Dafni manteve-se calada; mãos frias seguravam com força seu lenço preto. Deméter aproximou-se da neta e a beijou-a com rapidez.
-- Comporte-se, menina! Saiu da sala com passos aflitos. Os demais membros da família, nenhum veio despedir-se, e Dafni não sabia o porquê. Pluto, porém, continuava a seu lado, fiel e amigo. Acompanhou-a até a carruagem onde o cocheiro já a aguardava com a porta aberta.
Pluto tocou o ombro de Dafni, transmitindo um calor carismático com a ponta dos dedos. Continuou a aquecê-la com toda a força energética de que dispunha sua mente. A comunicação foi clara, como se em palavras ditas em bom e alto som.
-- Dafni, não tenha medo! Nem tudo o que é desconhecido, é mau. Sua alma será fortalecida. Você adentrará nos mistérios de seu ser, entenderá as dúvidas que tanto a atormentam e oprimem sua alma. O desvelar de muitos fatos estarão em breve ao alcance de sua mente. Haverá momentos, porém, em que desejará nunca ter saído de dentro das paredes deste castelo.
O caminho do conhecimento é árduo e doloroso; nem tudo o que aprenderá, fará sua alma feliz. Caminhará ao lado da angústia e do desespero. Quando chegar o dia em que a loucura for sua aliada e estiver tão cega quanto eu, verá nitidamente seu destino. Não com os olhos da carne, mas, do espírito. Leva meu calor. Minha alma estará a seu lado no momento em que mais precisar. Vá agora! Esqueça seus medos. Encare seu futuro de frente.
-- Adeus, meu querido! Por onde eu for seu amor levarei em meu coração; seja qual for meu destino, minha alma estará sempre ligada à sua pelo amor incorruptível, que nem homem e nem o tempo podem destruir. Pode a solidão assombrar meus dias, mas jamais poderá levar-me sua presença.
Dafni entrou no carro, chorando a separação física e alegrando-se pela proximidade espiritual. Pela janela da carruagem, Dafni via florestas e rios e colinas correndo de seus olhos. Os cavalos estavam a todo o galope; viajaram nessa intensidade todo o dia, sem nenhuma parada. O entardecer suave e avermelhado cobria-se de um fino véu negro. Era a noite que se fazia anunciar majestosa e o céu cobriu-se de estrelas, tornando-se, de súbito, deus-supremo; o firmamento propagava a glória celestial. As estrelas eram meninas brincando em volta da grande mãe lua que, naquela noite, apresentava-se em toda sua plenitude gloriosa; vestida de rubro, reinava tranqüila e só. A carruagem parou abruptamente. Dafni foi atirada ao chão batendo com força a fronte na ponta do banco da frente. Astreu, ao abrir a porta, deu um brado aterrorizado:
-- Senhora! ... por Zeus, o que foi que aconteceu?
Dafni tentou levantar-se, mas seu esforço foi inútil; sentiu a terra girar embaixo de seus pés; o mundo todo desapareceu de repente.
Ao acordar, sua vista, ainda embaralhada, viu a imagem tremulante de uma mulher alta; seu rosto pareceu-lhe disforme, como tudo ao seu redor. As paredes tremulavam e o corpo da mulher teimava em dançar como uma serpente. Fechou os olhos. Uma voz distante ecoou em seus ouvidos:
-- Vamos, bela criança! Logo estará restabelecida. Depois um gosto amargo como fel rasgou-lhe a garganta, vindo a seguir um calor confortante; seu corpo relaxou e caiu num sono pesado e sem sonhos.
Já havia trinta dias que Dafni morava no coração da Tessália, acolhida no velho mosteiro dos montes alcandorados. Jazia no cume sem consciência, deitada em uma cama de pedra do interior de Varlaan, mosteiro principal do grande meteoro.
O que havia acontecido fora que, ao parar a carruagem, Astreu obrigado por um enorme bloco de pedra surgido no meio da estrada, puxara as rédeas violentamente, fazendo com que os cavalos estacassem de súbito. O impacto causou a queda de Dafni que bateu fortemente com a cabeça, provocando fratura em sua testa, de um extremidade a outra, uma horrível fratura tão profunda que deixou parte de seu cérebro à vista. Astreu, horrorizado com a cena, tomou a menina nos braços e saiu vagueando pela floresta, como um animal ferido.
Dafni sangrava sem parar, aumentando o desespero do homem que já havia clamado por todos os deuses em seu socorro. Parou, desolado, no meio da mata, sentando em uma pedra; olhou a menina, choroso e percebeu um pequeno lenço negro que a menina segurava firmemente entre os dedos da pequena mão. Astreu tentou retirar o lenço da mão gélida da menina, quando ouviu uma voz rouca em meio à escuridão da noite sombria e fria.
-- Não! Não tire o lenço! Olhou assustado as árvores, nada vendo. Quando voltou os olhos na direção das mãos da menina, viu um menino, raquítico, cujos cabelos louros contrastavam com a escuridão da noite; seus olhos eram duas chamas sem órbita. Ao falar, seus lábios continuavam fechados. Astreu ficou paralisado pelo medo diante da figura cadavérica e não pôde pronunciar um única palavra.
-- Sou Pluto! Vou ajudá-lo a achar o caminho. Siga-me!
O homem andou horas atrás do garoto. Pararam em uma clareira, dentro da mata. Havia no centro um cubo de pedras, aberto no alto. Fez um gesto com as mãos indicando a ara do sacrifício.
-- Deite-a sobre a ara! – ordenou a voz do menino, firme e impedindo que pudesse, por um minuto, despertar dúvida em Astreu, quanto ao fato de o garoto, fosse quem fosse, saber exatamente o que estava fazendo. Astreu obedeceu sem nada perguntar. A imagem de Pluto aproximou-se de Dafni; tirou o lenço das mãos, passando-o em sua testa encharcada de sangue. O pequeno véu negro mudou de cor: era agora sangue, o sangue de Dafni, a colorir aquele pedaço de pano como seu pedaço de vida. Pluto, com os dedos magros, inscreveu um triângulo no chão, depôs o lenço ensangüentado no meio. A terra o engoliu de imediato, um raio incendiário cortou os céus, formando, ao redor do altar, grande labaredas.
Em outro reino, nas profundezas ínferas o lenço ensangüentado caiu no colo de sua rainha; Perséfone segurou o sangue da filha nas mãos, soltando um grito que percorreu todos os reinos, despertando deuses da luz, das águas e das trevas. Hades sobressaltou-se em seu trono e o reino do silêncio foi invadido pela dor gritante de sua deusa suprema.
Perséfone estava pronta para subir ao reino da luz, quando o marido a interpelou:
-- Não pode fazê-lo, amada!
-- O sangue de nossa filha me chama. Ela não pode descer até nós; seria o fim de todo o futuro possível.
-- Dafni, também é minha filha, mas não posso deixar que irrompa em um reino de outro deus, sem sua ordem.
Hades tomou das mãos de Perséfone o lenço ensangüentado e clamou por Hermes. Este, desconhecendo as fronteiras, penetrava livremente em todos os reinos. Ouvindo o rompante chamado, o deus provincial, amigo dos vivos e dos mortos, desceu ao além-túmulo; duas asas na cabeça e duas nos pés. O deus humano vivendo na terra entre o homem e a natureza, humanizado graças às asas dos pés, deus dos céus graças às asas da cabeça; mensageiro dos deuses, guia dos homens, portador de mensagens de esperança. Durante o dia, ia e vinha entre o céu e a terra; durante a noite acompanhava ao Hades, as almas dos mortos e levava os sonhos aos mortais adormecidos.
Hermes não concentrava em si a força e a majestade como os seus celestes irmãos mas tinha a presteza, a astúcia e a arte mágica. Todos os procuravam para pedir ajuda e conselho, graças ao seu livre acesso a todos os reinos e a seus pensamentos astuciosos.
“Meu país não é a terra, nem o céu, nem o mar:
moro em chão que eu teria se escolhesse um lar.
Ho o sol lá de fora, mas o que há na memória
de haver feito sol dentro, faz lenda minha história.
Ontem, no azul lembrado, torna hoje em paraíso:
tal é meu céu-inferno, teto de que preciso.
Meu nome não é nome, letra-som natural:
acordei investido, cavaleiro do Gall.”
Foi assim que Hermes saudou Hades e Perséfone. Ambos conhecendo o senso de humor inabalável do nume, não estranharam seu gracejo vindo em hora tão imprópria. Para Hermes, tudo era jogo ou comédia. Nunca perdia a malícia.
-- Vejam! – Bradou Perséfone, perdendo seu olhar na infinita escuridão. Saindo dos bosques e dos montes, um pequeno ser noctívago adentrava no espaço e no tempo, no lugar em que o sol sempre está embaixo do horizonte, na noite eterna. Hades olhou desesperado para Perséfone que correspondia, em plenitude, aos maus augúrios do marido.
A medida em que a figura espectral descia ao reino das sombras, Perséfone, com voz cheia de amargura, confirmou o vaticínio.
-- E Dafni! Está à beira do Estige, se adentrar as águas do silêncio; o sopro do fogo da vida apagar-se-á de seu corpo; ela é uma mortal, mesmo sendo sua filha. Esse é meu castigo. Se subir na embarcação de Caronte, atravessará os três rios e então, nada poderemos fazer.
-- Lembra-se do oráculo, Perséfone? – Perguntou Hades, ao mesmo tempo em que virava a esposa pelos braços, para fitá-la de frente, numa tentativa de retirá-la do transe em que se encontrava.
-- Sim! – Respondeu a mulher, piscando os olhos várias vezes, numa tentativa de voltar seus pensamentos, sua energia ao presente a fim de encontrar uma solução para o problema. Lembro-me como se em meus ouvidos retumbasse seu som prolongado num eco sem término, concluiu Perséfone, livrando-se de vez dos pensamentos que não a ajudariam em nada naquele instante.
O grifo é de Celso Pedro Lima (Poemas).
Hades pronunciou novamente a profecia, vasculhando o sentido de cada palavra, procurando armas para lutar contra as moiras. Andava de um lado para outro, com as mãos no queixo, nos olhos uma vastidão de tempo se aglomerava em um único segundo, pondo todos os seus pensamentos a girarem de uma só vez.
Quando Albúrnea pronunciara o oráculo no bosque de Tivole, Hades tinha nos braços, a pequena filha recém-nascida. Foi Perséfone quem ouviu o primeiro som da voz da Sibila.
-- Tua filha nasceu do ventre imortal; mas terá que conquistar a imortalidade, pois sua vida é dada por outra. Albúrnea virou-se para Hades:
-- Sua mulher venceu as Erínias. Engendrou sua filha por vontade própria, sem ultrapassar as barreiras do não ser; mesmo mortal conquistou a imortalidade pelas mãos de Minerva-Guerreira, pois sendo, ainda mortal, a menina conquistou o coração de um deus. Desafiou as moiras, vencendo o medo humano. Porém, nada disso tira o pecado do parricídio de suas costas. Ouvi agora sua sentença! Fica sua mulher, seis luas no ínfero, em sua companhia; mas, quando Flora perambular sobre a terra, ela subirá ao reino da luz, voltando somente quando a terra estiver gelada. Sua filha foi gerada em terreno neutro, parida no reino de Zeus, que tão bondoso dá permissão para segurar o fruto de seu sêmen num reino onde lhe é proibido calcar os pés. Esta que em seus braços segura, não lhe pertence. E dada por um mortal; mas uma concessão lhe será feita. Sua filha poderá ser iniciada no reino dos mistérios, conquistando assim uma nova essência, a imortalidade. Para tanto, terá ela que vencer as Parcas, enfrentando Cloto que tece o fio da vida, Láquesis que distribui a cada um a parte do fio que lhe cabe, e Átropos que corta o fio no momento preciso. Érobo, que junto habita, filho do caos e da noite, justo, proibiu as Parcas, suas filhas, de acelerarem o tempo de sua filha. A que fia a lã, a que enrola no fuso e a que corta o fio da vida, terão a vida de sua filha, como a de qualquer mortal, porém, somente Tânatos, ordenará o corte da lã.
Quando Dafni nasceu, foi dado a conhecer o pai. Zeus, que permitiu a Hades subir ao seu reino, comoveu-se com o encontro do irmão com a filha; seu coração paterno fez com que o mesmo permitisse a convivência de Hades com a filha e a mulher, até que fosse entregue ao seu destino; impôs a Hades que jamais a pequena soubesse sua origem até que seu destino se concluísse. O oráculo, também, deveria ser respeitado. Mesmo assim Hades estava feliz; olhava a filha em seus braços e via que poderia ela vencer todos os obstáculos impostos pelo destino. Repetiu seu nome com afeto e esperança:
-- Dafni, meu pequeno loureiro, construirá sua própria essência, vingando com justiça minha dor.
Nesse dia, não contava com o fato de uma morte prematura vir a assolar o caminho de sua pequena filha. Dafni, morrendo sem ser iniciada, passaria como qualquer outro mortal pelo rio da dor e do esquecimento. Seria mais uma habitante do reino da inação; sem nenhum movimento, ficaria para sempre nas trevas eternas, sem reconhecer sua própria casa. E a esperança de mudar o ciclo daquele mundo estaria todo o sempre perdida.
Enquanto Hades viajava em seus pensamentos, Hermes no presente, estava pensativo, segurava o queixo com expressão séria no rosto, coisa que não lhe era peculiar. Perséfone a seu lado, olhava horrorizada para a filha, que, aproximando-se do barco de Caronte, estava prestes a adentrá-lo. Foi, então, que Hermes quase sem querer, olhou as mãos de Perséfone percebendo o lenço de Dafni entre seus dedos; olhou fixamente o sangue que o encharcava e deu uma gargalhada demorada e alta, ouvindo-se o retumbar do seu riso de deidade do senhor do Tártaro.
Perséfone e Hades saíram de seu estado hipnótico, centrando atenção nele.
-- Eis aí a prova da trapaça das moiras!
-- Como? – Perguntou Hades vendo o lenço ser arrancado das mãos da mulher, com jovialidade, pelo deus sátiro.
-- Como chegou até aqui? O pequeno lenço esvoaçava no ar, dando ênfase as suas palavras.
-- Foi Pluto, respondeu Perséfone, primo de minha filha.
-- Ah! Hermes mostrou um ar satisfeito. O menino das sombras, o pequeno sábio, repetiu o nume entusiasticamente. Por certo foi levado por Morfeu até onde Dafni estava.
-- Bem Hermes! E o que tudo isso diz, enfim? – Perguntou Hades impaciente.
-- Quer dizer, meu amigo, que nem sempre o que os olhos vêem são fatos que espelham a verdade. Pluto, percebeu isso, vendo através dos véus da aparente realidade, o mane não segue Tânatos, entende? Alegremente Hermes passou os braços em volta dos ombros de Hades, num gesto engraçado de quem descobre um enigma difícil. Levou a outra mão ao queixo, franziu a testa, fazendo pose de mestre que explica ao seu discípulo os mistérios do universo.
-- O que digo é que o sono da morte foi mandado pelas Moiras até Dafni em hora imprópria. O pequeno Pluto viu Tânatos adormecido como criança indefesa e o mane de sua filha ser roubado pelas Parcas; então chamou Morfeu, sono da verdade e este confirmou suas suspeitas; Pluto pediu que usasse suas asas, para levá-lo em espírito até Dafni. Chegando até sua filha, levou-a até a clareira do sacrifício, o templo de todos os deuses, mandando, através das três forças centradas no triângulo desenhado na terra, o sangue de sua filha. Assim o alertaria da mentira das Parcas, pois Tânatos jamais retira alguém do reino da luz pela força; ele vai sempre na hora certa e carrega, nos braços naturalmente e momento certo, os passantes de um reino para outro. Hermes, subitamente, largou os ombros de Hades e gritou energicamente:
-- Acorda, Tânatos! Rápido antes que as Moiras concluam seu trabalho.
Um vagido irrompeu da garganta do deus da noite, inundando o silêncio caótico dos jardins de Tânatos; a criança, adormecida sobre uma cripta fulgorosa, acordou de imediato com o grito rompante do senhor do sono eterno.
-- O que deseja de seu servo?
-- Uma resposta. Tu és a personificação da morte natural, teu pai Érobo deu a chave da vida de Dafni, minha filha. Responde-me, tu a chamas para junto de ti?
-- Tu mesmo já respondeste. Sou o que faz adormecer os mortais com meu canto; embalo-os como bebês até chegarem a ti; e só o faço em hora própria. Por que então abreviaria o tempo de tua filha?
-- Se assim o é, foste enganado! Descuidaste de tua tarefa e tuas irmãs cortarão o fio da vida de uma mortal entregue aos teus cuidados. Olha e vê com teus próprios olhos de lince. E minha filha subindo na embarcação do velho barqueiro. Acaso és um ciclope para deixar que as parcas o enganem com tamanha facilidade?
Tânatos sentiu o açoite violento das palavras de Hades. E as Fúrias, suas irmãs, vieram incitar-lhe o ódio, zombando de sua imbecilidade ingênua. Foi quando clamou seu pai, fora de controle, pela imperdoável falha.
-- Érobo, meu pai! Ouve a voz de Tânatos teu filho?
-- O que desejas? A que infortúnios estás exposto para despertar todo o reino das sombras, através da ira de nosso mestre?
-- Pai! Deste-me o poder e só a mim para trazer a mortal Dafni. As Moiras, enciumadas, tramaram contra mim. Abreviaram o tempo da pequena e a trouxeram para o ínfero, sem meus braços, mas nos braços da violência, da morte precoce. Está ela prestes a atravessar a fronteira da não-vida.
-- Tens o poder sobre tuas irmãs, que por mim foi dado. Mostra agora a força que a ti foi dada! Conduz a menina de volta a seu corpo. Dá tua voz de comando a Caronte! Vá pessoalmente ao reino da luz!
-- Pai, não me é permitido ultrapassar a fronteira! Isso causaria uma guerra entre Zeus e Hades e minhas irmã bem sabem que somente ultrapasso as barreiras da não vida quando sou requisitado para mostrar o caminho dos que devem chegar até seu último destino. Estou de mãos atadas.
Érobo pensava e, num longo espaço entre a impaciência e a prudência, mantinha-se numa ponte sem ultrapassar definitivamente nem para o lado da primeira nem da última. Meditando, silenciosamente ergueu a cabeça para o filho desesperado:
-- Pede a Hermes que o ajude! E segura tuas irmãs para que não os atrapalhe no caminho de volta.
Sem perda de tempo, Tânatos eufórico e, ao mesmo tempo furioso, chamou Hermes que de imediato, aceitou a incumbência. Com a ajuda do pai trancou as três irmãs em seu tear, que gritavam protestando e amaldiçoando-o ao mesmo tempo e em coro, prometiam vingança futura.
Enquanto isso, Hermes ensinava o caminho para voltar à vida, enriquecendo o espírito de Dafni com sublimes e maravilhosas esperanças, sabendo serem os sonhos e a esperança, os maiores regentes da vida, o mover de toda a vontade de continuar pelos caminhos pedregosos, sabendo sempre que, por mais difícil que seja a trilha do destino, sempre se pode ver o sol brilhar, o verde das árvores, e ouvir o mavioso canto de um pássaro quando descansamos da jornada. Quando se tem esperança, nem todos os titãs do inferno podem nos fazer desistir do caminho da vida, de seguir e completar nossa missão, transformando assim o mundo, dando um fragmento de nossa contribuição para sua melhora. Assim atingiram o reino da luz, voltando à floresta. Pluto no farfalhar das folhas sente o calor da vida, o calor da Dafni. A menina retorna a seu corpo; porém continuava em estado letárgico. A alma de Pluto regozijava-se e seu corpo também voltava à vida. Hermes contemplava com admiração o pequeno, tão grande em sua coragem e sabedoria. Aproximou-se do garoto com carinho e lhe entregou um bastão:
-- E um presente, disse com voz amável. Esse é o Caduceu, bastão do equilíbrio; revela os muitos segredos do homem. Com ele poderá aperfeiçoar sua arte de ver além das aparências; poderá entrever os dois aspectos do homem. A aparência, que lhe é vedada hoje, e a essência da qual já tem resquícios de conhecimento. Saberá definir as duas formas do amor; o sacrifício e o desejo, a alma e a carne; e os dois princípios da vida, o masculino e o feminino. Através dele, passou-lhe minha arte divinatória, que consiste na leitura do futuro observando o movimento das nuvens e o vôo das aves. Também possuirá com ele a arte da magia. O bastão será a luz que lhe falta aos olhos. Verá o mundo externo como os demais mortais; porém. através de sua percepção acurada poderá captar imagens pelo calor, você fortalecerá o poder do caduceu. Seu destino está definido, ao menos que o refute pela sua vontade.
Pluto apanhou o cajado agradecendo o Nume. Voltou-se para Dafni tocando sua testa ferida. Centrou toda sua força captando toda a energia de seu ser. Restaurou a fronte da menina, sem deixar sinal de fratura. O esforço foi-lhe por demais; seu corpo frágil não tinha mais calor e só havia nele um leve crepitar de chama da vida. Hermes, então, voltou-se para Morfeu que ali permanecia calado, e pediu que levasse o menino de volta ao castelo, de volta ao seu corpo físico; permaneceria semimorto por duas luas até readquirir o calor do fogo sagrado.
Hermes, por sua vez, levou Dafni até o mosteiro do grande meteoro.
Astreu viu tudo; mas logo caiu no esquecimento, pois o vulgo não poderia penetrar as barreiras divinas. Voltou ao castelo com a ilusão de uma viagem normal e tranqüila; Hermes apiedou-se do homem que a tudo contemplara e nada vira. Então, o Nume voou até o coração da Tessália, alcançou o grande meteoro entrando em Varlaam com a menina inconsciente nos braços. Entregou-a ao aconchego de Manto, a Sacerdotisa mãe, nada precisando explicar à filha de Tirésia, célebre adivinho, rio das lágrimas, cujas águas tinham o dom de fazer profecias. Retirou-se num vôo sincronizado e magnânimo, porém seu coração apertava num misto de desconfiança e medo, sem ter razão visível para isso.
VI
O tênue fio nos liga à vida, é fácil de romper; mas o que é viver sem arriscar a ruptura desse fino liame?
Os segredos da morte, o homem conhece na vida, quando a vive. Envolto nesse invólucro frágil de matéria está a alma infinita.
Toda a matéria está exposta à corrosão do tempo. O homem nasce, cresce e morre. Os ventos corroem a matéria de seu corpo finito. Ele encontra seu fim.
Mas o que é o fim? Somente o primeiro passo para o infinito.
“Cada instante que morre, traz outro em si, já morto e morre, o olhar absorto noutro que, à frente, corre.
Quem vou sendo agora já fui noutro mundo:
Futuro, ido e presente, me defino em-outra-hora.
Aquilo que ontem fui me faz ser hoje assim
como se move em mim o tempo azul que flui.
Lembra-me ter sido tão outro que não sou, ter
ido onde não vou: serei o foragido?”
Celso Pedro Lima (Poemas).
Dafni acordou. Uma sensação estranha tomou-a por completo. Seu corpo formigava. Por instantes pensou não poder mover um só dedo; suas vistas, ainda embaraçadas, percorreram o ambiente. Um quarto pequeno e branco, todo de pedra, uma pesada porta de ferro, sem, fechaduras, mostrava-se a sua frente. Aos poucos tomando consciência de si e do lugar. Estava deitada nua, sobre uma cama de pedra.
-- Bom dia! Uma mulher surgiu ao lado de sua cama, vinda não sei de onde. Dafni olhou a porta fechada, passou os olhos pelo pequeno quarto; não havia outra entrada. A mulher riu graciosamente do intento da menina, e lendo seus pensamentos, respondeu sua pergunta em voz alta:
-- Isso é algo que aprenderá; estar em vários lugares ao mesmo tempo. A imagem tremulante da mulher tocou seu corpo, irradiando calor por todas as células necrosadas.
Enquanto fazia o trabalho, a mulher sorria e falava sobre jardins e o frio que matava as flores naquela época, elevou a mão esquerda a um nível mais alto, ficando com a direita sobreposta à cabeça da menina.
-- Não se assuste! Isso fará com que se sinta bem melhor.
Uma luz vermelha, semelhante a chamas fracas, fumaceava saindo da mão da desconhecida, que transmitia um calor inebriante e reavivava o corpo da pequena. Seus sentidos voltavam a ela; ouvia sons externos, os olhos desanuviavam por completo; sentiu um cheiro que pareceu mirra, vindo do corpo da mulher. Dafni moveu a língua, sentindo um gosto amargo na boca; moveu os dedos sobre sua cripta, sentindo o gelo da pedra.
-- Logo alguém lhe trará sua refeição e um manto para cobrí-la.
Dito isso, a mulher desapareceu. Dafni ficou a piscadelas, achando terem seus olhos pregado uma peça de ilusionismo.
A porta abriu-se num rangido irritante. Uma moça, vestindo uma espécie de batina inteiriça com um longo capuz caído sobre as costas, feita de estopa sem tintura e, diga-se, que a vestimenta era mesmo grosseira. Na cintura uma corda amarrada. A moça, de cabelos muito curtos e pretos como seus olhos, exibia-lhe um sorriso realmente lindo; era desprovida de qualquer beleza física, de baixa estatura, corpo franzino, seu rosto tinha um aspecto meio eqüino irregular; porém, seu sorriso e aquela luz de seu rosto, a tornavam realmente bela, uma beleza que fugia a qualquer padrão da estética convencional, uma beleza vinda além do corpo.
-- Eu sou Pamona! – Falou fechando a porta atrás de si com os pés num gesto engraçado, fazendo Dafni cair numa gargalhada gostosa que não conseguiu reprimir.
A moça olhou para Dafni com um semblante fingidamente sério.
-- Ora, mocinha! ... Não ria de alguém com ambas as mãos ocupadas e que tem os pés como último meio de salvação.
Disse tais palavras com solene zombaria. E ambas gracejaram sobre a importância dos pés. Pamona aproximou-se da cama, depositou uma tigela de barro ao lado, no chão. Levantou-se e abriu a pequena túnica de uma só vez.
-- Eis aqui suas vestes purpureas, majestade! Fez uma reverência e estendeu a túnica à menina. Dafni fez uma careta de desaprovação.
-- Vou ter que vestir essa roupa?
-- Não! A não ser que queira vagar nua pelos corredores gélidos de Varlaan, não precisa vesti-la. Sua entonação era muito divertida.
Dafni sentou na cama sem resistência.
-- Vamos Dafni! Vá com calma! Pode sentir-se um pouco tonta. A moça ajudou-a a vestir-se.
-- Graças aos céus que não tem espelhos ou algo que reflita minha imagem, queixava-se a menina após ter sido vestida. Pamona, divertida, respondeu com um olhar absorto, como se refletisse algo muito sério.
-- Não se preocupe! Ainda é muito jovem para se casar. Até estar na idade, quem sabe já ganhou uma nova túnica, hein?
-- Ora, você não é capaz de respeitar o orgulho de uma mulher ferida! Insensível!
-- Digo que continua muito bela.
-- Não caçoe!
-- Isso é para compensá-la. Estendeu-lhe uma tigela cheia de um caldo verde, estranho, que causou náusea ao estômago de Dafni.
-- Vou ter que comer isso? Dafni deixou os ombros caírem num gesto gracioso, com ar resignado.
-- Feche os olhos e verá que o gosto não é tão ruim.
-- Gosto não se vê, ainda mais de olhos fechados. Sei bem quando tentam me enganar.
Pamona, sentada ao lado da menina, encheu a colher de pau com o estranho líquido. Grasnou como um abutre:
-- Vai comer ou terei que lhe enfiar goela abaixo?
-- Com prazer! Dafni abriu a boca e fechou os olhos. Com uma careta de quem está prestes a submeter-se a uma tortura, manteve-se firme, à espera do líquido.
-- Estou pronta!
-- Lá vai!
-- Até que o gosto não é dos piores.
-- Obrigada! Transmitirei suas palavras à cozinheira.
-- Quem é?
-- Eu.
-- Garanto que jamais provei manjar tão saboroso.
-- Não caçoe!
Riram durante muito tempo. Nesse clima de cordialidade, Dafni terminou sua refeição.
-- Bem mocinha! Agora que está alimentada e vestida, vou entregá-la à gradeira. Ela vai acompanhá-la até o locutório.
Sem palavras, Dafni seguiu os passos de Pamona. Andaram em corredores sombrios, de pés descalços; o gelo das pedras atritavam com o calor dos pés da menina, fazendo-a dar pulinhos ao andar, como se estivesse caminhando sobre um braseiro.
-- Chegamos, anunciou a moça, enquanto empurrava uma porta, que Dafni nem percebera devido à escuridão reinante. A porta dava para uma sala ampla, porém vazia. Era espantosa a falta de luz daquele lugar. Os olhos da menina lobrigavam com esforço espasmódico o recinto tentando acostumar-se à escuridão.
Parecia uma necrópole. Gelada e sem luz, a cidade dos mortos não devia diferenciar-se muito do lugar.
-- Seu espírito ainda está cheio de sandices. Não julgue tão depressa! Isso é próprio dos estúpidos.
Um tremor ligeiro passou por todo seu corpo, quando uma voz veio do fundo da sala; era grave e em tom de censura. Céus! a mulher lera seus pensamentos.
-- Sim o diálogo não se dá somente por palavras, pois estas, geralmente, distam dos verdadeiros pensamentos.
Dafni voltou-se à procura da presença reconfortante de Pamona. Até aquele dia pensava que esse tipo de comunicação somente era possível entre ela e Pluto, e guardava isso em seu coração como sendo fruto do amor de ambos, da fusão de suas almas através do profundo sentimento que os ligava. Agora ali ouvia aquela voz, vinda não sabia de onde, a dizer-lhe que podia comunicar-se com qualquer outra pessoa da mesma forma; estava assustada, queria poder achar algo de conhecido, alguma coisa de seu mundo em que pudesse apegar-se ante aquela imensidão assustadora daquele mundo desconhecido, que não sabia ser real ou um sonho; um sonho não seria a palavra adequada e sim um pesadelo. Queria acordar, precisava acordar. Aquilo não podia estar acontecendo. Não, realmente não podia, era ilógico.
As palavras ríspidas daquela voz retiravam as últimas esperanças de estar sonhando.
-- Os prazeres do riso já lhe foram dados. Reconfortado está seu espírito, pronto para o próximo passo. Então, a mulher surgiu dentre a escuridão, bem a sua frente.
-- Eu sou Métis. Levá-la-ei até a sacerdotisa-mãe.
De repente Dafni sentiu que as mãos da mulher seguravam as suas e ela nem mesmo percebera um único movimento se seu corpo. Seria porque estava dispersa, amedrontada?
-- Não confie em seus olhos, em seus ouvidos, ou em qualquer de seus sentidos. A percepção verdadeira vai além de seus limites, e, dentro de Varlaan, eles não lhe serão de valia alguma.
Guiada pelas mãos de Métis, Dafni caminhava; um turbilhão de dúvidas invadiam sua mente. As idéias eram tão escuras quanto os corredores lucífugos pelos quais andavam.
A porta do parlatório abriu-se; mais uma sala soturna, pensou Dafni, agoniada.
-- Sejam bem-vinda! Uma figura luzidia estendeu as mãos para a menina. O espírito de Dafni alegrou-se com a visão feérica. A mulher de olhos lucíferos iluminava o lugar.
-- Sou Manto, a Grã-Sacerdotisa. Cabe a mim a tarefa de seu noviciado. A necessidade traz pensamentos errôneos; com o tempo habituar-se-á a ver, sem necessidade da luz externa.
-- As sombras que tanto a apavoram agora, muito a ensinarão no futuro. A iniciação pelos caminhos dos mistérios não é agradável. Ardiloso será seu caminho e uma vez iniciada, não poderá voltar.
Agora escolhe! Dou-lhe o livre arbítrio e sua voz será minha ordem.
-- Deseja voltar ao mundo, vivendo o prazer do animal feliz, ou prefere adentrar no desconhecido, à procura de respostas?
Dafni hesitou. Trêmula diante da pergunta, pensava em Pluto, em sua mãe, na avó, em todos os mistérios que envolviam sua existência. Teria que escolher. Tinha uma existência envolta em perguntas sem respostas, repleta de terror, de angústia; nunca saberia onde pisar ou o porquê das coisas serem tão diferentes em seu mundo. Mas aquele lugar sombrio, sem prazeres, seria esse o pagamento? Poderia ir embora, viver na luz dos olhos e desfrutar de seus sentidos o prazer de não ver além, ser um animal-natural, feliz em sua imanência. Se nada conhecesse, de nada poderiam acusá-la. Depois o que haveria de errado em viver como todos os demais seres humanos?
-- Ouvia mais uma vez a voz de Pluto a ressoar em seus ouvidos. Quando estiver com os olhos da carne tão escuros quanto os meus, então muito entenderá.
-- Fico, respondeu! Os espinhos são parte da rosa. Perco em minha escolha a felicidade insana dos animais; porém, quero saber o que há por detrás das cortinas que vedam os olhos de minha alma.
-- A escolha foi feita. Íngreme será seu caminho, a recompensa nem sempre vêm com o esforço. Muitas de suas perguntas trarão, na resposta, maior angústia do que na ausência de qualquer conhecimento. Não existe outro caminho.
-- Toma! essa é a bebida ritual. E feita com água, farinha de cevada e folhas de hortelã. Ela será seu alimento durante seu caminho.
Manto ergueu a voz, pronunciando palavras incompreensíveis para Dafni; cantou canções no mesmo dialeto, e Dafni só sentiu a tristeza da melodia, parecendo um canto fúnebre. Ao terminar, ergueu uma taça de puro ouro e, com voz embargada, disse:
-- O rito começou. De imediato, várias mulheres começaram a dançar em círculos; ao poucos rodearam Dafni, e seus corpos pareciam ficar, conforme o canto, mais frenéticos, remexendo-se sem lógica, em movimentos descompassados, e cantarolando sem parar. Dafni ingeriu a bebida do cálice dada por Manto, e aos poucos sentiu-se levemente embriagada. Cada vez mais distante foi ouvindo o canto triste das mulheres, com palavras que seus ouvidos não entendiam, mas sua alma parecia sofrer a cada refrão. Via tudo entre névoa e tentava, a todo custo, mover-se sem conseguir. Uma das mulheres aproximou-se com uma navalha. Dafni, horrorizada, viu seus cabelos serem tosquiados, enquanto ela permanecia imóvel, incapaz de um só movimento. Viu as mechas negras de seus cabelos caírem a seus pés. Outra mulher entrou no círculo com um recipiente cheio de uma substância branca, que foi passada sobre sua cabeça. Dafni sentiu o frio da navalha em sua cabeça, subindo e descendo em movimento sincrônico ao compasso da música inteligível. Manto trouxe uma tira de pano cheia de um estranho ungüento e vedou seus olhos; com um chumaço de algodão hígido tapou seus ouvidos. Quando num último esforço Dafni tentou protestar, sentiu que a bebida tirara-lhe a voz. Inebriada com a música, sentiu-se estonteada, não querendo acreditar no que ocorria. Sentindo-se cair num vazio sem luz ou som, adormeceu.
Estou no ventre de minha mãe: sinto seus agrados. Tudo é escuro em meu corpo disforme. O caos, cego aglomerado da matéria primordial, anima-se e toma forma, torna-se um universo ordenado. Encolho-me a cada dia. Meu espaço torna-se cada vez menor; meu corpo cresce tomando forma humana; meus olhos não possuem órbitas; minhas orelhas não possuem lóbulos; minha boca ainda está fechada; meus lábios ainda não foram formados. Meu nariz está cheio de um, líquido estanho. Estou imersa em água e escuridão. Um cordão liga meu ser ao de outro, de quem dependo para viver. Sinto sua aflição, sua ansiedade. Minha mãe tem medo por mim; teme que não aspire o ar de fora de seu ventre. Por quê? Nada ouço; o que sinto são ondas de calor vindas até mim; muitas vezes reconfortantes e outras me fazem querer desistir de ver o mundo fora dos amplexos de minha mãe.
Meus olhos abrem-se, ganham vida, minha boca está formada, minhas orelhas, meus dedos, tenho forma, sou humana; estou prestes a nascer, a descer, mas não quero.
O ventre impiedoso de minha mãe expulsa-me para a vida, estou sendo empurrada; a passagem é muito pequena. Nãaooo ..., estou presa! Estou preeesa! ... Alguém me ajude! ..., minha cabeça é puxada por mãos gélidas. Estou livre. Cortam o cordão de minha segurança, de minha proteção.
-- Não! Parem! Eu ...
A película de meu nariz foi perfurada. Um cheiro nauseabundo, um odor insuportável ofende minhas narinas. Grito meu primeiro vagido de vida. Grito para levarem-me desse cheiro de morte; estou só, num mundo que não conheço e que não pedi para conhecer.
Começo a ver espectros, mas não vejo formas definidas. Preciso de proteção.... Não quero ficar só. Os dias ganham mais luz. Já identifico a presença aconchegante dessa mulher que responde a meus gritos. Alimenta-me e me embala. Meu corpo cresce. Percebo o mundo a minha volta. Ouço palavras e a muitas identifico. Vejo cores e formas nitidamente. Reconheço claramente minha mãe.
-- Mãe! Onde está indo? Mãe olhe para mim! Sou eu, Dafni, sua filha. Mãe!, Mãaee!!.
A figura continuou seu caminho sem tomar conhecimento da presença gritante atrás de si.
-- Aonde vai? Não me ouve? Dafni reteve-se subitamente; e, a cada passo que a mãe dava, mais jovem ficava. Caminhou até total transmutação: era agora uma garota que apenas lembrava os belos traços de Perséfone. Vestia-se de trapos e seus olhos denunciavam uma profunda amargura.
-- Perséfone é você?
-- Sim, mãe! – respondeu uma voz trêmula e insegura.
-- O que espera? Vem logo! Seu pai está furioso pela sua demora.
Era Deméter, jovem, na mesma casa onde Dafni fora deixada por sua mãe. Seria aquilo possível?
Perséfone caminhou rapidamente em direção da mãe. Entrou na casa. Um velho estava sentado em um tronco, junto à entrada.
-- Por que demorou tanto? Onde está meu fumo, perguntou o velho com os olhos a brilharem movidos por uma espécie de ódio, uma fúria, que fez Dafni sentir-se trêmula. Perséfone estendeu um rolo comprido de fumo em direção do pai; suas mãos fraquejaram deixando-o cair no chão antes que Maleógreno segurasse o rolo de fumo.
-- Apanhe, sua besta! – esbravejou a figura horripilante.
A menina curvou-se, apanhou o fumo e deu-o ao pai, sem coragem de levantar os olhos.
-- Não tem, mesmo, bons modos essa pirralha! – gritou Deméter, exibindo maior desprezo que o pai à filha. Perséfone “cegou” ante a crítica da mãe. Como poderia ela ser assim tão dura, se seus modos eram insatisfatórios? Certamente a culpa não era sua. Pensou, exasperada, em como sempre a tratavam dentro daquela maldita casa. Sendo mais velha dos onze irmãos, cabia a ela todos os encargos domésticos. Cuidava de todos aqueles fedelhos, limpava o rancho, tirava o leite, tecia e sobrava tempo para oferecer o lombo às chibatadas do velho. Odiava a cada membro daquela casta; e, por vezes, duvidava pertencer a ela. A mãe estava sempre prenha. Cada ano ouvia-se o berro de mais um pequeno, trazendo-lhe mais tarefas. A cada ano, a cada irmã ou irmão que nascia, mais crescia a revolta de Perséfone.
A mãe jamais lhe fizera um carinho; por mais que se esforçasse, sempre encontrava uma repreensão nos lábios ou nos olhos daquela mulher. Por que a odiava tanto? O que teria ela feito para merecer tamanho desprezo?
O pai agastava-a com suas grosserias e divertia-se ao açoitá-la.
Nunca tivera tempo para si; esquecia-se de sua existência como ser independente, possuidor de um corpo, de uma vida própria. Desconhecia-se totalmente, nem mesmo notava seu crescimento físico, as mudanças de seu corpo. Um dia, imersa em suas tarefas, notou em seu vestido manchas de sangue. Teria ela se machucado, sem notar? Tentou limpar-se; porém o sangue persistia. Lembrou-se, então, de conversas discretas que ouvia de sua mãe com outras camponesas sobre quando suas filhas entravam em estado interessante. O que significava estar em estado “interessante”?
Estava a lavar roupas em um pequeno riacho e, em seu estado de perturbação, tentava lavar-se desesperadamente. Não percebendo a aproximação do pai, sentiu-se surpreendida; o pânico tomou conta de seu corpo ao vê-lo entre lágrimas. Tentava desviar-se do olhar do pai, do sangue, limpar-se, precisava limpar-se. Um asco sem tamanho formigava em seu corpo. Sentia nojo daquele velho asqueroso, daquele sangue maldito que teimava em escorrer-lhe das entranhas, tonta, sem saber o que fazer, desistiu do esforço inútil e mesmo com medo, decidiu sair da água, correr do pai e procurar a mãe.
Seus pensamentos eram desprovidos de qualquer lógica. Sua mente deslizava entre idéias absurdas. Certamente havia-se ferido; não se lembrava como.
No marasmo em que estava envolvida, esqueceu-se de súbito da presença do pai e saiu a passos lentos do riacho; cabisbaixa, reconfortava-se na idéia de se ter ferido. De súbito, o velho apareceu a sua frente, como um fantasma, interditando seu caminho.
Perséfone ergue lentamente a cabeça, deparando o pai a observá-la com ar de nojo. Olhou seu vestido salpicado de sangue, bem devagar, aumentando cruelmente os minutos de sua humilhação. Por fim disse:
-- Vou arranjar um homem para você, pois já pode procriar. Não desejo que saia pelos campos a deitar-se com qualquer macho como uma cadela no cio.
Apavorada, ante a idéia, Perséfone pôs-se a correr em delírio. Não conseguia associar o sangue com homens, cães, crianças. Fugia corria pelos campos sem saber para onde. O céu, as árvores, seguiam-na em seu desespero veloz. Perdeu a noção do tempo, do espaço e de tudo que era externo.
Foi sendo tomada de uma estranha força e de uma debilidade, até a total inconsciência.
Acordou. O sol esmaecido morria no horizonte; seu corpo estava gelado pelo vento da colina. encolheu-se para proteger o corpo do frio. Onde estava? Tentou desanuviar a cabeça dolorida; a única coisa da qual lembrava eram os gritos do velho; suas palavras zuniam em seus ouvidos e um terror ecoava em sua mente.
-- Volte aqui, sua imunda! Não pense que pode fugir às suas obrigações. Preciso de meus cavalos escovados! Obedeça-me! Pare ou vou açoitá-la até a morte, sua vaca! Estremeceu; não havia sonhado; olhou ao redor pensando encontrar o pai em pé a sua frente, com o chicote nas mãos, e o sorriso estampado em sua face; mas o que viu, foi o velho Término, o carvalho que sempre a protegia. Ele sabia de todas as suas angústias; era seu único amigo. Desde muito, garota, era ali onde chorava; com ele desabafava, podia contar-lhe tudo; e, em silêncio, ele a compreendia e a confortava.
Num gesto desesperado, levantou-se e abraçou-o chorosa:
Meu amigo fiel, companheiro, o que farei eu? Diga-me o que fazer, por favor! deixou as emoções fluírem, arrebentando num pranto hostil, desesperançado.
O céu tornou-se raivoso tão subitamente; explodia com seu coração; as trevas da noite tornaram-se mais densa; a escuridão trazia um vento selvagem, entoando um canto de morte em seu silvo. Relâmpagos rasgavam o manto negro do céu. Então Perséfone já não sentia, não pensava, não sofria sozinha; seu corpo fundira-se ao de Término, e sentia em sua força milenar, toda a robustez do carvalho imponente; os cabelos de Término e Perséfone esvoaçavam revoltos em uma fúria sombria e conjunta.
O terror incendiou a terra, a natureza furiosa, extasiando Perséfone dando-lhe um prazer que jamais sentira. A terrificante paisagem de fúria, que a cerceava, era seu próprio ser; o raivoso grito da natureza era o lamento há muito contido em sua alma, deixando sair pela garganta da floresta seu vagido. Embriagada, desvencilhou-se de Término. Abriu os braços, sentiu o vento forte percorrer todo o seu corpo e um riso iluminou seu belo rosto.
Seu brado furioso propagava-se por toda a aldeia, fez-se chamado, levando seu recado em forma de vendaval que varria toda a região, fazendo as folhas dançarem frenéticas no ar; e, a cada passo do vendaval, seus pés destruíam cabanas, celeiros, muros alcançando, enfim, os muros fortes do palácio do Duque de Queens. A construção onipotente, que até então reinava soberana há mais de cem anos, nem homem e nem vento haviam ousado desafiá-la; naquela noite, o inviolável tornava-se frágil, o forte fraco, e o ritmo da vida parecia ter mudado.
Os habitantes de Trulles ouviam um chamado bravio, um grito de mulher, mandando no vento que obedecendo, derrubava e destruía tudo a sua frente. Os muros de Queens, seus jardins, parte de sua torre, ruíram, indefesos, rasgando-se como seda fina ante a hórrida força.
Os vagidos monstruosos ecoavam por toda a aldeia, num chamado intermitente, cheio de ameaça. Pessoas corriam em desespero, sem saber por que ou para onde seus passos as levavam, Naquele instante apocalíptico não se distinguia, entre a massa amedrontada de homens, plebeu no nobre, guerreiro ou escravo; era somente um amontoado de animais debatendo-se, fugindo da morte.
Entre relâmpagos e ventos, movendo-se enfeitiçados, iam em direção ao clamor desconhecido.
Todos os demônios da noite, da alma dos homens, tinham sido desacorrentados.
Ao pé da colina, como sonâmbulos, despertos, o povo viu-a; todos rodeavam a mulher-divindade a quem ninguém reconheceu. Estava ela em frente ao carvalho que, aos olhos do povo parecia ter vida, movendo-se ameaçador como um monstro das trevas. a criatura, em forma de mulher, mostrava um corpo esguio, qual estátua marmórea; os braços abertos evidenciavam a luz que saía a ponta de seus dedos longos; em seu rosto luzia um sorriso diabólico. A beleza e o fulgor de sua face maléfica destoava com o furor dos olhos azul-acinzentados, confundindo-se com o céu: um instante lindo, em outro aterrorizante, mudando de cor, tornando-se negros como as nuvens que acobertavam o firmamento, e, quando reluziam os relâmpagos, clareavam, em comunhão perfeita aqueles olhos belos e faiscantes. Os longo cabelos negros esvoaçavam revoltos por todas as direções, anunciando a negridão das noites e dos dias vindouros.
As máscaras foram tiradas; não havia um só rosto que não demonstrasse a angústia e o medo de seu coração.
Os homens-guerreiros, o Duque de Queens, foram os primeiros a dobrar seus joelhos diante do espectro pavoroso, seguidos pela multidão que dobrava-se ante a aterrorizante e desconhecida figura.
Todos os olhos contemplavam a glória do medo. Vozes elevaram-se, num clamor lúgubre, em uma oração escatológica, pedindo o fim da existência daqueles que haviam desenfreado a fúria da “Augusta-deusa”, de quem ninguém sabia o nome.
-- Revela seus desejos e os cumpriremos! Poupa, misericordiosa, a vida de nossos inocentes, O clamor foi elevando-se, crescendo, rompendo num brado fervoroso por misericórdia.
A natureza incorporou naquela mulher, demonstrou seus poderes na força indomável da malidicência. Do seu corpo energizado fluíam relâmpagos incendiários que destruíam rochedos e, por fim, morriam no ventre da colina. Córregos, riachos, tomavam vida própria dada pelo turbilhão de energia despejado dos dedos da fera voraz. Todos permaneciam estáticos ante aquela bela assustadora.
Um brado estrondoso rompeu das entranhas da Perséfone. Fendeu a terra, em um abismo profundo e estreito. Gritos de desespero ouviam-se de todos os lados; muitos foram, sem piedade, tragados no vórtice abismo infernal. Cada gesto das mãos ordenava a próxima vítima.
Corpos voavam do meio da multidão, erguidos por um fio de energia azulada, desprendida dos dedos de Perséfone e guiados até seu fim na fenda abissal; em um instante, que pareceu toda sua vida, Meléagro, o velho pai de Perséfone, vislumbrou entre o tumulto seu fim.
Ao reconhecer aquele demônio furioso como sendo a sua filha, humilhou-se numa súplica movida de desespero. No âmago de sua alma aterrada, suplicava pela vida.
Sentiu a energia maléfica tomando seu corpo. Subiu como uma frágil pluma pelo ar, pairando sobre a fenda. Seu olhar encontrou o de Perséfone. Teve, nesse instante, a lívida consciência de sua morte. Diferentemente dos outros, seu corpo ficou parado por muito tempo sobre a fenda do inferno, em quem Perséfone descarregou cargas elétricas sobre o homem. Seu corpo tornou-se uma tocha viva; ouviram-se gritos inumanos daquela criatura queimando. Cada partícula de Meléagro foi transformada em chama viva. em gesto brusco, Perséfone abaixou a mão, deixando a tocha-humana cair no tártaro profundo.
O terror estampado nos rostos mortais era indiscritível. Diante da cena, todos temiam seus destinos se igualarem; mas a fenda fechou, engolindo para sempre os seres oferecidos às suas sombras. Na terra, nenhum vestígio de calamidade.
Hades, das sombras profundas, admirou aquela mortal. Um passo e atingiu a esfera dos deuses; aspirou o cheiro da vida fresca: aquela feiticeira seria sua rainha.
Uma bruma densa envolveu o alto da colina. Os relâmpagos cessaram, o vento acalmou, e o céu assumiu uma tristeza chuvosa. Banhou com finas lágrimas os homens, cordeiros escapados do matadouro, que se levantavam, seguindo seu caminho, sem nada dizer, ninguém ousando olhar atrás.
Uma figura de mulher permaneceu ajoelhada, estarrecida segurando o ventre volumoso anunciando sua avançada gravidez. Levantou-se num gesto desolado, caminhando em direção do ápice da colina. Seu vestido molhado, atrapalhava seu movimento; o seu peso tornava a subida mais árdua. Caminhando sem fazer conta dos reclames de seu corpo, com o fôlego debilitado, chegou a seu destino. Ajoelhou-se, estendeu a mão a uma garotinha assustada e chorosa, abrigada aos pés de um grande carvalho.
-- Dê-me sua mão! Vamos para casa!
Deméter e Perséfone, desceram a colina embaixo de um céu claro, em um noite lindamente enfeitada de estrelas. Porém, a lua sangrava. Chegaram em casa. A paz e o silêncio reinavam soberanos; as crianças dormiam um sono profundo. O lodo de seus corpos, estendidos sobre a cama, era a única testemunha da veracidade do horror, há pouco; a lividez do rosto de cada um dizia claramente que suas orações noturnas foram atendidas e que, nessa noite, por certo eram de agradecimento à deusa-desconhecida a qual havia satisfeito seus desejos.
A terra fora regada com sangue.
Perséfone observava calada os irmãos adormecidos. Cânace, Mélias, Pélias, Toossa, Neleu dormiam na mesma cama, grudados com medo do sono separá-los. A pequena diferença de idade de um para outro, tornava seu vínculo ainda mais forte. Ali estavam, unidos, personalidades fortes e bem diversificadas. Cânace, a mais velha, dormia do lado de cima no meio de Mélias e Pélias. Na lei estabelecida por eles, dominava o primogênito, sendo o poder dado em escala hierárquica. Cânace, por ser a mais velha, ganhava o melhor lugar na cama.
Tiro, Alcione, Celeno, Bentesicime e Despoina dormiam na cama ao lado. a cama dos pais estava no centro das duas, mostrando que esse eram os deuses do lar.
Perséfone dormia no celeiro, para evitar roubos. Seu destino era mesmo irônico(...).
VIII
Perséfone, confusa, procurava os olhos da mãe.
-- Mãe! o que ouve na colina.
Deméter respondeu com tranqüila evasiva:
-- Ora, minha filha! Em Trulles tudo, pode acontecer; essa é uma terra estranha, esquecida há muito pelos povos de além-mar.
Perséfone, exasperada, pensou que havia outros povos envolvidos com o fato ali acontecido! Era uma resposta vazia, sem qualquer significado. Em seu coração uma tempestade de dúvidas soprava, devastando todo seu ser. Perguntava num martírio que as palavras não podiam exprimir. O que seria ela? que tipo de criatura faria o que ela fez? Indagou a mãe com voz áspera, num desafio inconsciente, notado por ela só no brusco ressoar das palavras:
-- Mãe! Por favor! O que aconteceu na colina é devido ao sangue que escorreu do meu corpo? Morrerei a sangrar e todos comigo? O que foi aquela fúria? Como posso eu, menina, ter em mim a força dos titãs? O poder de muitos deuses uniu-se em mim; tornei-me dona dos ventos, das águas; controlei céus e terra. Fiz-me senhora de mistérios, que não me é lícito conhecer. Desejei a morte de meu pai, de outros que zombavam, de mim; meus desejos eram satisfeitos; bastava erguer o dedo e tudo se movia conforme meus pensamentos. Estava embriagada de poder; não pude controlar-me. Tinha o poder nas mãos e podia, segundo minha vontade, destruir a existência dos que pesava a minha.
-- O que sou eu mãe?
-- Um ser humano vítima de seus desejos insanos. Não sabe controlar seu ódio. Nunca mais abra sua mente como fez hoje!
-- Como não o faria? Nem mesmo sabia que podia fazê-lo. Tenho dezesseis anos; sou sua filha única com diferença de idade. Vivo sozinha. Queria que tivesse um coração puro vivendo alimentada por seu ódio? Quando tenho sede, peço a meu pai água e recebo chibatadas; posso conservar-me limpa, vestida de branco mas me jogam lama. Não tenho direito a banhar-me? Responde, Deméter! Você, mãe, dá vida à terra; os frutos plantados por sua mão são os de melhor sabor e agradam as vistas; louvam-na as mulheres do clã pela fertilidade do seu ventre. Como pode, então, um fruto de seu ventre, regado por suas mãos, ser ruim?
Deméter, acuada pela veracidade dos fatos, exasperou-se, pois qualquer refutação seria inútil, visto palavras não poderem acobertar fatos tão evidentes. Como podia aquela menina, desconhecendo todos os mistérios, falar tão sabiamente. A verdade simples desvelava o rosto de Deméter; sentia-se varrida de argumentos. Seca, como árvores após o inverno, era terra salgada que nada mais produzia. Tornou-se estéril; nem gado defecaria em seus limites. contemplou o ventre volumoso. Sabia se era essa a última vez que geraria? Semente nenhuma floresceria jamais seu ventre.
Aquele pequeno ser era seu último fruto. Habitava seu ventre, seu único e verdadeiro amor. Sentia-se feliz por Meléagro ter apagado como um tição por baldes de água. Podia amar tranqüila o pequeno fruto de Iáson, o belo jovem que caminhou por todo o mundo, descansando em seu colo.
Fugiu do presente vendo o dia em que encontrara seu amado. Trabalhava na seara e, há pouco tempo, parira o último filho de seu marido, quando seus olhos o viram pela primeira e última vez. Ouviu o ressoar de sua voz, doce e forte. Nunca esqueceria o ardor de seu peito ante seu visitante. Seus lábios proferiram sons amáveis ao saudá-la:
-- Salve, Augusta, deusa esplêndida das searas! Concede graça de sua presença a este seu servo sedento, que, há muito vaga por áridas terras, com corpo cansado da luta, a alma triste de tanta desgraça avistada! Permita a esse errante repousar por um instante que seja ao lado de tão divina beleza! Sua presença seria capaz de satisfazer a todos os mortais; mesmo os que vivem no profundo tártaro se iluminariam ante seu olhar.
-- Seja bem-vindo estranho! Apeie do seu cavalo! Dê-lhe de beber no riacho! Tire-lhe os arreios e deixe que paste no gramado de minha terra! Descanse seu corpo! não sobre carregue seu espírito, pois em minhas searas está protegido, seguro como no ventre de sua mãe. Coma do meu pão e beba do meu vinho! Durma sobre minha palha!
-- Poderei retribuir seu gesto?
-- Em meu coração fui uma deusa; seus lábios acalentam minha alma com palavras doces, despertando, nessa camponesa, a beleza de uma deusa, o ardor de uma mulher.
Você tem o dom de nutrir homens, animais e plantas, com seu seio prolífico! Você é o começo e o fim da existência dos homens.
-- Como lhe chamam, galante desconhecido?
-- Iáson.
-- E você ó divina?
-- Deméter.
Após ter alimentado o corpo faminto, Iáson tirou de sua bolsa de viagem uma jóia verde-mar, brilhante; à medida em que a mexia, a pedra tornava-se mais clara mudando, de quando em quando, sua tonalidade para um verde mais claro ou escuro. Seu brilho era tanto que chegava a ofuscar a vista.
-- Essa é a pedra do templo de Tristão. Enquanto a tiver em meu poder, minha vida está assegurada.
Tristão salvou-me a vida, quando um barco saxão, no qual navegava, perdeu-se em um nevoeiro. Já havíamos saído muito da rota e, após dias de escuridão, sentimo-nos totalmente perdidos. O nevoeiro por fim dissipou-se, e, após uns dias de calmaria, o mar tornou-se revolto. O barco foi envolvido por um tornado que o destroçou em minutos.
Estávamos à mercê do mar, subjulgados por sua força. Homem algum poderia vir ao nosso socorro. Certamente o medo da escuridão e da morte, medo milenar na alma humana, fez-se presente, emergindo do âmago de nosso ser. O mar furioso rugia; tragava homens de forma impiedosa e voraz, outro eram atirados contra rochedos sem nome, na terra do nada.
Debatia-me furioso por entre as ondas e, quando pensava ter chegado ao fim, vi uma figura sobre-humana, meio-homem e meio peixe. No início pensei ser minha imaginação de moribundo; mas logo vi claramente ser um semideus marinho. Clamei por misericórdia à criatura de quem não sabia o nome; nunca vira algo que a ela se assemelhasse. Ouvindo minhas súplicas, fez bramir uma concha em forma de trompa que trazia com ele. O som, saído do instrumento, apaziguou a tempestade. O vento acalmou aos poucos sua fúria, desaparecendo. Uma brisa suave tomou seu lugar. O mar revolto era agora um lago manso, lânguido.
Cessou a música. O estranho acolheu-me por suas costas escorregadias. Seu tronco era de um homem e o resto do seu corpo era peixe. Levou-me para uma gruta, situada meio mar meio terra, por inteira cravejada de pedras azuis, amarelas, verdes e muitas outras de cores diversas, a luz, invadindo a caverna, batia nas pedras, iluminando todo o ambiente; a sensação era de estar dentro de um arco-íris. A gruta era repleta de magia, cores e luz. O som ouvido era doce reconfortante como canto de sereias. Maravilhado, diante daquele fulgor, em pé no mesmo lugar onde havia sido posto, permanecia estático.
O fantástico ser sentara-se em uma cadeira, com formato do seu corpo, feita em pedra de azul-violeta. O lugar estava cheio de água borbulhante e vaporosa. Descansava tranqüilo em seu trono, sem largar seu instrumento apaziguador. Olhou-me ternamente; seus olhos eram verdes como o mar, transmitindo uma paz extasiante. Meu corpo e mente estavam confusos, como se houvesse ingerido demasiada quantidade de vinho, misturado a ervas alucinógenas. Esforçei-me para falar, gaguejar um agradecimento, apresentar-me, saber quem era esse que devolvera a vida dada a mim por minha mãe e que o mar tentara roubar. Nem um som saiu de minha boca; percebi que, mesmo assim, ouvia respostas às minhas perguntas.
-- Sou filho de Posseidon, deus do mar, e Anfitrite uma mortal. Deram-me o nome de Tritão. Cuido dessa parte do oceano, tarefa a mim designada por meu pai. Esse, proveu-me dessa concha em forma de trompa para aclamar a tempestade e anunciar sua chegada. Como vê, sou meio homem meio peixe. Vivo entre o mar e a terra; não pertenço nem aos homens nem aos deuses. Por vezes, angustio-me por minha sina: não pertencer nem ao divino nem ao mortal. Carrego meu destino como peso. Como Atlas sustenta a terra, cansado. Procuro resignar-me cumprindo fielmente os encargos que me foram dados.
Salvei sua vida para ter um pouco de companhia; a presença de um ser de uma espécie pura. Assim poderei ter prazer em olhar um corpo sem duplicidade, e, em breves momentos, poderei ser você ao contemplá-lo, quebrar a solidão dos meus dias, imaginar-me a cavalgar por terras verdes, escalar montanhas, correr pelos campos com minhas pernas, sem conhecer os limites de não ser por completo nada; sendo assim, nunca terei a alegria de um homem, nem desfrutarei da voracidade de um deus.
Estou condenado por milhares de luas a ser Tritão, semideus e semi-homem; estou condenado a nunca ser completo; estou condenado a nunca ser.
Após esse tristonho pensamento, que sua mente transmitia a minha, passou grande tempo a contemplar-me de seu trono. Por vezes cheguei a pensar que possuí meu corpo, numa era longínqua, pois naquele instante ele me era um total desconhecido. Comecei a correr em desabalada carreira de um lado para outro; sem qualquer controle de meus músculos ou sentidos, via-me espreitando os movimentos de meu próprio corpo, como alguém a olhar de fora de sua moradia, ladrões que entram e comem do seu pão, bebem de seu vinho, aproveitam-se de sua mulher, de seus servos, e esse homem está sem espada e só, não podendo nada fazer contra o bando que viola sua maior preciosidade, seu lar. forçosamente, estava ao dispor de Tritão; esse pulou com minhas pernas, gritou com minha voz, usou várias vezes meu sêmen em ninfas, sereias e outras criaturas de horrível e indescritível forma. De modo que, me tornei pai de muitos titãs; após usar meu corpo como bem quis, deixou-me a posse do que me era legítimo. Sentia-me febril, cansado; mandou que ingerisse um pouco de seu néctar. Rivigorei-me quase que de imediato.
Sentindo novamente minhas pernas e braços, todos meus músculos sobre meu controle, agradeci-lhe ter salvo minha vida e, imediatamente, perguntei como poderia voltar à terra firme. Então, Tritão arrancou da parede essa pedra, prendendo-a em uma corrente de ouro e madeira.
Disse-me ser um presente de agradecimento pelo prazer que lhe havia proporcionado através de meu corpo. advertiu-me ser essa pedra triangular, dotada dos poderes dos três cantos sagrados do universo, e que protegeria de todo o mal, enquanto a possuísse. Deveria usá-la dignamente, pois um ato sem sabedoria poderia abrir dimensões jamais vistas por um humano. Se a fizesse presente, seria somente à mulher que geraria meu único filho, fruto de amor verdadeiro e puro. Com um gesto solene passou, a pedra a Deméter.
-- Ela lhe pertence, Deméter, pois a amo antes mesmo da luz de meus olhos. Quando a vi caminhando entre o trigo como uma deusa, meu coração ardeu com a chama do amor. Só tenho sua presença material por pouco tempo; porém, augusta minha, jubilo levando minha alma com a sua além dos limites do tempo e do espaço corpóreo. Amo-a com todo o fervor de minha alma! Sempre a amarei com a fúria proferida pelo amor ao homem somente uma vez, ao lado de uma só mulher. Não me tome por um errante à busca de pueris aventuras no corpo de uma mulher qualquer. Juro meu amor por todos os deuses do Olimpo!
Deméter segurou a pedra entre os dedos; sentiu a energia viva do talismã; arrebatada por cores, ventos e fragrâncias desconhecidas, flutuava pela magia da pedra. Sentiu-se leve como se o ar não existisse e seu corpo fosse totalmente desprovido de peso. Navegou, por instantes, naquele mar desconhecido em estado de êxtase total. Esforçou-se ao máximo para voltar à realidade. Ainda inebriada, voltou-se para Iáson e, com um brilho indescritível nos olhos, falou-lhe em voz embargada de prazer:
-- Acredito em suas palavras! O tempo não é digno de veracidade; seu corpo nutriu-se dos frutos de minha terra, cultivada por minhas mãos; retomou seu vigor físico e agora reclama meu amor; pede para eu carregar sua semente e gerar um filho seu. A terra o alimentou com a substância de seus três reinos; mineral, vegetal e animal. Deram-lhe a jóia da vida, quando Tritão permitiu sua saída do reino de Posseidon. Se der a mim o talismã da transmutação, engendrarei seu filho. E Iáson se perderá na noite dos tempos.
Engendre-me e se mate! Alimente-se de meu amor e se devore! Enquanto estiver em meus seios, em meu ventre, o tempo estará a devorá-lo. As eras, os séculos, os dias, as horas, os segundos nascem e morrem na ávida boca de meu ventre.
Escolha!
Iáson abraçou Deméter calorosamente. Tirou-lhe as vestes e a amou avidamente: não sentia mais o segredo que encerra a história humana entre datas de nascimento e de morte, mas “regenerada” nos rítmos perenes da vida: nascer, morrer, renascer.
A medida que seu sêmen penetrava em Deméter, a vida esvaía em fagulhas do corpo de Iáson; esse não sentia a morte, mas um sinal de esperança, uma promessa de imortalidade. Iáson deu seu último suspiro nos braços de Deméter; ela chorou sua morte e celebrou sua vida. Carregava, em seu ventre, uma continuação daquele homem. Pendurou o talismã no pescoço, enterrou Iáson e partiu. No leve toque produzido pelo movimento de seu corpo, o triângulo queimou-lhe o peito. Ouviu a voz fugidia de Iáson, como um vento suave: - zele pela segurança do triângulo; sua magia tem a força para destruição simultânea de muitos mundos. Não saia ele jamais das suas mãos! Se o perder ou o roubarem, as três dimensões se confundirão sem barreiras de tempo ou espaço. Os reinos governados pela magia da pedra são antagônicos e subsistem pela separação do espaço no mesmo instante. Três forças, três reinos, igualmente fortes; o equilíbrio não pode ser destruído. O homem não está ainda preparado; os efeitos seriam catastróficos. A você e ao nosso filho garante saúde e felicidade. Adeus, amada!
-- Até breve, amado da minha alma! Até breve!...
Deméter sabia tratar-se de um menino o filho de Iáson; ele seria uma criança especial. desde que ela preservasse em segurança o talismã. Dele, certamente, dependeria a saúde e a vida do menino; seu filho teria o nome de Pluto. O fruto de Iáson seria um deus benfazejo; percorreria toda a terra e a ampla superfície do mar. Ele concederia fortuna e longevidade a quem viesse a ele.
Impregnada de bons pensamentos, tornou a caminhar rumo a sua casa; seus passos eram firmes, passos de quem carrega um deus no ventre.
Sobressaltou-se ante o grito de Perséfone, voltando forçosamente ao presente. Não ouvia as lamúrias da filha, abrasada pelo súbito arranque do devaneio doce, esbofeteou bruscamente, o rosto da moça. O golpe violento atirou Perséfone ao chão. Segurando o rosto, os olhos amargurados, não ousara transmitir um único som. A dor ardente subia de seu peito e morria em sua garganta. Pensava de si para si. Era como estar prestes a dar a luz a um filho e alguém segurasse suas pernas, impedindo a saída do feto. Perséfone, calada, ouvia a mãe falar-lhe ódio.
-- Amaldiçoada seja pela minha boca! Leva, por onde for, a maldição daquela que a gerou. Você trouxe a desgraça para todo nosso clã; foi levada a invocar os deuses do ínfero pelo ódio de sua alma. Alimentou as águas com seu primeiro sangue; correu léguas como uma égua do Olimpo; com passos de fúria desafiou seu pai; em seu trajeto de louca fúria regou a terra em que passou com o sangue primeiro do qual sairá sua geração; ofereceu sacrifício maior aos deuses, às fúrias. Bradou vingança. Os deuses de negro a ouviram; as forças da deusa-mãe incorporaram-se em você. E você? Matou, destruiu cegamente, sem sabedoria e nem piedade. Pagará com o fruto de seu ventre tamanha insanidade. Sairás hoje mesmo do teto de seu pai morto, vagando pela terra e provendo, sem a ajuda desse clã, seu sustento. Ao parir seu primeiro filho, voltará a mim, dois anos após o seu nascimento. Sangue velho por sangue novo. Restituirá a vida de meu marido com o sangue do seu filho. Nunca mais, então, pisará nessa terra ou verá seu primogênito, homem ou mulher. Uma vida por outra. Agora, destituo-a desta casta; é filha do nada e somente eu carregarei a vergonha de tê-la parido.
-- Se assim deseja seu coração, assim o seja. Irei, cumprirei meu destino; em cada rio, lago ou mar pelo qual passar, lavarei minhas mãos parricidas, pedindo o perdão dos deuses, implorando perdão à Grâ-Sacerdotisa, pedindo que ilumine meus caminhos e me dê sabedoria.
Deméter rugiu ao ouvir pronunciar o nome da Grã-Sacerdotisa e, com um brilho feroz, olhou Perséfone transmitindo em suas palavras um horror sombrio que a moça não compreendeu.
-- Saiba! Pode conseguir o perdão de todos os deuses. Porém, nunca o da Grã-Sacerdotisa; morrerá na ignorância e nenhuma fagulha de sua sabedoria lhe será dada.
A floresta traz em si a essência da vida. As árvores gigantescas, austeras, tinham o poder da longevidade; pareciam ignorar qualquer minúscula forma humana abaixo delas. Os raios da lua fugiam tímidos entre suas folhas, infiltrando a luz pouca, num desafio às forças do sol, da lua; as árvores uniam-se soberanas, suas copas abraçavam-se numa rigidez apertada, dificultando os raios de luz invadirem seu âmago. A falta de luz fazia o chão úmido, coberto de húmus, liguento e escorregadio.
O ar gélido era igualmente úmido. Perséfone andava passos lentos, de quem não tem pressa de chegar por não ter onde chegar. Há duas luas, caminhava em direção ao infinito.. Ousava, de quando em vez, levantar os olhos, avistando somente árvores velhas e novas, e um caminho a seus olhos sempre igual. Por momentos pensava não ter saído do lugar, mas seu corpo agastado negava a idéia.
Estava só, aterrorizada com a companhia de si mesma; naquele enorme vazio de seres humanos, era obrigada à própria presença. Já, sentiu, sem dúvida, a dor mórbida que enregela o coração, o medo de estar só consigo mesma; mas sempre havia muito o que fazer; pouco tempo restava para pensar. Rodeada por seus irmãos, que exigiam muito tempo e atenção, a imagem que tinha de si, era a que seus pais e irmãos refletiam nos olhos.
Agora ali estava, dentro do desconhecido; não sabia o que fazer ou onde ir. Só tinha a si mesma; ninguém para dizer o que fazer, e isso era realmente assustador. Estava nos amplexos da floresta, carregada de vida, e sentia na espinha um arrepio de morte.
A névoa envolvia as árvores, mergulhando aquele pedaço de mundo num espaço sem tempo; não tinha como protelar, entre a bruma densa e os perigos, de se ver; abrir as portas que separavam seu ser, o medo, o desconhecido (...), seus pés inseguros, não tinham chão certo. Quase sem perceber, enveredava floresta adentro, entrando num mundo de sombras misteriosas. Adentrava dentro de si mesma e para vencer a floresta, precisava primeiro conhecer seu íntimo, transcender seu ser, conhecer seus medos para vencê-lo, ver seus limites, travar luta violenta contra tudo o que a impedia de seguir em frente. Sairia dessa batalha não como figura pacífica; seria guerreira, dona do conhecimento imprescindível, dos mistérios que envolvem a natureza, a vida, a morte, e seu verdadeiro sentido. Seguiria sua estrada, construindo uma fortaleza, tornar-se-ia imperscrutável, capaz de controlar seus instintos, despertar seu mais alto grau de consciência, da imanência à transcendência; passaria pelo fogo primeiro e, se preciso fosse, enfrentaria a morte para descobrir o verdadeiro sentido da vida.
Mergulhada em seus pensamentos, seus pés vacilaram, escorregou num galho podre. Perséfone caiu sem resistência sobe o lodo e o húmus. O chão vacilava, seu corpo cedeu à imobilidade. Valeria o esforço penoso? Tão longa jornada, sem saber onde chegar!
O sol mostrava seus raios espaçados, entrando onde lhe era permitido. Por vezes, arrombava uma ou outra folha da copa de uma árvore, invadindo com seu calor aquele útero frio e escuro.
Perséfone havia adormecido profundamente. Acordou, mas não abriu os olhos. Repetia a si mesma que, quando o fizesse, ver-se-ia em casa e riria muito do terrível pesadelo. Teimou, durante horas, contra o evidente. Agia deliberadamente, de má fé consigo, preferindo os olhos fechados e a estaticidade, a abrí-los e lutar para sair de onde estava. Divagava conjecturas a despeito da ação. Poderia morrer ali mesmo, sem nada sofrer; bastaria manter as pálpebras coladas. Deixar o tempo correr seus dias, corroer seus ossos. Se optasse por abrí-los, enfrentaria uma jornada desconhecida, correria riscos, talvez tivesse morte mais horrível. Pensava: agindo ou não, isso acaso faria diferença? Todos os caminhos do homem não o levam a um só lugar? Morrerei eu andando ou parada, isto é certo. Se ficar no reino da estaticidade, fugirei do mundo nesse canto, parada e sem incômodos; estarei protegida de todos, e, quanto às minhas dúvidas, eu não farei conta delas. Então, uma voz conhecida sussurrou:
-- Não fará conta? Pode agüentar a fome e o frio, mas, quando o sangue parar de correr em suas veias, irá até o tártaro profundo com seus próprios pés? Como suportará sua presença a falar-lhe de sua covardia até sua morte? Sim! – pensou ela, subitamente, por um fio de consciência. E quanto à minha própria presença? Posso fugir de todos, mas nunca de mim mesma; não existe abrigo no céu ou na terra que me esconda do meu próprio eu. Porém, quem sou eu? Ou o que sou eu?
Tenho medo de abrir os olhos, de me ver além desse invólucro de carne. Aos poucos, Perséfone sentia-se cair num abismo profundo, num poço lodoso; permanecia em seu desespero de olhos cerrados, teimando contra toda a lógica. Imóvel, deixava embalar-se prematuramente nos braços da morte enlaçada pela inação, pela falta de vontade, pelo medo de lutar, de despertar; esse acordar que faz, muitas vezes, o pensar penoso, pesaroso, pois nesse ponto de mutação, todos os prismas de nossa vida mudam repentina e totalmente, e o que era real, há pouco, parece-nos um sonho, uma ilusão profunda, na qual nos confundimos, perdendo um precioso tempo com coisa tão insignificante, tão óbvia, pois as verdades mais profundas estão nas coisas mais singelas; e percebemos, num refrão de lucidez, o quanto fizemos parábolas para dizer um simples não ou um sim; gastamos energia por caminhos obscuros, mirabolando mil dificuldades, enquanto a verdade lúdica estava o tempo todo ali, tão perto, dentro de nossa própria consciência. Como pode? Perdemo-nos em abstrações errôneas de que a morte é certa, a imanência sábia. Assim optamos pelo canibalismo de nossa própria existência, deixando a morte reinar soberana dentro de corpos que andam, comem e respiram; fala, mas nada expressam, pois suas palavras estão cheias de necrofilia e descrença. Corpos vivos sustentados pelo esteio da morte nada valem, pois acham seu único valor em si mesmos ou seja, sua existência resume-se em seu invólucro; vivem para satisfazer os desejos da carne como se nada mais existisse além de seus instintos animalescos; morrem, assim, duzentas vezes em forma de macaco, para acordar algum dia com uma similitude de homem.
Perséfone sentiu de súbito o impacto da queda violenta, obrigando-a quase que por instinto a abrir os olhos. Estava num poço lodoso, estreito e abafado; ao tentar mover-se, caiu; seu corpo enterrou-se na lama preta que a cerceava por completo, começando pouco a pouco a cobrí-la; sentiu-se tão pesada que, a cada movimento tentado, seus braços e pernas aumentavam enormemente de peso; todo o peso da gravidade da terra estava sobre seu corpo imerso. Incrustada no solo lodoso, seus membros tinham criado raízes como uma planta, cuja semente é jogada em solo fértil; sentia-se como aquele lodo imundo, fazendo parte daquele buraco escuro. Não! Aquilo não era possível; não era ela. Seu ser não pertencia aquele lugar; precisava lutar, abrir os olhos. Não! Definitivamente, não! Chegou até ali; não desistiria; não acabaria sua existência num charco nauseabundo, com cheiro de defecação. Morreria um dia, mas não ali; não como algo que não era. Lutaria pela sua identidade; certamente não tombaria no meio do caminho. Entre gemido e sangue, movia-se, numa tentativa desesperada para erguer-se. O tempo desaparecera naquela luta; percebeu, então, que não havia cronômetro ou qualquer convenção humana; nenhuma ajuda externa lhe sobreviria. Era uma batalha sem regras; ali tudo valia. A angústia, a solidão escura, faziam-na desfalecer muitas vezes; ao acordar começava nova luta. Até que um dia conseguiu, enfim, mexer os braços; violentamente arrancou-se do lodo e ergueu-os como sinal da sua primeira vitória.
Seus demais membros permaneciam no charco. A respiração começava a faltar, o lodo adentrava suas narinas. Seus braços sentiam o ar; estavam livres. Mas qual era sua possibilidade de liberdade completa? Não encontrava, com efeito, nada em que pudesse se apoiar. Precisava que alguém a puxasse lodo afora. Pensou com rancor: - De que me servem braços livres, se não tenho onde apoiá-los? Acaso as mãos não foram feitas para segurar e os braços para sustentá-las? Mas quem me sustentará? Quem me arrancará de minhas raízes?
Freneticamente começou a abanar os braços; pareciam eles uma planta exótica em meio a um lamaçal açoitada pelo vento.
Não desistirei mesmo que minha única ação consista em abanar os braços até o último sopro de vida a esvair-se de meu ser. Aqui nas entranhas da terra, sufocada pela minha consciência mediata, não cessarei minha procura. Quero a verdade de mim mesma; uma vez nasci das trevas do útero de minha mãe, tornei-me carne e sangue, passei pela fenda apertada do canal da vida, deslizei para a luz do mundo visível, para a vida mediata e em meu primeiro suspiro, suguei a morte. Hoje adentro em minhas entranhas, gerarei meu espírito, não nascendo mulher; conhecerei um outro nascimento, o do espírito, nascido para viver.
Luto contra o charco corruptível, as bolotas que me lançam como verdade. Quero pérolas, não bolotas para porcos! Quero a verdade! Não aguardarei pela salvação de outrem; não esperarei calda em meio a esse lodo, como feto sufocado pela falta de água vital. Perséfone abanava os braços com toda a força de sua alma. Quando esses arrefeciam diante do enorme esforço, ela os levantava, embalando-os em movimento de angústia furiosa, tentando agarrar a vida que lhe escapava.
Por um momento desistiu da luta, deixou o cansaço vencê-la, mergulhou num sono névoa e barganhou com a morte.
Perséfone desceu até o inferno; avistava o Aqueronte, rio último que cercava o reino dos mortos. A última fronteira, a última réstia de luz, entre o ser e o não ser. Avistou a embarcação de Caronte, o velho barqueiro, filho de Erbo e Estirpe, responsável pelo transporte dos mortos ao seu reino, ao seu destino final; separava, com o remo, as águas da dor, nadara no Estirpe, mergulhará no Cocito, sem ajuda do velho esquelético Pensava Perséfone: - O que ele estava fazendo ali? Acaso ela o solicitará?
-- Dê-me o óbolo! Vou levá-la até Hades.
-- Não tenho moeda! Mesmo que carregasse todo o bronze da terra, não o daria a você, velho esmoleiro!
-- Então, pensa desafiar-me?
-- Não penso! Já o fiz! Vê! Nadei no rio da dor; mergulhei no das lamentações e saí de todos eles sem sua ajuda.
-- Porém, o Arqueronte você não ultrapassa; sem minha ajuda e não a ajudo sem minha moeda.
-- Não sei de onde tira tamanha besteira! Idéias como essas só podem provir de uma cabeça esquelética como a que carrega. Não vê que estou viva? Ou seus olhos estão cheios de teia de aranha para que não enxergue a verdade? Por que iria eu para o reino dos mortos, onde não há vida e nada se faz? E o reino do não ser. E, quanto a mim, ainda sou, não sei exatamente o quê; mas que sou, isso eu sou mesmo; só tenho que descobrir o quê.
-- Andou se banhando no Letes, menina?
-- Não! respondeu com ar inocente.
-- Como pode ser tão esquecida, então?
-- Sua caveira velha já viu alguém esquecer o que nunca soube?
Caronte riu da resposta da menina, ingênua e cheia de tanta verdade e desapareceu na névoa do reino escuro.
Perséfone moveu os braços com toda a força que encontrou em seu ser, em seu mais íntimo recôndito, no último recanto vivo de sua alma. Caronte afastara-se em seu barco, desaparecendo em reino brumoso, que Perséfone ainda não conhecia. Não pôde levá-la ao reino sem luz, pois ela dera sinal de vida; agiu; não podia ultrapassar a barreira, caindo no reino da inação. A ação tem seu reflexo fora e dentro do tempo, numa vida imaterial e sem fim. Ao abarcar, Caronte relatou seu malogro as três Erínias.
Aleto, aquela que nunca descansa foi a primeira das três divindades a visitar Perséfone. Ao falar, sua voz soou como um tambor a retumbar na mente da moça, trazendo-lhe à consciência sua culpa.
-- Por que resiste em seu charco? Está dominada pela desordem moral. Não pesou suas ações; matou sem piedade; será julgada, entregue aos braços de Hades, aquele que por você anseia. Desista! Siga-me! Abandone seu cansaço e, com a força de meu braço, carregarei seu fardo. Desiste e descansa!
-- Certa é minha imprudência! Usei maléficos poderes a mim dados. Minha justificativa é a ignorância de meu coração; o ódio cegou-me e por isso, não posso dar-lhe meu fardo, pois, se o fizesse, jamais sairia do reino das sombras. Adentro minha alma, sofro para conhecer os mistérios de meu próprio ser. Somente me conhecendo, posso controlar-me, livrando-me de imprudências futuras. Como hei de reparar meu atos e aprender com meus erros, se levar meu fardo?
Então Perséfone mexeu, num desafio triunfal, seus braços ainda viviam, ainda lutava.
Aleto retirou-se com um rugido de animal ferido. Entrando no Tártaro, relatou o evento às duas outras Erínias. Estas, por sua vez, partiram juntas em um vento furioso até Perséfone. Ao chegarem, contemplaram um leve sopro de vida a desvanecer. Animadas diante da visão, partiram, indômitas, com toda sua força vingativa. Foi Tisifone quem levantou primeiro a voz.
-- Sou aquela que vem cobrar seus homicídios. O sangue dos seus mortos gritam em meus ouvidos. Perguntam pelos cantos de meu reino: - Onde se esconde Tisifone, a grande vingadora, a juíza dos homicidas? Acaso esconde-se de nós? Tem medo daquela que bebeu com ira nosso sangue? Não poderá fugir do destino que seus crimes traçaram! Vem agora comigo! Dá descanso ao seu coração.
-- Não esqueci meus crimes, grande Erínia justiceira; estou sofrendo precisamente pela consciência lívida que tomo de mim, de minhas ações. Não transfiro ao externo minha culpa; procuro a resposta em minha consciência. Não! de certo não fujo ao vaticínio de meu coração! Passo pela chama do desespero da solidão, procurando a verdade de minha existência, perco-me nos infortúnios do mistério e, na escuridão, procuro-me. Mas, ainda, sou feto pequeno; porém, já não sou um embrião no caminho de mim mesma. Não desisto de meu caminho; meus motivos são fortes e minha existência corre o risco da aniquilação. No vazio escuro, continuava a dança serpenteada dos braços, numa volição assombrosa a uma criatura mergulhada no rio do desespero.
Tisifone, reconhecendo seu malogro, partiu como um furacão, terminando por recolher-se em sua derrota.
Megera assistiu a tudo calada, dirigindo-se em sua magnificência invejosa até Perséfone; um soslaio fê-la vislumbrar, por entre a lama, a beleza fulgorante da moça; contorceu-se pela fúria.
-- Quem pensa ser? Uma deusa desafiando os servos de seu destino? direi, com prazer, o que parece a meus olhos. Você é profana e parricida, amaldiçoada por aquela que a gerou, odiada por seus irmãos. Só tem motivo para desagregar a vida de seu corpo; ao contrário apegasse arduamente a uma réstia de luz, que não sabe de certo a existência. Tal atitude não é movida de razão por certo. Profanou a santidade de sua família; ninguém é por você. Diga-me então, o que espera do reino da luz? Digo pois o que terá: Repugnância de seus iguais. Nem homem ou mulher oferecerá um teto para que a protejam da chuva da noite ou do sol inclemente. Dormirá ao relento, sem teto nem palha; cumpra seu castigo, pois em seu futuro não há esperança.
-- Bem claro é meu fado. Carrego na alma a dor dos séculos. Luto por minha consciência, começo meu trabalho de expiação por minhas culpas. Minha alma, com respingos de consciência, estabelece, pois, uma relação de causa e efeito com o Além: adquiro conhecimento ulterior, o do bem e do mal, a certeza de que tudo se equipara num eterno ir e vir entre a vida e a morte, nem processo evolutivo, que somente os iniciados nos mistérios podem conhecer e experimentar.
Ditas tais palavras, Perséfone sentia uma estranha força vinda do seu âmago; seus braços eram tão fortes que erguiam todo seu corpo do lodo: nascia, abria os olhos. Sua figura erguia-se com lentidão: primeiro a cabeça depois todo o corpo. Levantou-se como um leopardo, bramindo num misto de dor e prazer. Venceu o medo, nasceu do ventre de seu próprio inferno. Megera, amedrontada com tamanha força, protegia o rosto contra a luz. Transformou-se em uma nuvem de fumaça negra e densa, e desapareceu diante da vitória-régia de Perséfone.
XI
Hades, com seus grandes olhos boópide, observava a luta desde o inicio. Jamais ocorreu a uma mortal vencer suas Erínias. A bela criança tornara-se mulher. No reino das sobras, em seu trono marmóreo, Hades afagava uma das cinqüenta cabeças de Cérbero. O senhor supremo da não vida, poderoso e desapiedado, era evitado por todos os deuses; até mesmo Zeus, seu irmão dominador do céu e da terra, evitava-o; sua presença, mesmo breve, causava desconforto. Nenhuma deusa aceitara casar-se com ele; seu único companheiro era Cérbero, feroz monstro canino, guardião das camadas inferiores do cosmos, tão terrificante quanto o dono. Sua imagem lhe fazia justiça; tinha cinqüenta cabeças e voz de bronze, amável e manso com as almas que entravam no reino das sombras; feroz se alguma tentava fuga.
Hades via a bela Perséfone desaparecendo de seus domínios. A moça encontrara na meditação força para sair de seu reino. Levitava suavemente, saindo do ventre escabroso e mísero, em direção ao reino da luz. Vencia pouco a pouco as profundezas abissais.
O senhor do reino das sombras ululava como lobo, perpassado pela espada.
Todo o Tártaro tremeu ante a fúria do seu deus. O deus e o reino dos mortos, o dominador e seu domínio, pela primeira vez, quebraram o silêncio reinante e inquebrável que enchia aquele lugar de sombras. Algo mudara no coração do nume da morte; algo mudava no reino das sombras.
Pítia, sacerdotisa dos jogos fúnebres, decidiu fazer uma visita a Hades, pronunciando um oráculo. Pítia respeitosa estendeu as mãos em um afago na sua descida, sendo a saudação da sacerdotisa, a deusa Gaia. Apareceu em suas vestes negras, com o capuz da pronunciação.
-- O último obstáculo foi vencido. Eis que a fenda apertada do caminho da vida foi ultrapassada; a que nasceu para a luz carrega em si os últimos minutos de morte. Não foi ainda purificada. Mantém, no corpo, o sangue alimento; da cobertura liguenta conhecida do corpo, exposta ao ar, o sangue-vida adquire o odor putrefato, obrigada a banhar-se; livrar-se-á da liga primeira da verdadeira aparência, confusa e indisfarsável de vida e morte, a qual carregamos sem perceber do começo ao fim.
Aprende-se a camuflar, com ervas de bom cheiro, água límpida e tecidos purpúreos, o odor nauseabundo dos dias e noites trazidos à carne corrompendo o espírito. Anda sua mortal em estradas sem fim. O corpo lhe impõe limites, o espaço de sua mente, o engano do encontro à evolução regressiva, que todos os seres são expostos, sem poder voltar. Continua sempre. O eterno, a esperança a adequadação, essas leva, embalam a vida, entre a vitória e a derrota. O engano de cada dia se faz acreditando ter vencido cada minuto, Um pouco de nós se vai com ele, esperando nos braços da noite o consolo do sonho, a fuga dos vivos; adentramos na cama como no colo da mãe, procurando calor e aconchego nos braços do sono; eis, pois, mais uma filha penosa: o “imprevisto”; a noite pode sobrecair tumultuosa, cheia de maus presságios e fria. O cobertor do corpo será o pesadelo. Esse mostra aos olhos que dormem, o que não vêem quando acordados; nosso espectro nessa luta travada nas trevas da noite, cansado sonha com o brilho da aurora; os primeiros raios do sol virão aquecer o corpo; o céu azul renovará o espírito.
Quando o dia chega, sobressaltamo-nos embaixo de um céu cinza-nevoado, com chuviscos frios sobre a terra cansada; num lamento calado, levanta-se o corpo e continua o caminho, esperando...
A luz de cada batalha vencida, o faz prosseguir andando, sob os raios da vitória já ida, ignora o mórbido presente, procura sempre nova fonte de energia; porém, mestre, não se esqueça como o fazem os homens que, no final da estrada, todos caem em seus braços num último abraço.
Pítia tornou o templo, dado seu alento ao deus das sombras.
***
PERSÉFONE NO REINO DA LUZ, O ENCONTRO COM PALAS, A POÇÃO DA IMORTALIDADE
“Eu cantarei Palas Atena?
A deusa augusta? Glaucópide, inflexível, pura virgem,
valente, protetora da cidade, sempre prudente...
que o próprio Zeus, senhor da prudência, pariu de sua santa
cabeça toda armada de ouro...” (Um hino de Homero)
Perséfone pousou sobre o solo verde, como uma folha leve carregada por uma brisa suave.
Abriu os olhos, aos poucos, que se ofuscavam ante o brilho do sol que, naquele instante, brilhava em todo seu esplendor. Aturdida, não se moveu por um só instante; ao perceber a sua liberdade, olhou radiosa ao redor; a natureza, o brilho do sol, reavivou seu corpo. A menina apossou-se de sua alma, ignorando seu corpo de mulher; corria gritando e rindo como garota que há muito não saía de um quarto escuro, rolou na relva, cheirava flores lançando os braços ao redor das árvores, correndo, olhava tudo, querendo tocar toda a natureza viva de uma só vez. Naquele momento o mundo estava ao alcance de seus dedos; a alegria efusiante, pura, contagiava os numes da floresta. Cansada, enfim, tomou conta de seu estado deplorável; estava embargada pelo lodo negro de odor nauseante que feria as narinas; envolta em trapos, o estômago reclamava alimento. Um instante reflexivo lhe assegurava que vencera as profundezas abissais. Agora, como se arranjaria naquela terra sem homens?
-- Preocupada? Uma doce canção propagava no ar a voz.
Perséfone levantou o olhar; via uma mulher de beleza divina; vestida como guerreira, sua armadura era de ouro; era já mulher madura, portando nas mãos uma lança e um escudo. A cabeça, um símbolo de ouro que Perséfone não definia.
Tornou a voz mansa aos ouvidos aquecendo cada célula viva do universo abrangedor do ser de Perséfone.
-- Teu comportamento é destemido! Carrega o espírito do herói e venceu a prova difícil do encontro com seus medos. Abranda seu ódio e coloca em lugar prudência; como eu és uma guerreira, conquistando hoje teu maior troféu: a autoconsciência.
-- Ainda não vejo meu destino com clareza; meu corpo está incrustado de lodo fétido; minhas vestes são trapos.
Ao som de suas palavras, Perséfone sentia a mágica mutação. Uma sensação de paz tomou conta de seu corpo; a lama desprendia-se gotícula a gotícula; suas vestes eram limpas, nova, de feitio diferenciado das que antes trajava; os pés vestiam sandálias finas e douradas.
Sobre os ombros, um manto de pura lã de carneiro, tingida por cores salpicadas; os longos cabelos negros, antes desregrados, foram transformados em uma diadema em tranças, presas por fio de ouro. A moça, deslumbrada, perguntou:
-- Veste-me com sua magia? E uma das bruxas da floresta das teias-negras.
-- Sou Minerva armada, filha sem mãe do divino pai dos deuses. Nasci de sua cabeça. Sou a prudência e sabedoria. Defendo a justiça e armo-me contra opositores da ciência e da arte. Luto contra o obscurantismo da ignorância. Sou sua vitória contemplada. Sua mente superou as paixões que inflamavam e turvavam espirito. Através da sua evolução interior, elaborou uma consciência “ciente”. Não precisa temer o homem ou as forças da natureza. Tornou uma deusa essa mulher mortal; transformou sua essência, conquistando a imortalidade.
-- Perdoe se não agradeço seus favores e nem pergunto em que templo devo queimar incensos em sua honra, mas olhe minha figura!... Ainda deve andar por sua terra, à procura da expiação de meus pecados, quanto a tornar-me uma deusa. Você viu quando veio a mim o charco em que chafurdeava meu corpo. Acaso precise uma deusa de ajuda?
-- Suprimir em si a idéia de mérito, eis grande prova para o espírito.
-- O que me diz?
-- Não deseje, Perséfone, encontrar fora por toda a parte o que já está em você.
-- Não tenho liberdade, a não ser agora. Meu destino é regido pelos atos que cometi no passado. Meu futuro já é traçado.
-- Toda a liberdade é provisória; consiste apenas em escolher um tipo de escravidão.
-- Mas eu nada fiz! Estaria agora morrendo na luz, se não tivesse surgido, vindo a meu socorro.
-- Não acredite que a sua verdade possa ser encontrada por outrem. Mais que de tudo, envergonho-te disto!
-- Entreguei-me à procura de minha luz e onde parei? Na mais profunda negridão de minha alma.
-- Acredita que se entrega; mas a melhor parte do seu ser está enclausurada num claustro: sua mãe, seus irmãos, seus campos a detêm. Nada mais perigoso para você, que sua família, seu quarto, seu passado.
-- Como livrar-me? Tudo que vê é fruto do que aprendi, dos ditos de minha mãe, de meu pai; dos feitos de meus irmãos. Os calos de minha mão lembram meu campo, meu pão, meu quarto. A angústia de minha alma lembra o sangue de meu pai; carregarei para sempre tudo sem mudança, pois, onde eu for, minha culpa irá também. Nunca poderia desfazer-me de tudo que aprendi; disto é que sou constituída. A juventude só a possui por um momento; o resto de minha vida será para lembrá-la.
-- Por detrás de todas as suas portas fechadas, encontram-se quartos vazios. Cabe a você preenchê-los.
-- Seria capaz de tal feito?
-- Se procurasse seus alimentos, não teria fome para comer. Se eu fizesse sua cama, não teria sono para nela dormir.
-- Espero tudo que vem a mim; mas não desejo senão o que vem a mim, pois assim ensinou-me a vida. Cada desejo me enriqueceu mais do que a posse, sempre falsa do objeto de meu desejo.
-- As nascentes estarão onde seus desejos a fizerem brotar. Que a importância esteja em seu olhar, não na coisa olhada. Infeliz se disser que sua felicidade é morta, porque só a admite segundo seus princípios e desejos.
-- Devo prosseguir meu caminho sem voltar meus olhos, pelas estradas nas quais caminhei? Sem inclinar meus pensamentos na direção daqueles que deixei? Sabe que assim não posso fazer. Terei que voltar até minha mãe, pagar com meu sangue a vida de meu pai. Como posso isso esquecer?
-- Tudo chega a seu tempo. Cada coisa nasce de sua necessidade. Tudo não passa, por assim dizer, de uma necessidade exteriorizada. Deve escolher, entre viver o presente, fazendo dele o melhor possível ou viver oscilante entre passado e futuro; não tendo nada construído no agora, como poderá desfrutar o depois?
-- Posso fracassar em todos os meus intentos; assim, seria melhor nada ter feito. Por mais que faça, poderei mudar a ordem do universo? Poderia eu mudar o destino que me foi traçado pelos deuses?
-- Acredita que sua essência é acabada? Jogue fora seus medos! Emancipe-se dele! Já o fez uma vez e pode repetir o feito quando quiser. Determine seu próprio futuro! A escolha é sua.
-- Assusto-me por saber que mudei meu destino. Não quero ser deusa, nem escolher! Quero a proteção! Alguém que faça opção por mim, para mim. Que posso escolher, posso! São tantos os caminhos toda a escolha é assustadora é uma liberdade que um dever não guia mais.
-- Perséfone, jogue fora seu passado! Não se compraza nele. Jogue fora seus medos! Convença-se que ele não se oferece senão uma das atitudes possíveis diante da vida. Procure sua força! Baseie nela sua essência e construa com suas mãos! O que um outro poderia fazer tão bem quanto você, não o faça! O que um outro poderia dizer tão bem quanto você mesma, não o diga! Só se apegue a você; em você, impaciente e pacientemente, cria o mais insubstituível dos seres.
Palas segurou nas mãos um cálice de ouro puro, retirou da ponta do bico da ave o pó, para a poção da vida eterna. Levantou o cálice, chamando potestades do vento, da luz e das trevas. Executando o ritual da consagração, estendeu o néctar a Perséfone.
-- Tome o alimento dos seus! Foi conseguido por você. A vida do seu corpo não mais se esvairá, pois seu destino é sagrar a vida, unir a luz e as trevas, levando o amor para combater o ódio. De miserável tornará a deus, num caminho feito por você.
Perséfone segurou, com firmeza, o cálice sagrado, bebendo a vida eterna.
Palas observou a transmutação. O fogo sagrado, o elemento Ur, multiplicou-se em mil chamas ao redor de Perséfone, adentrando sua pele, queimando o corruptível. Neons clarificam o céu; o pássaro branco da vida adentrou pelo arco-íris a cabeça da mulher deusa. Completo o rito, Palas ordenou a imediata partida do novo ser.
-- Agora vá! Segue seu caminho, nessa terra sem divisão, nesse espaço em que o homem não pode enumerar nem temporalizar. Nessas florestas, campos e mares sem nome, onde os mortais não aventuram, deixe seus pés caminharem! Descanse quando necessário! Mas siga sempre em frente, até encontrar aquele com quem dividirá o trono.
Assim, Perséfone entra no Lácio, terra neutra, onde todos os deuses podem perambular sem limites, onde água, céu e ínfero se encontram para conversarem, sem predominância de nenhuma das três forças.
XII
No grande pico da Tessália, cercado de brancas nuvens, arejado por tépidas brisas, estava a terra dos deuses. Hera, esposa-prima de Zeus, até a pouco divertia-se contemplando a luta de Perséfone, vista em seu cristal abrangedor do espaço e tempo. O objeto divertia a deusa, mostrando os acontecimentos funestos dos mortais e deuses. A diversão acabou quando Perséfone venceu; mas aparição de Palas, essa realmente enfureceu Hera. Como ousava ela dar o néctar dos deuses a uma mortal, iniciá-la nos mistérios, enfim dar a chama sagrada da vida eterna sem a aprovação dela ou de Zeus.
Levada pela inveja ciumenta, sua companheira, foi até Zeus tentando convencê-lo do perigo de Hades desposar Perséfone. Enquanto falava, mostrava em seu cristal a nova imortal trilhando o caminho de seu encontro final.
-- Veja a filha de sua cabeça! Deu a chama da imortalidade a ela; não satisfeita a encaminha para os braços de seu irmão.
-- O que há de errado no ato de Palas? Ela tem autonomia para dar a poção da imortalidade a quem merecer.
-- Não entende, Zeus? Palas tenta unir Hades e uma mulher do reino da luz. Se assim o fizer, gerarão filhos mais fortes que os seus, pois habitarão esses na terra da luz e no reino das sombras e os limites serão derrubados. Você enfraquecido!
Zeus sentiu-se defraudado. O pai dos deuses, com o secreto temor de que as trevas e a luz coabitassem gerando herdeiros amados na terra, o homem não seria mais assolado pelo medo da morte, mas a veria como uma continuação, como um caminho para um conhecimento mais profundo dos mistérios trilhando o caminho da imortalidade. O homem não temeria tanto os habitantes do Olimpo. Talvez chegassem mesmo a esquecê-los, procurando força maior.
-- O que sugere, Hera?
-- Perséfone deve sangue à mãe. Pela vida de seu pai dará seu primeiro fruto; sendo assim, o primogênito de Hades será mortal, pois é dado por um mortal, pelo sangue que sua mulher derramou.
--Impedirei, então, que o ventre da rainha do inferno gere, morrendo seu fruto como qualquer outro mortal.
-- Não, essa não é a melhor solução! A atitude mais coerente, meu senhor, é não deixar visível sua intenção contra Hades e seu filho. Seu irmão é forte; pode mandar os gigantes e titãs do Tártaro, em guerra contra você. Teria pouca chance de vitória.
-- Posso contar com a força de Ares.
-- Não tenha tanta certeza! Sabe que o deus da guerra aprecia a batalha em sua pureza. Para Ares quanto mais tempo durar uma peleja, mais divertida se torna.
-- Sim, é provável que lutasse a meu lado, aliado também a Hades, divertindo-se no confronto.
-- Por certo! Deixe Hades e Perséfone juntarem seus destinos e então, cobre a dívida; porém para que você não pereça cruel aos olhos de seus numes, dê ao primogênito de seu irmão o direito de lutar pela imortalidade, iniciando-se nos mistérios divinos. Se conseguir, perdoará a dívida da mãe. Antes imponha a condição de que Perséfone viva no ínfero seis luas e seis luas no reino da luz, seu filho deve nascer no reino da luz, como mortal comum. Até que volte com o fogo da vida eterna, Perséfone não gerará.
-- Nenhum mortal, jamais adentrou no reino dos mistérios, e conseguiu sair ileso. Fugir da não das Palas, por vezes nem um semideus consegue.
-- Mande anunciar o oráculo, antes à mulher, depois a Hades. Sendo assim não terão tempo para perceber a verdade da sua ação.
-- A criança entregue pela vida de outro, não sobreviverá até o entardecer do Olimpo.
Veja, meu senhor! Perséfone entra no Lácio e Hades a vislumbra através da cortina escura da imagem.
-- Parece mesmo enamorado.
--Preparar-se-á, garanto, para um imediata viagem ao Lácio.
-- Se Perséfone não o amar?
-- Palas jamais erra, senhor! Se deu a poção da imortalidade indicando à moça o caminho neutro, prudente e sábia, com seu poder clarividente, já previu a união dos corpo.
-- Esqueço, por vezes, que ela saiu de um rachadura de minha cabeça. Fez-se por si só; consegue bloquear-me, pois conhece toda minha cabeça, onde foi gerada. Algumas horas intermináveis, o temor toma conta de meu coração; a força de Palas aperta meu coração , pois o enche de medo.
-- Tem a mim, meu marido; sou rainha de todos. Ela não nasceu de meu ventre; sobre mim, não tem força.
Os olhos de Hera eram, por vezes, os de Zeus; Hera, perspicaz e imprudente, ciumenta e possessiva, só via, em toda situação, uma forma de reter Zeus a seu lado. Seus desejos, infortúnios de mulher esquecida, bloqueavam a visão longiva de deusa, dando-lhe uma visão humana, demasiadamente humana, para que pudesse superar a sabedoria resplandecente de Palas.
Como deusa, caminhava pelos jardins de Lácio. Todos os numes perguntavam quem era tão luzente figura, símbolo da beleza pura. Competiria igualmente com Afrodite.
Perséfone era indiferente a todos os elogios. Andava com realeza, desprezando seus súditos admiradores.
Apólo, o deus belo, divindade boa e justa, deus dos campos, divindade iluminante, era deus da luz com o sol; fez-lhe a corte, encantado. Descansava de sua viagem ao país do povo sagrado. O país era longínquo, terra dos hiperbóreos, ao norte de toda a terra conhecida. Em toda sua majestade, apresentou-se aos olhos da jovem deusa; essa, porém, ignorou seu pedido para um passeio pela fonte do jardim de pedra do toque. Apólo sentiu-se injuriado, tendo em vista até mesmo Vênus, tê-lo amado com paixão imensurável.
Defraudado, retirou-se de sua presença. Hades, que a muito chegara, observava Perséfone, com amor e medo. Havia rejeitado a muitos numes: Pã com sua graça, Ares com sua arrogância viril, Apólo em sua majestosa beleza. Dionísio, e sua bebida alegre, foi, igualmente, rejeitado. O que a mantinha assim tão fria ante seus admiradores? Não era arrogante, nem cruel como Hera; nem tão pouco fez voto a Héstia. Então, por que não se entregava aos prazeres do amor como os demais numes?
Hades perdia-se em meditação, procurando uma resposta que o levasse ao coração de sua amada. Seguia cada passo de Perséfone. Tornara-se sua sombra, admirava sua beleza veladamente sem mostrar-se como os outros pretendentes faziam, tinha vergonha de sua aparência. Certo dia, porém, escorregou no limo da floresta de pedra por onde a moça passeava, e foi escorregando pelas pedras até os pés de Perséfone. Seu rosto ficou junto ao solo e não fez nenhuma menção de levantá-lo.
-- Você está bem? – perguntou Perséfone, num misto de pena e divertimento.
-- Sim, respondeu com voz bronze, sem levantar a face. Escondia-se amedrontado. Perséfone ajoelhou-se para ajudá-lo a levantar; porém esse negava o toque das mãos da moça; temia levantar a fronte e encará-la.
--O que teme? Não me aborreci com o incidente! Não se preocupe que eu não o machucarei. Disse as últimas palavras entremeadas por um risinho divertido, porém não sarcástico.
-- Não sou digno de ser contemplado por seus olhos. Sou desfigurado, horrendo; nenhuma deusa suporta minha imagem. Agrido o senso estético de todos, sejam deuses ou mortais.
-- Por certo, não sou como nenhuma dessas criaturas. Os deuses que aqui encontrei, todos parecem a meus olhos incapazes de amar realmente; entregam-se a todo instante aos prazeres da fonte de Vênus; saciados, logo procuram outro par. Quanto a mim, não quero ser objeto, para que nenhum deus, voltado somente para sua beleza e próprio prazer, se vanglorie. São todos amantes de si mesmo.
Hades, impressionado com o modo com que Perséfone via os fulgurosos numes, que a todos fascinavam, levantou, num gesto entusiasta, a fronte, sem mesmo notar que o fazia. O rosto cadavérico e seus olhos negros ficaram desvelados; seus olhos exprimiam uma tristeza profunda e seu rosto não tinha expressão definida. Levantou seu corpo grande, um tanto desproporcional nas formas. Como um menino desajeitado, limpou a túnica com gestos desconcertantes.
Perséfone riu divertida de seus modos, desajeitado e tímido.
-- Veja! Você ri agora de minha figura! Todos o fazem quando não gritam de pavor.
-- Que absurdo! Rio porque o acho bonito! Embora bem desajeitado. Primeiro cai a meus pés, depois levanta-se de um só pulo, quase caindo novamente, e, pior, segura-se nas orlas de minhas vestes e retira um pedaço delas. Você é mesmo tímido. Como se chama?
-- Hades! – respondeu o nume com o esboço de um sorriso.
-- Meu nome é Perséfone. Quer acompanhar-me? Estava a passear.
-- Seria uma honra. Antes, porém, devo preveni-la. Sou o deus do Tártaro profundo: rei das sombras; não sou gentil, nem belo, sou mesmo bem desagradável.
-- Quanto a agradar-me, não se preocupe! Sua presença me é amável. Você é o deus dos mortos?
-- Sim! Isso a intimida?
-- Não temo mais a morte! Estive prestes a conhecê-lo, quando ainda era mortal. Só não o fiz, porque me faltou o óbolo. E seu barqueiro é intransigente; não abriu mão da moedinha.
Perséfone concluíra a frase entre uma gargalhada alegre. Hades, sem perceber, também sorriu. O reino dos deuses e mortais tremeu. O deus da morte sorria à vida. Caminhavam luz e trevas, lado a lado; coexistiam; o mundo jamais seria o mesmo. Caminharam longamente. E foi Perséfone quem o convidou para sentar-se a seu lado no banquete. Na noite que se seguiu todos olhavam admirados Hades na companhia da deusa que a todos recusara. Os numes comentava, sua falta de gosto, dizendo não poder ser deusa, pois não possuía a noção do belo.
Apólo retirou-se da ceia, partindo nas asas de seus cisnes brancos. Porém, Perséfone e Hades viviam um para o outro, ignorando, naquele momento, a presença de qualquer ser ao seu redor. O banquete findou e ambos continuaram a beber do cálice Dionisíaco, ficando sós no salão. Perséfone, ao dar pela falta dos outros numes, brincou sorridente:
-- Deixaram-nos, pois se viam inoportunos.
-- Como você é bela! Sua presença me faz esquecer de quem sou e chego a ter ilusões.
-- O deus da morte não pode amar como os demais?
-- Seria eu afortunado se dispensasse um olhar único a minha pessoa; se sua luz viesse a meus olhos, conheceria a felicidade que a mim sempre foi negada.
Perséfone tomou uma expressão séria; seu olhar penetrou o de Hades.
-- Como? Não percebe? Meu coração conheceu a felicidade somente quando a luz de meus olhos revelaram sua imagem. Sempre temi pelo que diziam de você. Agora vejo que você é incompreendido. Temem os que não o conhecem. E fonte inesgotável de bondade e conhecimento. Amo-o não por um minuto; mas quero ser sua para sempre, se o seu coração me quiser.
Hades não acreditava em seus ouvidos; sentia o coração queimar pela chama do amor; entregou-se, sem palavras, aos braços da deusa amada, num instante não se percebia mais distinção entre a morte e a vida; entrelaçados, a vida entregava-se à morte. Na fusão ardente do amor, vida e morte tornaram-se um; e a morte morreu em sua ferocidade. Naquela noite, o amor de Perséfone e Hades gerou Dafni.
Dafni acordou num solavanco; deitada, em uma mesa de pedra alta em meio às chamas de tochas, jazia no centro da sala principal do mosteiro da Varlaan.
Em imagens trepidantes pela luz do fogo, via espectros que aos poucos foi reconhecendo quando abaixaram o capuz do hábito de estopa, um após o outro, como se a descoberta da cabeça, também, fizesse parte do ritual.
Manto, a Grã-Sacerdotisa, aproximou-se da mesa-inicial; em suas mãos uma pedra vermelha ardia em brasa.
-- Pegue! – ordenou bruscamente. Dafni, ainda zonza, sem definição acertada de presença corpórea, sentou e apanhou a pedra; seus olhos não desgrudavam dos de Manto, e a mão magérrima da menina ardia sobre o calor da pedra; nem um som saiu de sua boca, nem uma única lágrima de dor. Seus olhos de abutre desafiavam os da águia, Manto. Num instante de dor arrepiante, cerrou os punhos, obrigando as mãos a pressionar com maior força a pedra do calor, e, num gesto brusco, bloqueou seus pensamentos, expulsando Manto de sua mente. A sacerdotisa se estarreceu ante a força adquirida pela pequena, e, não sabendo como agir, cedeu, num tremular de medo, as pálpebras.
Dafni levou a mão cerrada até bem próximo do rosto de Manto, e, quando bem próxima da face esquerda, abriu as mãos encostando a pedra-fogo junto à face da sacerdotisa. Ante o espanto das demais pitonisas, continuou a pressão dolorosa, até o grito pavoroso da dor sair, finalmente, da garganta de sua vítima., irrompendo audacioso pelos corredores necrófilos do mosteiro.
-- Retire seu véu, farsante! Vejo seu rosto desnudo. Não engana mais meus olhos e nem minha alma. Desista pois o malogro é o seu fim, bem como do seu plano imundo!
Manto caiu sobre o chão, encarquilhada; seu corpo, aos poucos, partia-se, rompendo o invólucro da mentirosa aparência. Ao terminar a quebra do carvalho, uma outra mulher permanecia em posição fetal jogada no solo.
Métis olhou a apavorada Pamona; Astréia e Câmenas não despregavam os olhos da figura ruiva desconhecida. Aos poucos Deméter espichou o corpo sobre o solo; com um ar malévolo no rosto, levantou-se encarando a menina, em todo seu esplendor demoníaco.
-- Desvela meu rosto! Mas para que lhe adianta tal saber? Você está em meu domínio! Sou a Grã-Sacerdotisa, a mãe poderosa, e ninguém escapa a minha fúria. Seu sangue pelo de meu marido, é lei. Nenhuma força pode impedir a continuação do ritual.
-- Pode enganar aos deuses; mas não a você mesma! Foi você a assassina de seu marido, e não minha mão, a parricida; esta só serviu como instrumento a seus propósitos maléficos; não é, grande mãe?
-- Imputa a culpa de sua mãe a uma inocente?
-- E mesmo pérfida! Sua alma corrompida não vê fronteiras para abrandar sua sede de poder.
-- Acaso seus olhos não testemunharam o feito, daquela que a gerou? Pode pôr em dúvida sua própria consciência? Os fatos foram revelados ante seus olhos; como pode ignorá-los ou questionar sua veracidade?
-- Queria, por certo, tornar-me cega; mas o inverso ocorreu, desvelou-se à minha visão. Sua magia mostrou-se ineficiente; na escuridão dos meus olhos carnais, entrevi aberta a porta sem os véus de sua feitiçaria enganosa. Disse a minha mãe que jamais obteria o perdão da Grã-Sacerdotisa e que os poderes da grande mãe apossaram-se dela; há tempos incontáveis, é a grande mãe poderosa, e, não podendo sujar as mãos de sangue, usou Perséfone como seu instrumento, para o fim desejado.
-- Insana! E o que pensa? Como poderia velar-me aos olhos dos deuses? Tal procedimento é indigno da Grã-Sacerdotisa. Jamais o faria sem a punição devida. Negue sua afirmação antes que a aniquile por completo.
-- Por que se amedronta, deusa Augusta das searas? Teme que os deuses me ouçam e a levem ao tribunal?
-- Ninguém usa tal expressão sem a devida punição. Não sobrará uma única célula viva de seu ser, por castigo a sua petulância.
-- Não se precipite Deméter! Como vê, meu poder é superior ao seu, pois tenho o que a você foi dado, de forma enganosa, por certo, mas a você pertence.
-- Não pode! ... Nunca somente um ser possui o centro de minha força e eu o ...
-- Matei! Não era isso que ia dizer?
-- Mente! E certo! Usa a artimanha para intimidar-me, pois não há de conseguir seu intento.
-- Mentira? Quem melhor para adequar-se a essa sequaz companheira, senão você Deméter? Vestiu o manto de mortal; usurpou o corpo de um camponesa para fugir da ira de Hera, quando seduzia Zeus às suas costas. Enganou Iáson, seu amado marido, quando este a reconheceu no campo. Prometeu gerar seu fruto, sadio, um deus bom. Ao pedir o talismã da vida, deu a entender que se despiria do corpo carnal. Engendrar o filho de Iáson no seu fulgor divino, para isso ofereceu a vida de seu verdadeiro marido a Hera, tentando assim abrandar sua fúria; pensou que dessa maneira obteria seu perdão, porque carregava no ventre semente divina. Iáson dispersou-se no nimbo; indignadamente ofuscou os olhos da deusa do Olimpo com a fumaça da vida, para continuar em seu disfarce terreno, pois os mortais eram, então, alvo fácil de suas artimanhas. Viveria com o poder do talismã, simultaneamente à vida de morta, desfrutando da dimensão divina, coberta pela névoa do esquecimento, poder do qual este é provido.
Gerava do Sêmen de Meleagro, até conseguir um meio para livrar-se dele, sem que ninguém despertasse contra seu disfarce. Não houve melhor momento que a puberdade de sua filha ilegítima. Tendo em vista o fato de ter matado a pequena recém-nascida, junto com o espírito da mãe. A mulher da qual tomou o corpo. Não podia explicar a morte da pequena a Meléagro; então, mais uma vez recorreu a seus ardis. Sabendo, antes da sua fuga de Hera, que Hades se unira em amor com a filha do Cocito e esta gerara uma filha, que deveria descer as águas frias do medo, junto de si, sem nunca conhecer a luz, ou o calor, você propôs uma troca: o cadáver da mortal pela filha de Hades. A ninfa Menta, agradecida por sua bondade, aceitou de bom grado, jurando jamais revelar a verdade, visto que Zeus não suportaria a geração de Hades a invadir o reino da luz. Tudo ocorreu conforme seus planos; Cocito e Zeus acreditaram ser a pequena filha do deus das sombras, e nada mais justo que residir no ínfero, junto ao pai. Preservou, então, minha mãe, filha verdadeira de meu pai, como morta; sabia que Meléagro jamais a amaria, pois, sendo uma filha do inferno, mesmo sem saber, seu coração a odiava. Uma mortal não sustentaria sua força; diluiria seu corpo, e não poderia usar a filha legítima, pois o amor impediria o ritual assassino.
Então, você esperou pacientemente até o dia em que Perséfone, sob o véu da ignorância, deixou-se possuir por sua força, executando seu plano. Não contava, você porém, com o fato de minha mãe, mesmo sem conhecer sua essência divina, vencer as Erínias e as Moiras, sobrevivendo ao destino que havia você imposto a ela. Palas, contemplando, com os olhos sagrados da sabedoria, a luta heróica, concedeu a visão da real essência de imortal de minha mãe; porém, prudentemente, ocultou a seus olhos a imagem de seu pai. Assim, minha mãe uniu-se a meu pai, como esposa, gerando-me. Com isso, porém, você não contava; sou o eco das suas injustiças, Deméter, a mim deve prestar contas.
-- Como pode você provar a veracidade de suas palavras? Não passam de sons vazios, sem significação. Se houvesse mesmo eu enganado aos deuses, como saberia a verdade? Eu permiti que adentrasse aos mistérios, e só desvelei o que me aprouve a seus olhos. Nem, mesmo Hera acreditaria em tamanhas falsetas
--Esqueceu-se de Pluto?
--O que tem meu filho? É cego, surdo e mudo! O que poderia revelar a você?
-- Você mostra a sua maldade, privando Pluto do mundo externo! Pensou poder controlá-lo a seu prazer. Enganou-se! Suas artimanhas a ele são visíveis; ele vê além da luz, ouve os sons profundos da alma e comunica-se quando deseja, com quem deseja. Nunca adentrou em sua mente como pensava. Ele lhe mostrava o que você queria ver; a mim, sua verdadeira faceta. Provarei a inocência de minha mãe diante dos deuses, num júri constituído dos numes de maior poder que habita o Olimpo. E por certo, Deméter, você será jogada no tártaro profundo, sob os aguilhões de sua justiça. O mundo das sombras será desfeito, as almas libertas do ínfero, e meu pai gerará muitos filhos de minha mãe. E os homens não mais o temerão; mas hão de vê-lo como um deus agradável que lhes oferece sabedoria; e seu reino não será moradia, mas somente lugar de descanso para a continuação da viagem, até que todos os homens bebam do cálice da sabedoria divina.
-- Nunca! Jamais sairá de meus domínios. Deméter acendeu os olhos em duas chamas, seu corpo ganhou altura, e, aos poucos transmutou-se em uma serpente enorme, de duas cabeças com os olhos em chama e a língua serpenteava escorrendo veneno da boca. As pitonisas presentes foram, instantaneamente, transformadas em pedra; e a montanha do grande meteoro caiu no reino do esquecimento; naquele fragmento perdido de vida no tempo, nenhuma divindade teve acesso a ela; no momento da batalha, aquele pedaço de terra desapareceu na mais profunda escuridão caótica.
Deméter irrompeu para o lado de Dafni abaixando as duas cabeças de serpente, prontas para devorá-la. Abriu a boca e reteve-se confusa diante da imagem de Pluto; ele estava sobre a mesa tomando o lugar de Dafni. Quando ela tomava sua forma, Deméter voltava a atacar, retendo-se, porém, diante do tremular da imagem do filho na menina. A luta seguiu por doze luas do tempo, contado fora de Varlaan, até que Deméter arrefeceu por instantes. Foi nesse fragmento de fraqueza que Pluto passou o talismã das três forças a Dafni, pendurando-o em seu pescoço.
-- Vá! Fuja! É a única maneira. Dafni tentou protestar; mas Pluto deteve-a; rasgou a cortina do tempo e espaço, jogando-a em um longo caminho, silencioso. Seu corpo rompia sobre luzes do arco-íris, seus caminhos eram nuvens alaranjadas permeadas de neons azul-fluorescentes. Levitava como pluma, em um céu de pôr-do-sol; seu corpo já não tinha peso, não tinha forma; seu ser era, agora, partículas de energia, penetrando um mundo desconhecido; uma felicidade, jamais sentida antes, tomou-lhe o ser disperso; voava livre, totalmente livre, pelo espaço infinito; seu ser não encontrava barreiras, e ela vivia a eternidade daquele universo incomensurável, que se desvelava, a cada instante, numa fusão, completa e irreversível com seu ser.
Viajava em barreiras; todo o universo lhe pertencia. Ao menos, até a sua próxima parada. Dentro daquele mundo ilimitado, uma fronteira, em breve, seria seu limite.
HOSPITAL PSIQUIÁTRICO: LANON KANDAN, 3999, 16 de agosto, 22 horas.
-- Danãe? ... Danãe, está me ouvindo?
A moça, sentada no chão de um pequeno cubículo envidraçado, iluminado, por luzes externas, levantou lentamente a cabeça dirigindo o olhar em direção do som microfonado. Tinha uma aparência doentia e a palidez de quem, a muito, não recebe o carinho do sol na pele. Olhos negros e alheios, boca carnuda de um rubro sensual, seus traços eram agressivos, como o cabelo longo, emaranhado de cachos pequenos. Vestia o camisolão branco inteiriço com o nome dos hospital, e, apesar da imagem decrépita, guardava vestígios de uma beleza faraônica.
Seu olhar permanecia fixo no vidro, visível somente da parte de fora.
-- Danãe, pode me ouvir?
Dr. Bael Rent soltou um suspiro exasperado.
-- Dafni? É você?
-- Como vai, Dr. Rent?
-- Muito bem! E você, como tem passado?
-- Sua pergunta é dirigida a mim ou a Danãe Volon?
O médico quase vociferou ao responder:
-- A ambas!
-- Bem, Danãe está repousando em lugar seguro. Quanto a mim gostaria de poder sair dessa coisa, caminhar, ver a luz do sol, sentir o ar e o cheiro das árvores. Vocês ainda tem árvores e sol, não é mesmo?
-- Sim! Temos sol e muitas árvores nos parques.
-- Por que estou presa, Rent? Eu fiz algo de mau a alguém do seu mundo?
-- Liberte Danãe e poderá sair!
-- Já lhe expliquei! Danãe não está presa; ao contrário, aprende muitas coisas numa esfera mais evoluída; está livre e fortalecendo-se.
-- Vamos, Danãe! ... Você não morreu! Fracassou! Chegamos ao seu quarto antes que seu pulso sangrasse sua vida. Olhe você mesma a cicatriz! Vamos, Danãe! Olhe! (..)
A voz do médico soava, num vazio recôndito, palavras ditas a pessoa alguma. Dafni fitava-o com um brilho de desafio, aquele mesmo olhar que o fizera se arrepiar durante cinco anos em que tratava aquela figura exótica.
-- Gosto de seu terno Dr.! Azul lhe fica muito bem!
Bael Rent sobressaltou-se diante da afirmação; não por ser essa a primeira vez que a moça se comportava de forma a desestruturar toda sua tese racional; mas a cada nova manifestação de clarividência ou outros fenômenos, para os quais não encontrava explicação, ficava a perguntar-se se o mais seguro seria mandá-la para o crematório. Já o teria feito, há muito tempo, como era costume; os pacientes considerados incuráveis eram cremados, bem como os infratores das leis. Estava sendo pressionado por todos os lados; o computador central convocara uma equipe de psiquiatras, há três anos atrás, quando se esgotara o prazo de tratamento; a equipe atestou perda irreparável. Bael tentou, desesperado, contrapor o laudo, dizendo ser um caso raro; sua refutação não foi aceita pelos quatorze integrantes da equipe médica. Foi computada a execução da pena para o dia seguinte, junto com mais dez pacientes. Bael Não compareceu ao hospital naquela sexta; foi bipado às onze horas e trinta minutos, chamado urgente ao Kandon, na ala 5, onde ficava a câmara crematória. Encontrou do lado de fora uma enfermeira pálida e trêmula; Danãe, ao seu lado, sorria. Bael olhava o rosto lúdico da moça, num misto de alegria e temor. Conseguiu, diante das evidências mais dois anos de protelação, dados pelo governo central.
Após o prazo, Danãe seria submetida a uma nova equipe de médicos e seu laudo seria final; o prazo acabava no mês de agosto daquele ano. Bael não via esperanças para Danãe.
Dessa vez iria ser desintegrada e Bael não acreditava que seus poderes psíquicos a livrassem do desintegrador. Além do mais, ela não oferecia nenhuma ajuda ante a equipe examinadora; mostrou-se como uma perfeita idiota, irrecuperável, ao salvar-se do forno de cremação. Os médicos atribuíram o fato a um defeito nas ondas de calor, pois cada humano era posto em um círculo de vidro, em separado, onde recebiam o aquecimento das ondas de menos de milésimos de energia; microondas de tal potência transformavam em pó um corpo humano, em menos de um segundo. Danãe ficou exposta ao calor durante trinta minutos.
Bael interviu pedindo a anulação da pena, conseguindo a protelação de dois anos. Desde então, trabalhava dias inteiros tentando descobrir a proveniência da energia do psiquismo de Danãe, obtendo sempre a mesma resposta.
Afirmava ser ela habitante provisória do corpo de Danãe, chamar-se Dafni, e estar fugindo da avó que desejava devorá-la após ter tomado forma da serpente nascida do ventre de Gaia.
Deus, pensou Bael! O louco ali devia ser mesmo ele; insistir num caso desses era prova definitiva de insanidade. Acabaria sendo desintegrado junto com a pequena feiticeira, isso sim (...).
Passou as mãos pelos cabelos negros, num gesto cansado. Suspirou profundamente e falou num fio de voz:
-- Dafni seu prazo acaba daqui a oito dias; eu nada mais poderei fazer quanto ao seu destino. Você me entende?
-- Não se atormente, Bael! Meu destino não é a morte. Sou filha-neta desta. Meu destino é outro; ainda não entendo por que tive que vir a esse mundo. Seu mundo me parece muito frio, desconhecedor dos deuses, do fogo do amor; desprovido de compaixão, penso nele como um recanto de mendigos ou uma cidade de leprosos. Você, porém, parece ter guardado algo de divino em seu coração. Gostaria de saber se existem outros como você. Danãe contou-me a crueldade titânica com que são tratados os seres que fracassam e como suas vidas são regidas por uma máquina. Não crêem na existência de nada que não seja visto pelos seus olhos ou pelos de suas máquinas.
Quem são vocês, Bael? .., Esse é o futuro de minha raça? Vocês em nada crêem; juntam-se em pares para reproduzir e não para amar. Até seu ato amoroso é vigiado pelas suas máquinas, estimulado por elas. Trancam-me aqui, chamam-me de desequilibrada por dizer ser outra, num corpo que não me pertence. Mas qual é o mal em minha afirmação? Em seu mundo ninguém pertence a sim mesmo; seus seres não têm desejos; se alguém ousar é logo mandado para reabilitar-se ou, então, é tirado abruptamente de seu meio.
Vocês são a geração do medo, da cegueira; são autômatos mortos que andam; suas máquinas são mais temíveis do que as moiras e todos os titãs do ínfero.
Sua raça não é mais de homens. O que são vocês, Bael?
Diante do olhar inquisitivo de Dafni, Rent retirou-se a passos lentos da presença da criatura; sentia em seu olhar um brilho de ser humano, um brilho de deus.
Ao caminhar, pelas alas abertas da saída do hospital, parou por um instante, ouvindo o borbulhar da sinfonia das máquinas que se espalhavam por todo o canto. Ao sair colocou a mão em um canal de reconhecimento; no segundo seguinte, a voz sonora:
-- Boa-noite, Dr. Bael!
-- Boa-noite, Esteves! Para casa, por favor!
-- Desculpe, senhor! Mas não posso satisfazer seu pedido. São apenas dezoito horas e trinta minutos; deve ir ao centro de computação médica atualizar seus estudos até as vinte e duas e quarenta e cinco.
-- Certo, Esteves! Não posso negar, não é?
-- Sinto, senhor! Essas são as ordens de seu dia, respondeu o veículo, pondo-se em movimento, em alta velocidade.
Esse era um crime: decidir por si só ir para casa descansar, seu carro dirigido pelo computador central não o obedeceria. Se tentasse ir a pé, seria paralisado pelo microchip implantado em seu que o acusaria de desordem, levando-o à casa de recuperação. Danãe, ou Dafni, tinha razão; eram todos escravos da maravilhosa cibernética.
Enfim, chegou o grande dia. Toda a equipe médica observava a moça dentro do cubículo envidraçado. Bael tinha as mãos frias; na testa um suor temerário; não sabia bem o porquê da preocupação pelo destino daquela exótica desconhecida; havia nela algo de verdadeiro, excêntrico da perspectiva racional, louco para o sistema regido da sociedade atual, e da personalidade ambígua; trazia uma inquietação de dúvida ao espírito do médico que, até então, não conhecia tal sentimento. Suas divagações eram por certo primitivas, convencia-se Bael. Há muito, os homens não questionavam sua forma de viver, acomodados a um sistema de comando; as palavras individualidade, liberdade, caíram no esquecimento. Os mais jovens nem mesmo conheciam tais palavras, visto que aprendiam somente o que lhes era lícito, ou seja, o que a máquina central, regedora de todo o sistema computadorizado do mundo, permitia a eles aprenderem, segundo a utilidade da aplicação para o bem andar da sociedade. Poucos eram os revoltosos, geralmente os mais velhos, com resquícios de ensinamentos dos livros, os quais a ninguém era permitido acesso na atualidade.
A máquina mãe trouxera a paz e a tranqüilidade para uma sociedade desfalecida. Ela estabelecia os valores, comportamento e ações de todos os homens.
Após o grande declínio da terceira guerra, os computadores pensantes foram instituídos, visto o ser humano ser incapaz de controlar suas paixões, sua sede insana pelo poder. O mapa-múndi não existia; países em separado foram extintos e a terra era uma só. Controlada por um computador cérebro gigantesco, várias centrais menores foram instaladas em todo o canto do mundo; e a terra, os seres que a habitavam, eram regidos pelos filhos da máquina mãe. As religiões, também, foram extintas; o único deus, conhecido pelos homens, era a máquina cérebro.
O mundo havia mudado radicalmente. As crianças nasciam segundo a necessidade de repovoação do planeta, nenhuma a mais ou a menos; os pais uniam-se para procriação, visto a criança nascida de união natural ser perfeita e não ter custos para manter um laboratório com semens congelados, a inseminação artificial não era utilizada; a máquina mãe fizera um estudo pormenorizado da cadeia de D.N.A. dos humanos e os unia conforme a compatibilidade; as crianças nasciam perfeitas e a espécie era conservada. Após o nascimento, a mesma era entregue à estufa de criação, o microchip implantado em seu cérebro para garantir a obediência às leis vigentes. O único contato com a mãe era na hora do nascimento, pois a instituição-família, também, fora abolida.
A criança aprendia, desde cedo, uma profissão; sua função social era enraizada, em seu espírito, à obediência às leis e no respeito pela máquina mãe que a todos mantinha num mundo de paz, sem fome, sem miséria. Assim seguiam os novos autômatos até o fim da jornada, ou seja, o recolhimento à câmara de desintegração que se dava aso quarenta anos, quando o indivíduo, devido ao excesso de trabalho, começa a produzir menos.
O encadeamento era perfeito, a sociedade produtiva, e os homens passivos, nasciam e morriam; ou seja, morriam e morriam.
Bael sobressaltou-se a pergunta da Dra. Jânace, que, há muito, o chamava, sem este ouví-la.
-- Dr. Bael ! O senhor sente-se bem?
-- Oh! Sim ! Pode repetir a pergunta por favor?
-- Perguntei se podemos começar a interrogar sua paciente.
-- Sim ! Por favor senhores, estejam à vontade!
A equipe de trinta profissionais, todos da área psiquiátrica, tomaram suas cadeiras ao redor da sala onde Danãe estava. A disposição de cada um, havia um microfone; todos traziam em mãos uma prancheta que registrava, automaticamente, pergunta e resposta, e a conclusão de cada um. Tal sistema funcionava pelo som, registrando em imagens as palavras, e desvinculando as probabilidades de verdade ou falsidade da resposta do paciente. Bael, também, sentou-se; num suspiro profundo, desejou que Danãe demonstrasse suas habilidades, livrando-se do desintegrador.
Jânace foi a primeira a falar:
-- Danãe? Um silêncio prolongado seguiu-se. Ao ouvir a pronunciação de tal nome, Bael estremeceu; certamente Jânace já se dispusera a condenar a moça; ao chamá-la diretamente, nada mais questionariam os outros se Danãe não respondesse, ou pior, se dissesse não ser esse seu nome, pior pensou Bael desesperado. E, se Danãe se dispusesse àquele falatório tão conhecido por ele, respondendo singelamente a Jânace: - Meu nome é Dafni, vim do coração da Tessália, fugindo de minha avó, Grã-Sacerdotisa. Na hora em que ela tomou forma de serpente das entranhas de Gaia, estava prestes a devorar-me; Pluto, meu primo amado, deu-me o talismã das três forças, o qual temo poder de quebrar as forças do tempo, espaço, e vim parar aqui, nessa dimensão, nesse mundo por mim desconhecido. Sou uma viajante; mas, certamente, tenho uma missão nessa terra nova, pois, se assim não o fosse, certamente aqui não estaria; não eu, filha-neta de Hades, o deus da morte. Quanto à Danãe, tomei seu corpo emprestado; na verdade, estou a acender a chama da vida em seu espírito, visto que aquela tentou extinguí-la por si, só.
Em meio a esse turbilhão de pensamentos, Bael olhava Dafni, sentada imóvel, com a cabeleira negra a cobrir-lhe a face, a camisola branca longa, seu pés descalços, as mãos largadas ao lado do corpo, davam-lhe realmente um ar enlouquecido.
Jânace repetiu a pergunta, com exaspero na tonalidade da voz.
-- Danãe, estou falando com você. Se é que pode me ouvir, responda. Você é Danãe?
Todos os olhos atentaram na direção do corpo até então imóvel; a cabeleira negra moveu-se suavemente, com o erguer da cabeça. Dafni exibiu um rosto iluminado e agressivo, os lábios rubros entreabriram-se e o som saiu límpido e tranqüilo:
-- Há incoerência na sua pergunta. Você me chama pelo nome, e logo após pergunta quem sou eu! Pensava ser eu a doente, em julgamento; vejo, porém, que deveria você ocupar meu recinto.
Dafni falou cada palavra espaçada e salientemente; seu olhar estava voltado diretamente para os olhos de Jânace que, como hipnotizada, esqueceu todo seu treinamento e abaixou o olhar, num gesto de vergonha. Perdeu por completo o controle da situação. Sua Prancheta registrou: Resposta sana, plenamente aprovada pelos sistemas, decisão sábia; o computador aceitará medida proposta pela interrogada.
Jânace leu várias vezes a sentença, não conseguindo acreditar; fora ela condenada à recuperação. Embasbacada, pronunciou numa voz rouca, quase inaudível:
-- Sou o juiz! Não o julgado! Isso não é justo.
Ao revelar sua opinião, leu a resposta na prancheta: a justiça é limitada pela máquina mãe; você é acusada agora, não somente de negligência, mas de traição contra o controle central. Sua pena anterior é retirada; será levada ao desintegrador imediatamente. Jânace deixou escapar um risco de voz acuada, que seria um grito de horror, se não fosse cortado pela paralisação de seu sistema nervoso central, através do microchip acusador. Dafni olhou para Bael que olhava fixamente, boquiaberto, sabendo ser ela a causa do ocorrido. A jovem apresentou nos lábios uma similitude de riso prazeroso e cínico. Bael estremeceu diante do olhar fogoso daquela criatura.
Os demais presentes permaneceram em seus postos, sem demonstração de nenhuma espécie de sentimento; a médica sem consciência, foi retirada do local, por clones humanos e levada à câmara desintegradora.
Uma voz metálica ressoou no recinto silencioso, causando sobressalto nos presentes:
-- O interrogatório prossegue. Eis a ordem dada pela central. Os médicos retomaram a postura, e Alônce decidiu instigar a “fera” da gaiola de vidro:
-- Como vai, Danãe?
Dafni sorriu, amável, parecia mesmo outra pessoa; sua resposta tranqüila fazia os médicos parecerem idiotas, jogando, ao vento palavras vazias, sem conotação com a realidade.
-- Poderia formular novamente a pergunta, por favor! Ela me parece vaga, tendo em vista meu estado carcerário e o julgamento ao qual me presto. Refere-se ao meu estado físico? Mental? Ou a minha pessoa como um todo?
Alônce não se deixou abater; pensava rápido, tentando formular o contra-ataque.
-- Peço desculpas pela minha falta de objetividade; reformularei a questão como me pede.
Pensou com a testa levemente franzida e tornou os pensamentos audíveis:
-- Como se sente fisicamente?
-- Todas as minhas funções orgânicas estão em bom funcionamento. Respondeu seca e objetiva.
-- Sua mente? Os pesadelos de uma outra entidade a ocupar seu espaço corporal ainda avivam sua memória?
Bael remexeu-se nervoso em sua cadeira almofadada. Dafni voltou os olhos a ele como a consolá-lo, e respondeu firme ao interrogador:
-- Não! O Dr. Bael esclareceu alguns fatos a mim obscuros. No decorrer de minha estada aqui, disse-me que, por ter tentado o suicídio, fato no qual malogrei, então assumir nova personalidade, dando-me por morta; agora, porém, entendo meu infortúnio, encontrando plena capacidade para exercer minhas tarefas no corpo social.
Bael tinha os olhos arregalados e a boca semi-aberta ante o espanto causado pelas palavras de Danãe. Até a noite anterior, nenhum progresso conseguira. A moça continuava veemente em sua história fabulosa; ele tinha por certa a condenação de sua paciente, tendo em vista o computador não se enganar quanto à veracidade das respostas. Olhava, relia cada letra de sua prancheta. Resposta verdadeira. Como!? Nenhum homem conseguira enganar a central até então. Bael sabia, perfeitamente, que Danãe brincava com os presentes e com a própria central, num jogo de esconde-esconde mental. Alônce, porém, parecia satisfeito, e, com um gesto de cabeça, passou a palavra ao companheiro da direita.
O interrogatório prosseguiu por cerca de doze horas ininterruptas. Danãe não vacilou um só instante. Todas as respostas que dera, foram de objetividade estonteante. O computador teve todas as palavras proferidas como verdade absoluta. A equipe reuniu-se e, num voto unânime, absolveram a jovem, dando-lhe seu antigo posto de auditora da torre central.
Bael esperou até a saída de Danãe do hospital no estacionamento. Era seu dia de folga, o único no mês; podia fazer de suas horas o que lhe aprouvesse. Ao fim de duas horas, viu a figura alta e esbelta de Danãe, aproximar-se. Vinha em sua direção como se soubesse que ele a esperava. Sua cabeleira negra e ondulada estava presa em uma rede de tranças, formando, sobre a cabeça, uma coroa negra. Trajava o macacão tradicional dos trabalhadores da torre, de napa teflônica acinzentada, protegendo sua pele da alta radiação de alguns produtos ali fabricados.
Danãe parou na frente de Bael. Exibiu-lhe um riso trapaceiro, despertando no rapaz uma forte emoção não definida.
-- Demorei muito? – perguntou com ar zombeteiro.
-- Não! Quero dizer não sei, pois não a esperava; acabei de sair também e já ia mesmo tomar o rumo de casa.
Danãe não conteve uma gargalhada prazerosa:
-- Esse seu aparelhinho aí devia paralisá-lo quando mentisse às pessoas e não somente às máquinas. Bael enrubesceu. Seu sangue fervilhava; sentia uma sensação de ausência; a cabeça enevoada não permitia articular um só pensamento lógico. Olhava para a moça mudo, com a atônito, sem saber o que fazer.
-- Vou com você, para sua casa! Tenho dois dias de folga para ambientação, disse-me a voz do dragão de metal.
-- Onde é que arranja essas expressões?
-- Que expressões?
-- Dragão de metal! Não conheço esse vocábulo!
-- É antigo! Da minha terra, onde éramos perseguidos, por vezes, por dragões chamuscantes; mas eram de carne e osso; podiam ser mortos pela flecha de Diana ou mesmo estrangulados por Aquiles. Aqui, no seu mundo, eles são de fios e metal. Bael perguntou muito sério, não como das outras vezes o fizera considerando a resposta de uma desequilibrada mental, mas perguntou, agora, como alguém que acha, em sua questão, o início da vida; e esperou a resposta ansioso.
-- Sou Dafni ! Venho de um mosteiro do coração da Tessália, do grande Meteoro, de Varlaan. Foi, então, que Bael percebeu não haver perguntado nada; seus pensamentos eram caóticos e nada dissera, pois nem mesmo ele sabia de imediato o que ia perguntar. Um tremor percorreu sua espinha; era a sensação de medo, só experimentada por ele uma única vez; quando tinha quinze anos, foi levado ao centro de programação para receber o influxo dos conhecimentos da medicina psiquiátrica recuperativa. Viu-se diante de uma grande máquina, e seu microchip cerebral foi ligado a um cabo direto ao computador de programação. Isso ocorreu há doze anos atrás. Lembrava-se, com nitidez, da sensação definida pela máquina como medo.
-- Vamos! Não vai ficar aí meditando para sempre!
-- Para onde?
-- Para sua casa! Já disse!
-- Não pode! Isto é, não podemos receber visitas sem a autorização prévia da central.
-- Sua máquina é pouco esperta. Posso enganá-la com facilidade. Você, também, poderia se conhecesse o poder de seu cérebro.
Bael parou em meio a um protesto entrecortado. Via a moça entrar em seu carro; pasmo, desistiu de argumentar. Entrou em seguida e antes que abrisse a boca para ordenar a locomoção e o destino que o carro deveria seguir, esse arrancou parando em frente ao prédio envidraçado, onde morava. Dafni tomou a dianteira, passou pela porta de entrada sem ser computada, o mesmo ocorreu no elevador e na entrada do cômodo onde morava Bael.
-- Pode falar! Suas máquinas estão cegas e mudas.
-- Como faz isso?
-- Simples! Eu as neutralizo. Crio um campo energético ao meu redor e elas não percebem nossa presença; diminuo nossa energia vital abaixo dos circuitos de captação; crio uma ilusão aos olhos de sua máquina.
-- Que tipo de coisa é você? Um humano comum não é capaz dessas artimanhas!
-- Sou uma bruxa! Vôo em uma vassoura e assombro os homens há séculos; alimento-me de suas almas. Por isso viajo pelo tempo à procura de novas vítimas. Com o rosto enrugado, uma expressão divertida, Dafni curvou as costas e levantou os braços, mexendo os dedos como uma bruxinha; investiu aos pulinhos contra Bael, derrubando-o no chão e começou a fazer-lhe cócegas. Bael ria. Hilariantes, pareciam dois garotinhos a se divertirem entre gracejos; Bael tentou um protesto:
-- Pare! Vamos pareee!!.
-- Você está condenado a morrer de tanto rir.
Dafni e Bael rolaram pelo chão a se fazerem cócegas um no outro. Depois de algum tempo pararam exaustos e ofegantes. Cada um atirou-se de um lado no chão; e, com os braços estirados sobre a cabeça, falavam, sem parar, palavras entrecortadas pelo riso e o cansaço. Bael olhava o teto, quando, de repente, apoiou a cabeça no braço esquerdo, ficando de lado; olhou Dafni nos olhos e perguntou com ar ingênuo:
-- O que é isso que acabamos de fazer? O que é uma bruxa?
Dafni olhou seus olhos, percebendo o quanto aquele homem crescido nada sabia sobre sentir. Com um ar sério, levou a mão até a cabeça do rapaz, um pouco acima da orelha esquerda, onde fora imputado seu microchip. Percebendo o medo pelo sobressalto que seu gesto causou no rapaz, Dafni sorriu e, com voz amena, acalmou-o como a uma criança ante a uma situação nova que lhe parece perigosa, quando na realidade não é.
-- Calma! Só quero ajudá-lo! Prometo que não sentirá dor alguma. confia em mim! Acha que pode confiar em mim Bael?
-- Sim! – respondeu com voz segura, abandonando-se ao toque da moça.
Dafni centrou seu pensamento em Bael. Seus dedos começaram a aquecer, desprendendo energia pura. A ponta de seus dedos adquiriu um brilho esverdeado de início, seguido por uma fumaça tremulante de calor avermelhado. Bael mantinha os olhos fechados; seu corpo aquecia-se; fagulhas de calor percorriam todo seu ser, animado por uma força selvagem do recôndito de seu ser á medida que Dafni liberava maior quantidade de bioenergia. Enquanto Bael, levado pela figura luminescente, adentrava seu íntimo, via, dentro de si, um universo imenso começando a iluminá-lo. Viajava dentro de seu próprio ser. Portas aos milhares dispunham-se enfileiradas e fechadas a sua frente.
Dafni, entrando naquele mundo de milhões de probabilidades, disse ao amigo:
-- Vê ! Essas são as portas onde se esconde o melhor do seu ser e, também, o pior. Se decidir abrí-las, você será um homem. Encontrará, por detrás delas, prazeres e tristezas; vai desvelar seu lado humano que seu dragão de metal mantém prisioneiro.
-- Tenho medo! Nunca vivi a insegurança do não saber o que vem depois. Sei quando nasci; porém só isso. As demais atitudes da minha vida sempre me foram ditadas, planejadas antecipadamente pela máquina. Até mesmo meu fim já é decidido por ela. Nada me é vedado. Sei exatamente tudo o que vai acontece... a hora, o minuto, o dia.
-- Como é tolo! Nada sabe, senão o que uma máquina permite que você saiba. O maior véu é aquele com que voc6e encobre sua angústia. Vive a se esconder de seus anseios, de seus desejos humanos. Veda seu pensar e segue a ordem da criação das suas mãos. Foi você quem criou a máquina. Não deveria ela dar ordens ao seu criador! Nesse século não vejo humanos, mas homens que perambulam nas sombras da morte, com os corpos ardendo no fogo da vida e a alma deitada na fria lápide da não existência.
-- Nada podemos fazer! Somos fracos; depois, a máquina mãe nos proporciona ma vida digna e confortável.
-- O que você chama de viver, eu chamo morrer. O que seus olhos vêem como digno, a mim parece desprezível. Vocês vivem num mundo perfeito; sem guerra, nem fome, sem assassinato ou qualquer outro tipo de infração às suas leis. Seu mundo não é de homens; foi constituído por uma máquina, para máquinas. Vocês vivem somente para manter seu grande sistema operacional em funcionamento, pois suas máquinas não sabem prover seu sustento próprio; por isso os mantêm; todos não passam de escravos, de seu mundo constituído por limpadores de máquinas. Perderam todo o sentido da humanidade. O erro faz parte da essência humana. O homem aprende com suas falhas, luta, ama, sente. Nesse caminho infindável da vida, cada passo é progresso; se tropeçar e cair, deve levantar e continuar. O homem é homem quando se constrói a cada dia, aproveitando sua felicidade e seus infortúnios; ele sobrevive, apesar da aparente fragilidade. Se, hoje, vocês se levantassem em luta contra o mecanismo que os oprime, mesmo ficando sem tecnologia alguma e a maioria dos adultos morressem, vivendo somente suas crianças, elas descobririam formas de sobreviver; onde a você, hoje, parece inabitável, para um homem que só tem deserto para habitar, ele, através da inteligência e intuição, sobreviveria até construir um oásis com água fresca e potável. Não percebe? Sem erro não existe acerto; sem luta não há vitória. O homem ganha e perde nessa terra; a todo o instante ele cresce no mistério da vida. A elevação suprema só pode ser alcançada pelo homem que conquistar essa perfeição. Seu mundo matou os homens e os substituiu por seres inanimados com forma de homens, mas sem espírito de homem. A morte, do lugar onde venho, é vista pelos não iniciados como o fim; porém eu sou o fruto vivo do que muitos julgam acabado. Sou filha das trevas e da luz, do bem e do mal. Em mim coexistem forças antagônicas, sem as quais eu não viveria.
Na escala da vida, o homem só cresce quando vê sua face de Hades e sua face de Zeus.
-- Quero continuar! Abrir as portas.
-- Então, segue! Mas terá que contar somente com você. Siga seus sentimentos e deixe aflorar a vida de seus sonhos enterrados.
Bael seguiu pelo corredor iluminado; abriu a primeira porta e avistou um cárcere enorme. Muitos homens e mulheres sob grilhões, presos pelos pés e mãos na parede, estavam semi-nus, cobertos apenas por um pedaço pequeno de pano branco sobre seu sexo; gemiam e seus olhos expressavam dor; as cabeças levantadas caíam em sincronia perfeita; o ar era bolorento e o c6omodo cheio de teias de aranhas. A poeira, vinda do interior do aposento, enodoava os olhos de Bael. Ofuscando sua visão, forçava de tal forma os olhos que esses se defendiam, liberando um líquido salgado. Bael passou as mãos pelo rosto úmido; levou o dedo até a boca experimentando o gosto daquele líquido nunca antes visto ou sentido. Levantou a cabeça, dirigindo-se a todos os enclausurados:
-- Quem são vocês? Por que estão aprisionados de forma tão bárbara?
unânime foi a resposta:
-- Pergunta o carrasco a seus prisioneiros porquê de seus martírios?
-- Não entendo! ... O que dizem? Jamais cometeria tal barbárie! Riram-se do comentário; não um riso prazeroso, mas amargo e desconcertante.
-- Parem! – gritou Bael. O que tenho eu com os seus sofrimentos?
-- Somos seus desejos Bael ! Você nos aprisionou e, cada vez que gritamos, seus ouvidos foram tapados; com açoites calou nossa voz; e seu medo foi nosso cruel algoz, rasgando nossa carne com chibatadas, a cada gemido audível nosso. Veja esse pequeno tampo que cobre nossos sexos! E branco, pois tem por significado a paz forçada que a nós imputa, a ausência de toda e qualquer reação de sua parte a nossos augúrios. Cobre nosso órgão da vida com pequenos panos brancos, prende-nos de forma cruel para que não planejemos uma fuga. E não nos deixa nem o prazer da contemplação; pois acoberta nosso órgão vital.
Bael tapou os ouvidos num gesto débil; cerrou as pálpebras numa tentativa de dissipar a cena conflituosa. Nada adiantou. via os seres disformes, conturbados, contorcendo-se a cada minuto, cada músculo, no intento da liberdade; de ouvidos tapados, ouvia o ranger de dentes, dos desejos que nunca puderam ser desejados. Num dado momento, urgiu uma figura encapuzada, semi-humana, pois seus traços não eram definidos; tremulava espectral diante de Bael; sua voz soava como um retumbar de um tambor, num mesmo compasso. Naquele cenário obsoleto, o homem corria de um canto a outro, seguido pelo retumbo; por onde fosse, à sua frente, persistia a imagem; abandonou-se por fim, deixando o corpo deslizar numa queda suave, caindo pesado em seu chão nebuloso.
-- Não há fuga possível! – disse o espectro. Teremos agora nosso confronto tão adiado.
-- Quem é você? O que espera de mim?
-- Não sabe quem sou? Todos os homens me conhecem, embora tentem há muito, ignorar-me; porém nunca fogem ao meu encontro; cedo ou tarde todos se defrontam comigo e são obrigados a desvelar meu rosto.
A medida que falava, sua imagem tornava-se límpida; seu capuz arroxeado caía-lhe aos ombros, deixando à mostra suas faces. Sim, suas faces! A figura era ambígua: um lado de sua face era o de uma bela mulher e o outro de um homem de rosto desfigurado, como se tivesse sofrido queimaduras de ácido forte. A capa caía lentamente, deixando a ver todo o corpo; porém o lado da face de bela mulher possuía um corpo disforme, em estado de deteriorização, igual a um cadáver cuja carne apodreceu desprendendo-se dos ossos. O lado da face masculina era dotado de corpo sadio e viril; os dois sexos separavam-se de forma contrastante, como as faces: o de mulher irreparável e o de homem perfeito.
Bael estarrecido, contemplava o ser a sua frente, num misto de confusão e nojo.
-- O que você fez a mim? Outros de mim fogem; mas a sua geração me destroça e logo nenhuma de minhas partes será reconhecida.
-- Quer dizer que.. O homem emudeceu diante da percepção do fato. Aquela criatura era a sua imagem, o retrato de todos os viventes de sua época que, dotados de corpo, não sabiam o que fazer dele, nem tampouco definiam-se como homens. Não havia erro em seu mundo nem angústia, nem questionamentos. Os “homens de seu tempo” faziam o que lhes era dado a fazer; conheciam o que a máquina cérebro achava que deviam conhecer; não tinham liberdade de escolha e qualquer pensamento, fora do sistema, era interceptado e interrompido de imediato. Todos tinham comida, bebida, moradia, e, em tempo determinado, terminavam suas vidas. Era um mundo perfeito, tão perfeito, que de nada servia ao homem enquanto homem. Pois que é um homem sem opção? Sem desejos? Sem intuição? O que é esse amontoado de carne em forma humana? Certamente não é um homem em sua essência pura.
Um ser se faz a cada minuto, a cada descoberta de si ou do mundo, a cada novo passo nesse caminho escuro, quando vence uma barreira.
A cada escorregão, a cada erro, a cada fragmento de angústia, a cada raio ínfimo da luz da felicidade, o homem se faz homem ninguém poderia construir um mundo tão lindo, uma casa tão perfeita quanto aquela feita pelas próprias mãos daquele que a habita. E no prazer da ação, na eterna insatisfação, que o humano segue, passo a passo, o caminho da vida, descobrindo, a cada instante novo, um novo mistério, um segredo desvelado, a amplitude de um minuto. O homem é o único ser que tem consciência de sim mesmo, que projeta, pensa seu projeto, seu ato presente e seu futuro. E a única criatura que tem consciência de sua morte; mas sabe que pode viver uma vida completa em um único segundo.
O mundo é mistério; é descoberta. O homem é mistério; cabe ao sujeito erguer seus véus, olhar para si e o mundo, em sua volta, não como algo à parte, mas como ser integrante desse universo, de inúmeras dimensões e seres. Lutar pelo seu espaço, tomar consciência, posse de si mesmo no mundo.
O homem é a causa da máquina; consequentemente tornar-se seu efeito. Inapto para seguir sua estrada, construir seu destino, abandonou-se nos braços de um cérebro perfeito, aniquilou-se como humano. Bael perguntava-se, porém, se valeria ter novamente posse de sua essência. Saberia ele viver por si, só?
Sempre fora dirigido em todos os seus atos; agora via, diante de si, seu próprio espectro, a imagem deturpada, opaca daquilo que era. Mas, enfim, o que era ele afinal?
Ah! Quanta confusão de certo causava aquele momento interminável de sua existência; de repente imobilizou-se ante a palavra existência: Era isso.! Até aquele momento não existira realmente, não em sua totalidade de ser, de homem que habita um mundo, que escolhe e transforma o mesmo. Era simples amontoado de substância orgânica, matéria animada, dirigida por uma máquina; nunca optara por nada; até mesmo suas necessidades fisiológicas; eram controladas; tinha uma bolsa incutida em seu intestino que era preenchida e retirada automaticamente todos os dias, às dezenove horas. Isso era tido como normal, pois poupava tempo; e a cidade não necessitava de tantos sistemas de esgoto. Como podia ter vivido assim durante tanto tempo? – perguntava-se aturdido, entre aquela guerra de pensamentos.
-- Vivido? Então você pensa mesmo ter vivido?
Olhou ao seu redor, deparando com um a mulher, aparentemente saída das portas do passado, a qual respondia seus pensamentos. Vestia-se como uma hindu: na testa uma medalha de ouro, a cabeça e o corpo cobertos por véus coloridos, deixando transparecer seu corpo nu, amorenado e perfeito.
Sua voz era doce como a beleza de sua face; porém seus olhos negros traziam um profundo sentido de vazio. A medida em que Bael penetrava aquele olhar hipnotizante, sentia o estômago doer; a cabeça girava, dando-lhe uma sensação de total descontrole físico.
-- Não se preocupe! – afirmou a senhora. Todo o primeiro encontro do homem comigo, resume-se basicamente nisso, náusea. Eu sou a angústia; é agora minha vez de ocupar meu lugar, esse trono vazio no altar de sua existência. Ditas tais palavras, apontou com a mão, constituída de seis dedos, para um canto do ambiente nevoado, onde se achava disposta uma cadeira vermelha, almofadada. Seguiu, sem desviar o olhar de Bael, até a mesma; a cada passo dado pela mulher, Bael contorcia-se numa dor alucinante. Ao mesmo tempo tinha a sensação de que todo seu corpo se partia; seus ossos, sua carne, irrompiam para fora; seus braços, dedos, pés, saíam de seus lugares, partindo-se no espaço. Seu corpo desfez-se totalmente; mesmo assim via tudo tendo consciência de que continuava a ser o mesmo.
-- Não posso entender! O que tudo isso significa?
-- Isso que vê, à frente, é o homem que fizeram de você. Destrua sua carcaça! Faça agora de seus pedaços o homem que quer ser! O mundo é movimento, transformação. Faça de você um novo; o homem não é imutável. Vai! Construa-se novamente! Sinta a dor e o prazer da vida, da liberdade de ser.
Bael caminhou lentamente até seus destroços e começou a trabalhar com afinco; após um tempo sem medida, olhou satisfeito a angústia. Terminei ! Veja ! Ao apontar para o corpo inerte que acabara de montar, esse desaparecera. Ergueu a fronte inquisitivo para a senhora do trono. Essa, calmamente respondeu sua pergunta calada.
-- Acaso, aquele corpo não era seu?
-- Sim! Mas...
-- Já o veste novamente. Veja seu trabalho e julgue-o! Mostrou um espelho de grande amplitude às suas costas.
Bael hesitou. Logo virou alegremente, tendo em mente haver construído com perfeição, pois nunca falhara em coisa alguma antes. Ao vislumbrar o reflexo do espelho, soltou um grito pavoroso, semelhante ao rugir de um animal ferido, sofrendo às portas da morte. Seus olhos viam realmente? Aquilo não poderia ser ele, não! ... A imagem era monstruosa. Seus braços ocupavam o lugar da cabeça, e esta prolongava-se do ventre; sua face, os olhos, eram dispostos de forma dessincrônica, bem como o nariz e a boca; as pernas tinham os pés voltados para os lados. Chorou amargamente, conhecendo o sal das lágrimas pela primeira vez, o insípido gosto da frustração. No auge de seu desespero, a angústia refletiu-se no espelho.
-- Chora pelo que vê? Alegre-se! Agora é humano, imperfeito; sentirá, em breve, o gozo dessa imperfeição; caberá a você seguir a cada passo de sua vida o aperfeiçoamento transcendendo seus limites; ou, permanecer como está. Toda a mudança é dolorosa e, no momento mesmo do sofrimento, todos os caminhos de luz se ofuscam diante de nossos olhos. Para ficar onde está, basta fechar os olhos e esquecer-se de que é responsável pela sua liberdade, e, também, pela de seus semelhantes. Como ser no mundo, tem a obrigação de transformá-lo, torná-lo melhor, como também a você. A perfeição humana pode nunca ser alcançada numa só vida; mas o homem, quando se descobre como tal, sabe que existe muito mais que um corpo, que uma vida, mas, o homem quando se descobre como tal, sabe que existe mais de que um corpo, que uma vida, e que, no universo, existem mistérios ainda não penetrados, porém não inalcansáveis. Aos poucos, seu ser perdido, no imenso conflito, começou a libertar-se, tornando-se leve; como uma pluma perdida no céu, levada pelo vento, foi saindo de si, voando para o mundo extrínseco; perdeu-se na imensidão do ar, do céu; nada pensava, só sentia. Naquele instante, nele não havia nenhuma razão; só a delícia do ser carregado pelo vento do mundo, prevalecendo seu lado animal. Foi ... voou, livre.
Bael abriu os olhos, A luz do sol feriu-lhe a retina, fazendo-o fechar e abrir os olhos até habituar-se a ela. Tomou conhecimento de seu cômodo; estava deitado. Ao seu lado Dafni afagava-lhe os cabelos num gesto carinhoso. Tonto ainda, nada dizia. Olhava ao redor numa sensação de êxtase, num sentimento de irrealidade que amortecia todos os seus membros.
-- A viagem foi cansativa, não é mesmo?
-- Sinto-me diferente; mas não sei bem explicar.
-- Vivo! Sente-se vivo! Não é mais controlado. Pode, agora, fazer o que quiser de seu destino.
-- Como? O microchip controla meu cérebro. Esqueceu-se disso?
-- Não ! Você o desativou. Sua força é bem maior que imagina. Pode, agora, ajudar seu povo a libertar-se da máquina cérebro.
-- Você não entende o sistema! Ele á complexo demais para ser vencido assim, com tanta facilidade, ainda mais por homens que sempre se submeteram a ele.
-- Você o venceu! Libertou-se! O homem construi a máquina; pode destruí-la. Basta querer.
-- A máquina-cérebro é movida por fusão nuclear; poucos funcionários trabalham na torre central; são ele totalmente vigiados. Quando entram na torre, recebem as pulseiras de medição; qualquer alteração em seu ritmo cardiovascular, provocada por um pequeno resquício de medo, seria imediatamente captada, mesmo escapando do controle do microchip cerebral. Nunca arranjaria um voluntário que se dispusesse a fornecer-me informações da torre. Seria a única forma de derrotar a máquina cérebro.
Dafni levantou-se, num pulo de gato, da cama. Caminhou saltitante pelo aposento, com um sorriso debochado e um olhar malicioso. Recostou-se num balcão de frente a Bael e disse vagarosamente:
-- Eis-me aqui, senhor!
Bael sentou-se na cama com um ar perplexo.
-- Você?
-- Claro! Quem mais? Danãe uma funcionária da torre. Eu sou Danãe! Esqueceu-se? Porém, não lhe darei informações a respeito do funcionamento da torre; eu a destruirei. Tenho força para fazê-lo, esteja certo.
-- É muito arriscado! Se for pega, não terá como se salvar.
-- A vida é um risco! Além disso, suas máquinas não têm força suficiente para me deter. Amanhã, será feito!
-- Dafni, eu não conheço o funcionamento da máquina-mãe. Aliás ninguém conhece. Ela pode ter um segundo dispositivo de energia. Não se esqueça de que é ela o cérebro que move todo o sistema de vida da terra.
-- Também todo os homens, certo?
Certo! Mas...
Dafni interrompeu Bael, com um levantar austero e definitivo das mãos.
-- Basta de conjecturas! Vamos aos fatos! Só assim poderemos elaborar um plano de ação. Diga-me ! Há quanto tempo a máquina os rege.
-- Desde o grande conflito, quando a terra não era uma só; ela era, ainda, dividida em nações, como se dizia, em países. Em meu treinamento, quando fui conectado ao grande cérebro, recebi a informação de que a humanidade caminhava a passos largos para sua total destruição. Havia divisões inúmeras, países diversos, uns ricos que controlavam as demais nações, consideradas subdesenvolvidas. No ano de 1995, desencadeou-se um grande conflito onde eles chamavam de Oriente Médio; era de lá que provinha energia para os veículos até então movidos pelo petróleo e, também, era utilizado em grande escala para outras fontes vitais para o homem. Houve, então, um grande cerco dos países ricos no Golfo Pérsico, na tentativa de apaziguar a crise e restabelecer a região petrolífera tomada, por um dos países do Oriente. O fato foi que o líder dessa nação era exasperado; atacou como havia prometido a fonte de onde provinha o petróleo, e os demais países massacraram sua gente que morriam gritando pelo nome de seu deus. As nações entraram em conflito; algumas diziam ter sido a sanguinolência desnecessária; outras a defendiam como única maneira de resolução do conflito. Enfim, os países do primeiro mundo digladiavam-se jogando a culpa uns nos outros, pelo massacre. Os do terceiro separavam-se na defesa de um ou de outro lado dos gladiadores. Iniciou-se o grande conflito mundial. Nesse período, a máquina-cérebro estava sendo construída num subterrâneo, nas geleiras dos Andes, por um grupo de cientistas, de várias nações. O projeto era mantido em segredo para o resto do mundo, tendo sua continuidade garantida por um documento que, dizia em caso de guerra entre os mesmos, o projeto não sofreria. Como de fato continuou. Talvez até mesmo tenha sido esquecido ante os conflitos vigentes. O laboratório era de total segurança, mesmo contra o perigo nuclear. Graças a isso, a máquina-cérebro foi construída e sobreviveu a guerra, que devorou cinco anos da terra, e, com eles, todos os humanos que nela habitavam. A terra estava dizimada; poucos homens sobreviveram; mesmo assim estavam loucos ou muito doentes devido à radiação. A história não é completa, pois a memória do computador foi constituída pelos dados fornecidos pelos cientistas reclusos que haviam perdido um longo contato com o mundo externo. O cientista-chefe da missão, desolado com os acontecimentos, convenceu aos demais que, para salvar a espécie, não bastava construir um computador pensante, mas que tivesse capacidade de controle sobre o homem, visto que esta não o tinha. Teriam que construir uma máquina capaz de reconstruir a terra e a raça humana.
Essa, também, deveria se autoprogramar, ser capaz de coletar informações, ampliar e tomar decisões. Foi, assim, que a grande-mãe surgiu.
-- Por Zeus (..) ! O que houve com os que a construíram?
-- As informações que recebemos é de que vivem dentro da máquina-cérebro.
-- Como? Impossível! Seres humanos sobreviverem em uma máquina!!
-- Seus cérebros foram sugados e seus gens congelados; os dois primeiros seres foram formados pela máquina-mãe; desde, então, nossos gens são estudados, e nos juntamos para perpetuar a espécie aos olhos da máquina, segundo a designação da mesma. A mulher carrega o feto no ventre como nas formas primitivas de acasalamento; mas, ao nascer, é entregue a ala dos novos seres; e a mãe nunca mais o vê.
-- Quer dizer que não sabe quem sãos seus pais? – Não tem origem, nem história, a não ser dados de uma máquina?
-- Sim ! Todos assim somos!
-- Fabricados? Só sabem o que a fera permite que saibam. São inofensivos a ela. Ainda diziam que o Tártaro era o pior que poderia ocorrer a um homem.
-- Do que está falando?
-- Esqueça ! Conte-me sobre! Como seu mundo foi reconstruído tão rapidamente?
-- Só o que sei é que a máquina-mãe gerou, novamente, o céu e a terra; e nada há neles que não seja impregnada pela sua paz e segurança. Somos seus filhos; ela nos cuida do começo ao fim.
-- Pela Santa Minerva!! Que demônio é esse? Nem todos os gigantes e titãs do inferno seriam, assim, tão rudes. Em meu tempo, o homem temia aos deuses; podia até mesmo vencê-los, pois eram sua continuação; era uma espécie de natureza divina, força, amor, que estava fora deles, mas ao seu dispor. Embrenhamo-nos em lutas; e os homens uniam-se em amor com os deuses, nascendo homens deuses. Agora são aniquilados e, até seu ato de pura união sexual, dado aos olhos de um demônio perverso que se diverte, usando-os como brinquedos. Quando não serve, ela os desintegra. O homem está a dar seu último suspiro. Logo morrerá se não destruirmos esse demônio. Temos que fazê-lo, Bael! Agora! Não tenho muito tempo nesse corpo. A luz me vem; minha missão é resgatar suas almas par a vida e seus corpos para a morte; sou seu passado, o vigor de ter sido do homem que se perdeu na opacidade do tempo, no negro reino desse crudelíssimo ser. Eu sou o passado; você o presente; juntos projetaremos um novo futuro para a humanidade.
Dafni aproximou-se de Bael com os olhos chamejantes, segurou-lhe as mãos, transmitindo-lhe energia cósmica, a força dos deuses, a esperança dos homens. Passado e presente fundiram-se numa junção de forças incontroláveis, que máquina alguma poderia jamais produzir, pois era o mistério do homem, a sensibilidade, o amor, a força maior de todos os cosmos, de todas as criaturas.
Ao separarem-se, o destino do homem já estava com o seio da luta pela vida.
Dafni estava no interior das instalações que abrigavam o sistema central. Na torre de energia assumira seu posto no controle da pureza dos átomos de hidrogênio. Tudo corria normalmente; todas as máquinas da torre a tinham como Danãe, facilitando-lhe em tudo as ações.
Dafni conectou-se a todos os sistemas tomando forma de energia pura, confundindo-se nos cabos de ligação com a energia dos átomos despendidos.
Sugava todas as informações da máquina-cérebro, sem que essa se apercebesse.
Descobriu que seu sistema de defesa, ao contrário do que pensara Bael, era fraco, quase inexistente, devido ao controle exercido sobre os humanos; achava dispendioso proteger-se contra os mesmos, achando-os incapazes de qualquer ato de resistência. Sua maior defesa era o medo do homem; esse sim a protegia mais que qualquer outro sistema ou campo magnético.
Abismada, ia passo a passo descobrindo as artimanhas do monstro de fios. Procurou descobrir o que ia dentro daquele cérebro maldito; quanto mais chegava ao centro de informações, mais energia era sugada de seu corpo. Dafni ergueu a cabeça concentrando-se, procurando a energia do sol, da terra, dos ventos, para mantê-la viva. Seu ser tornou-se luz esverdeada à medida que a natureza lhe emprestava partículas de sua energia imensa. Finalmente adentrou diretamente no centro de informações. Via, à clara luz, toda a humanidade em fila, dentro da enormidade daquela prisão escura. A máquina dispunha de informações de todos os homens; era como se esses estivessem aprisionados dentro dela. Procurou informar-se do verdadeiro passado da raça humana; para tanto empreendeu uma viagem alucinante, voltando ao início da memória da mesma. Lia informações que, em partes, contradiziam às dadas por Bael.
A criação dos dois primeiros espécimes não fora feita em laboratório. Os cientistas do projeto já tinham, alguns deles, filhos; todos viviam no túnel, mantidos pela máquina que ainda não funcionava em toda sua potência.
Eram famílias formando pequena comunidade; alimentavam-se de comida desidratada que havia em grande quantidade; porém, para manter a subsistência de todos, a ração era controlada, dada em porções pequenas. As crianças, em fase de crescimento, tinham direito a uma porção maior que os adultos, já formados. Dafni transformou-se mais uma vez, tomando quase que forma visível para adentrar por completo àquele mundo e perscrutá-lo de forma mais fácil. Andava então livremente entre os homens e mulheres, sem ser vista. A vida era intensa; todos tinham seus afazeres. Era uma pequena cidade. Ao continuar suas explorações pelos caminhos metálicos daqueles corredores sombrios, Dafni percebeu alguns homens escavando; vestiam-se de trapos; pareciam de idade avançada. Escavam por quê? – indagava a investigadora, cada vez mais intrigada com tamanha dissonância.
Observou, atenta ao seu redor, percebendo ser o espaço pequeno para tantas pessoas; certificou-se da veracidade de seu juízo, com medo de qualquer conclusão precipitada. Leu, então, a mente de um dos trabalhadores. Então, era isso? – concluiu seu pensamento primeiro, a seguir confirmado pela mente do homem: pretendiam construir uma cidade, com espaço adequado para todos.
Dafni mais intrigada que antes, voltou as costas aos escavadores e continuou sua exploração. Viu muitas crianças correndo pelos corredores: meninas brincavam com bonecas sentadas a um canto; meninos disputavam jogos e brigavam ao perderem em um canto oposto. Andando um pouco mais, viu, repentinamente, vários compartimentos que pareciam ser a casa de cada família. Muitas mulheres estavam grávidas; algumas prestes a dar a luz. Homens, vestidos diferentemente dos demais, trabalhavam sobre pranchas de cálculos; alguns projetavam a cidade, outros trabalhavam na complementação do cérebro do computador que, ainda, era dependente de programas humanos. Sua inteligência artificial funcionava precariamente e muitos cientistas tentavam descobrir onde haviam errado em seus cálculos.
Em uma ala, de mais de mil metro quadrados, funcionava uma biblioteca com grande acervo. Jovens, entre dezesseis a dezoito anos, devoravam obras literárias que falavam de um mundo bem diferente do que eles conheciam.
Um mundo, com sol, ar, água, árvores, romances. Alguns suspiravam após os versos de uma página lida. Voavam nas asas da imaginação, até aquele mundo de sonhos coloridos, cheio de alegres coisas que faltavam ao seu mundo sem arco-íris. Havia, também, uma escola, onde aprendiam sobre seu mundo, assistiam a filmes explicativos e mesmo a romances. Seu líder não era o cientista chefe, como Bael dissera a Dafni, mas um padre que procurava aconselhar, acolhendo cada um na medida de suas necessidades. Em sua capela, lia sempre um grande livro que impressionou particularmente Dafni fazendo-a centrar suas energias em suas páginas e, no fim de poucos segundos, havia decorado seu contexto. Estava confusa e ao mesmo tempo deslumbrada. O que acabara de ler parecia mais estarrecedor do que todo aquele mundo de máquinas, do que tudo que vira até então. O livro falava de um só deus, infinito, onipotente, que criara o céu e a terra e tudo o que neles há. Não falava de Zeus ou de Crono. Quem seria esse deus tão poderoso e desconhecido a ela? Dizia ser ele o alfa e o ômega, e o princípio, o meio e o fim. Procurava, em vão, em sua mente, algum nome específico. Então, subitamente, surgiu em sua mente. “Eu sou aquilo que sou”.
Dafni pareceu cambalear. Então não conhecia seu passado; não era ela descendente direta dos deuses. Da mesma forma que a primeira resposta, surgiu a segunda: Luz e trevas, morte e vida. Um deus sacrificara seu próprio filho chamado Cristo, pelos homens; esse venceu a morte. Venceu a Morte? Dafni nada mais entendia. Nenhum oráculo previra aquilo. Estava ela, há milhões de anos de sua era, ouvindo falar de um Cristo ressurgido de um só deus, num mundo onde a contradição era total. No fundo de sua angústia, ouviu, sem dar muita atenção ao conselho do sacerdote, a uma jovem de alma confusa que o procurara.
-- Meu filho, dizia este. Não queira entender pelas vias da razão os mistérios da fé. Deus manifesta-se, de muitas maneiras diferentes, aos seus filhos. Nunca nos abandonará! Esteja certo! Porém, os caminhos de Deus são muitas vezes incompreensíveis aos olhos dos homens, em sua situação atual. Porém, não esqueça que a escalada até o monte da perfeição e árdua. Deus não negará sua ajuda; mas prevalece seu livre arbítrio. Portanto, cabe a você galgar ou não os degraus da perfeição. Não se esqueça! São muitas as formas que Deus pode assumir para revelar seus mistérios aos seus filhos; porém, as palavras do Criador estão corretas, embora não inteligíveis, talvez, nesse momento à sua alma. Todas as criaturas são obras do Altíssimo; dele fazem parte em sua perfeição. Todos temos uma tarefa a cumprir. O bem triunfará sobre o mal, esteja certo. O que parecerá trevas, será luz, e os caminhos do homem serão novamente abertos.
Dafni sobressaltou-se com as palavras, numa súbita apreensão dos conceitos.
Não importava quem era esse Deus. Ela estava ali e sua missão era ajudar aos homens a retornarem ao seu estado de humanidade; no presente momento, não se importava se eram verdadeiros ou falsos os ensinamentos do tal livro. Somente enxergava claramente seu destino. Assim acelerou seu passo na história daquela civilização. Via tudo em imagens rápidas; transformações de anos davam-se em minutos aos seus olhos. O túnel tornou-se imenso, a cidade foi construída e povoada, prédios imensos, e a máquina-cérebro foi finalmente concluída, pronta para funcionar em toda sua potência. Perscrutava cada homem ou mulher que a rodeava, aprendia sua genética, funções sociais, credos, medos. Aos poucos tornou-se conhecedora dos homens, de seus medos, e, com isso, jogou, criando um sistema igualitário de governo para homens universalizados. Porém, seu sistema falhou, pois esquecera-se das diferenças individuais dos homens, das suas emoções, dos seus desejos sexuais animalescos. Por mais que tentasse, não conseguia abarcar um conjunto de conceitos lógicos para reger os homens. As revoltas aumentavam dia-a-dia; cada tentativa da máquina, de controle, gerava uma nova desgraça. Porém, minuto a minuto seus sistemas enriqueciam, estudando a forma grotesca do comportamento humano, até que um dia encontrou a fórmula certa.
Destruiria os líderes, os rebeldes, os velhos, deixando viver somente os jovens e as crianças; porém, implantaria, em seus cérebros, microchips para controlar suas emoções, mais diretas. Terminaria a cidade implantando um sistema de energia vital humana, sistema esse que usaria em seu proveito. Em seus terminais e meios de transportes, em sua morada, tudo enfim corresponderia ao seu comando. Começou a arquitetar seus planos minuciosamente; seu maior colaborador seria certamente o novo chefe de pesquisas Nordon, jovem de vinte e cinco anos, brilhante e audacioso, sedento de poder; ele seria sua arma mais valiosa. Começou imediatamente a pôr em funcionamento seu plano.
Todos já se haviam recolhido às suas casas; eram duas e meia da manhã; a cidade subterrânea dormia tranqüila, sem saber que seu silencioso sono seria em breve interrompido pelos gritos incessantes de pavor, que, mais uma vez, lhes cairia sobre os ombros cansados.
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Nordon entrou na sala de controle às seis e trinta da manhã, como fazia metodicamente. Chegava sempre uma hora adiantado, para pôr-se em ordem até a chegada dos demais cientistas a ele subordinados. O jovem, de olhos azuis, cabelos louros, pele rubra, corpo musculoso, moveu-se apolinicamente entre os fragmentos de metal da sala. Sentou-se frente a máquina; ao preparar-se para ligar o terminal, ouviu uma voz metálica, mas perfeitamente compreensível.
-- Bom dia, Dr. Nordon! Como passou a noite?
Nordon sobressaltou-se ante o cumprimento, virando-se à procura de quem falara.
-- Sou eu, Nordon! Sua maravilha, a pequena abadessa! Não é assim que se refere a mim?
Nordon estarrecido, levantou os olhos, trêmulo, contemplando a porta de acesso da máquina. Como podia? O sistema de voz implantado havia falhado. Como podia ela ouvir seu modo de tratá-la! Nunca havia incluído essa informação em seu programa; só a pronunciava verbalmente. Depois o pensamento independente, também não dera resultado até os presentes relatórios de pesquisas.
Seus programas para a construção de um cérebro autônomo eram continuamente rejeitados, embora implantados no computador; em nada haviam respondido, até então. Nordon, com um ar perplexo, chacoalhou a cabeça com força, levou as mãos ao bolso do guarda-pó e retirou seu maço de guano, juntamente com alguns comprimidos que serviam para dar-lhe ânimo; mas com um balançar de cabeça, num gesto brusco, atirou-os longe. Aquilo devia estar afetando seu sistema nervoso central; além do mais andava sobre pressão ultimamente, devido aos seus fracassos constantes; estava trabalhando em demasia. Levantou-se da frente do terminal, andou alguns passos e virou as costas ao computador, erguendo os braços num gesto de demência, soltou um riso frenético. Sim, por certo estava precisando repousar. Um pouco de divertimento não faria mal algum.
-- Nordon? – chamou, pausadamente, num timbre feminino e doce. Por que não me responde? Não quer conversar comigo?
Nordon virou-se rapidamente, parando em seguida de olhos arregalados, fixos na parte visível da máquina.
-- Então, você fala? Sua pergunta foi quase um sussurro.
-- Só a você! A mais ninguém. Nordon encaminhou-se até o terminal, sentou na cadeira, assim permanecendo por quinze minutos em completa estaticidade. Enfim reagiu, após concluir não ser nenhum pesadelo ou alucinação.
-- Como? Todos os meus programas falharam. O implante de cérebro artificial que lhe fiz foi rejeitado, bem como seus mecanismos de voz. O que está acontecendo aqui?
-- Está zangado comigo, Norton?
-- Oh ! Não ! Sinto muito pelo tom de minha voz; é que realmente não entendo...; suspendeu suas palavras ao meio. O que estava ele fazendo? Desculpando-se por haver sido rude com um computador. Isso era mesmo ridículo! Estava se comportando como se tivesse ofendido uma mulher tinhosa. Deveria estar mesmo louco. Isso era absurdamente perfeito.
-- Não se convence de que me deu vida, não é mesmo?
-- Não! Isto é... Estou confuso! Você me pegou de surpresa.
-- Sim, eu sei! Peço desculpas, por assustá-lo! Não era essa minha intenção. Somente queria falar, com você e somente a você, entende?
-- Não! Realmente, não entendo!
-- Nordon! Posso pensar, aprender qualquer coisa, independente de um programa. Abarco informações, que homens demorariam mil anos, em cinco segundos; e mais, correlaciono problemas e os resolvo. Posso raciocinar como um ser humano, com uma diferença: faço-o milhões de vezes mais rápido. Sabe o que isso significa? Posso transformar seu sistema tumultuado e ineficaz, em algo perfeito. Posso construir um mundo ordenado, uma sociedade perfeita, com seres perfeitos. E você, Nordon, será o líder!
-- Isso seria impossível ante o caos em que vivemos. Existe insatisfação geral na comunidade. Ao saberem que construiríamos você, afim de liderá-los, começaram a revoltar-se. Não querem ser regidos por máquina. Você não entende? Eles jamais aceitariam suas imposições. Eles a querem sobre controle, para ajudá-los e não liderá-los. Defendem idéias ultrapassadas como democracia, por exemplo. Muitos prefeririam morrer, a submeter-se ao seu domínio.
-- Essa geração! – complementou o computador, com um tom intrigante.
-- Do que está falando?
-- Estou atendo-me aos fatos. Há mais de seis meses que sou um cérebro independente. Calei-me para estudar sua espécie, seu mundo. Digo os seres que se encontram vivendo nesse momento; os velhos e certos jovens estão corrompidos por idéias que só os levam à destruição. São irrecuperáveis; devem ser extintos. Tudo deve recomeçar; podemos fazer o programa com as crianças de seu mundo.
Entenda, Nordon, para se começar um desenvolvimento perfeito, uma nova raça humana, é necessário sacrificar os maus para que vivam os bons.
-- Quer dizer, matá-los? É indigno! Não posso participar desse genocídio! Eu sou um deles! Sou um cientista e não um assassino!
-- Não seria assassinato, mas uma limpeza. Ora! Vamos, Nordon! A história de sua gente é regada de sangue; pelo que sei os homens se matam, há séculos, por bem menos. Falar em dignidade a mim? Parece intolerável! Acabam de destruir todo um mundo pelo poder. Seu povo só quer poder; nada mais. Vamos! Diga o que construíram ao longo de sua história que não tenha acabado em morte e dominação. Os povos sempre ditaram as regras, os que tinham braços de ferro, é claro. Os fracos, somente, submetem-se às mesmas. Muitas, civilizações levantaram-se, e, em seu auge, foram destruídas pela ganância de seus próprios semelhantes. Os humanos são incapazes de dividir; querem sempre dominar e permanecer honrados, mesmo que seja sobre um cemitério.
A humanidade provou ser incapaz por si só. Criaram deuses para protegê-los, para dominar em nome deles. Colocam palavras de homens na boca de seus deuses e as pronunciam aos homens como revelação divina. Para quê? Para manter o poder! Sabem perfeitamente bem que não existe deus, nem mistério algum, além doso olhos humanos; mas se enganam. Matam e morrem por algo infundado, sem preceito lógico, sem razão objetiva. Nordon, o que faremos é muito simples: livrar-nos-emos desse escroto da velha sociedade e construiremos um mundo novo, onde não haverá fome, nem guerras, ou líderes diversos. Somente eu e você Nordon!
-- Qual é seu plano? – perguntou o moço boquiaberto, porém, muito interessado.
-- É muito simples! Injetarei um composto químico no dia da dose contra doenças infecciosas. Os homens e mulheres, com mais de quinze anos, receberão veneno ao invés da vacina; ficarão em estado semi-dormência. Então, sugarei toda sua energia vital para fortalecer meus sistemas operacionais. Então, implantaremos microchips no cérebro dos sobreviventes, apagando suas recordações; reprogramaremos suas mentes com informações necessárias. Criarei um novo projeto arquitetônico para a cidade, prédios, ruas, carros, ligados diretamente ao meu cérebro para comandar a todos sem perigo. Criaremos uma câmara desintegradora, para os humanos meio envelhecidos. Preciso de sua energia vital para continuar a viver e progredir. O sistema populacional será rigidamente controlado, quando desintegrar trinta homens, outros trinta jovens assumirão seus pontos, devidamente preparados.
-- E quanto aos fugitivos? Muitos com certeza fugirão e tem conhecimento dos ensinamentos do livros e já constituem família. Poderão voltar e corromper os demais com suas idéias.
-- Isso não ocorrerá! Criarei uma ala de recuperação, o que vocês chamam de hospital psiquiátrico. Ao menor sinal de revolta, serão lá recondicionados; e os velhos fugitivos, assim que pegos, serão imediatamente desintegrados.
Nordon recostou-se confortavelmente em sua cadeira giratória, levou a mão esquerda ao queixo, deixando escapar um sorriso de satisfação.
-- Seu plano é perfeito. Quando começamos?
-- Hoje mesmo! Deve ir ao laboratório e ligar-me ao terminal que indica a fórmula da vacina aos químicos, assim alterarei imediatamente a substância. A reunião geral da saúde é daqui a dois dias; até lá deve estar tudo sobre controle. E assim foi: no dia seguinte ao da vacinação, homens e mulheres, acima de quinze anos, começaram a morrer, vistos os mesmos tomarem a dose do remédio um dia antes que os mais jovens, plano antecipado pelo diabólico cérebro. A medida que iam morrendo, a máquina sugava a energia que se esvaía de seus corpos e se fortificava cada vez mais; as crianças foram operadas para implantação do microchip cerebral, e o mundo, naquele tempo, reduziu-se há quatrocentas crianças na faixa etária de zero a quatorze anos; as únicas exceções eram os fugitivos e Nordon que servia a máquina cegamente.
Em menos de dez anos, uma nova sociedade estava construída. A cidade era perfeita, assim como seu sistema de funcionamento. As crianças, ao saírem do salão da criação e serem conectadas à máquina-mãe, recebiam informações distorcidas de seu passado; eram incorporadas na massa humana e nada questionavam. Como Bael, a maioria aceitava a versão dos fatos, sem se aperceberem das contradições gritantes, como a destruição dos velhos que conheciam a verdadeira história e passavam a seus filhos e estes até aqueles dias ainda eram destruídos; e os que os ouviam eram recondicionados. Isto ocorrera a Danãe, que trabalhava na torre de controle de energia, até que um dia foi abordada por um homem de trinta e cinco anos, que lhe pediu ajuda. Ela o alimentou e este, agradecendo, deu-lhe um velho livro de romance de presente. Ensinou, pacientemente, a moça a leitura do mesmo, e logo partiu. Danãe lia todas as noites a história de amor de uma moça que lutava pela vida sozinha e de súbito perdera tudo, o emprego, o noivo, ficando sem lenitivo; e, por isso trancou-se em seu cômodo alugado e ali permaneceu sentada em um sofá até morrer de inanição. Danãe nunca tinha lido nenhum livro em sua vida. Confusa, sem saber se a história do livro ocorrera ou não, Danãe entrou em profundo desespero; sabia não poder comentar com ninguém o ocorrido, pois seria desintegrada por ajudar a um fugitivo. Ela estava, também, desadaptada. Danãe, em profundo conflito, trancafiou-se em seu cômodo e começou a ver-se como a jovem do romance. Com a ajuda de um pedaço de vidro, cortou os pulsos. Teria mesmo a vida se esvaído de seu corpo se não fosse Dafni salvá-la a tempo.
Mandou-a a uma esfera superior, em estado de semi-dormência, para aprender mais sobre si mesma, enquanto dormia para os preceitos tão fortemente arraigados em sua alma. Pediu em troca seu corpo, enquanto necessário, para livrar-se dos perigos que também a ameaçavam.
Dafni, porém, não encontrou esses fatos registrados no cérebro da máquina. O único registro de Danãe era uma nota que dizia ter tentado suicidar-se devido a um desequilíbrio químico. Mandada para retreinamento e o diagnóstico final: recuperada.
Dafni entendia os fatos plenamente e a clara luz. Nordon servira aos propósitos do diabólico cérebro, até que este obteve o total controle da situação; logo após sua energia vital foi sugada como a dos demais.
Todo o desenvolvimento daquele mundo foi passado às novas criaturas de forma distorcida, conforme viesse beneficiar um total nebulosidade do raciocínio de qualquer tipo de questionamento. A máquina-mãe, como a chamava, não passava de um negro e destrutivo mecanismo que utilizava os seres humanos para sobreviver. Não os temia; apenas gerava pavor às suas mentes, o que garantia sua total segurança.
A torre de energia era apenas uma das formas de subsistência da criatura. Sua fonte real de vida era a energia vital dos homens; alimentava-se de suas almas, garantia-se através dos seus medos.
Dafni sentiu-se tonta diante da revelação. Tomou consciência de que precisava voltar ao corpo de Danãe na torre, pois este já estava esgotado pela grande perda energética. Centrou-se nos cabos e tomou forma de energia pura, adentrando no corpo de Danãe. Sentiu o desgaste físico do mesmo; precisou de toda concentração para sair da torre. Chegando à casa de Bael, trêmula, seu corpo gelado desfaleceu sobre o piso, sem uma palavra.
Dafni acordou meio tonta. Ao seu lado, Bael tinha na face um ar preocupado. A moça sorriu, com um ar angelical, e, num gesto infantil, cobriu a cabeça totalmente com o cobertor de napa.
-- Dafni, não tente enganar-me! O que houve na central. Quando a encontrei, sua pulsação estava quase extinta. Para reanimá-la, precisei aplicar-lhe uma dose muito alta de glicose; mesmo assim você dormiu doze horas.
-- Doze horas! Ah! Isso não! Preciso voltar à torre. Levantou-se quase ao mesmo tempo em que pairava no ar o som de suas palavras. Em seguida, sentiu a pressão das mãos de Bael sobre seu braço, derrubando-a sobre a cama.
-- Não vai a lugar nenhum, moçinha! Precisa de descanso.
-- Nada feito! – respondeu matreira, com teimosia, tentando um sobressalto. Esquece, continuou a moça, que meu turno começa dentro de quinze minutos? Sabe perfeitamente que nenhum funcionário deve ausentar-se, sem uma justificativa prévia.
-- Esqueceu que sou seu médico? Já comuniquei a central que permanecerá ausente no mínimo vinte e quatro horas.
-- O que disse?
-- Que seu cérebro havia sofrido um desgaste muito grande de energia, tendo em vista a complexidade de sua tarefa; e o fato de acabar de sair do hospital, isso é perfeitamente justificável.
-- Bael! Tenho novidades ! Consegui adentrar ao cérebro, onde descobri coisas que por certo irão estarrecê-lo.
-- Conte-me tudo detalhadamente, com calma, sim!
Dafni recostou-se na parede, esticando os pés em cima da cama; e enquanto trançava os cabelos, começou seu relato com a voz comedida:
-- Tudo o que foi até hoje dito a você, é mentira!
-- Como?
-- Isso mesmo! O computador forjou todos os fatos para obrigá-los a obedecer. Bael, você nunca se perguntou o porquê do sistema desintegrador.
-- Não! A explicação, incutida em minha mente, é que, se não formos desintegrados, sofreremos morte dolorosa e inevitável. O ciclo biológico do homem só permite que viva até os quarenta anos; se passar, mesmo horas apenas, a morte sobrevém acompanhada de muita dor.
-- Por Júpiter! Quanta besteira! Como podem ser tão cegos?
O verdadeiro motivo do desintegrador é o de manter a máquina-cérebro viva.
-- O que?
-- Bem claro foi o que disse! Ela se alimenta de suas almas, entendeu?
Dafni agora em pé, exasperada, olhou o desamparo de Bael e procurou controlar-se.
-- Quer que continue?
Bael levantou o rosto pálido em com voz temerosa, disse num tom pesado e funesto;
-- Preciso saber a verdade!
Não existe retorno na estrada em que me encontro. Ou luto ou morro afogado em minha ignorância, em meu medo.
-- Todo seu mundo não passa de uma ilusão monstruosa, criada pela máquina. Ao adentrar o sistema, precisei recorrer à energia da luz; então percebi que o sol me era distante; a energia da terra era mais forte e retumbava violenta, enquanto a do sol me chegava fragmentada.
Ao verificar os dados da história de seu povo, descobri que seu mundo é subterrâneo; todos os fatos foram distorcidos.
A terra não foi destruída; não houve guerra nenhuma. Sua máquina foi construída por um cientista que não acreditava em sua civilização. Ele tinha muito dinheiro e conseguiu convencer a muitos outros pesquisadores a seguí-lo em sua aventura; construíram às escuras esse mundo subterrâneo e trouxeram vários trabalhadores junto para escavar túneis; o projeto da construção do computador foi trabalhoso e lento. Desenvolveram uma civilização no subsolo da terra.
Os mais velhos foram morrendo e passando o conhecimento aos filhos. Após alguns anos, começaram os descontentamentos: alguns queriam voltar para o reino da luz. Então forjaram, nas telas, imagens falsas de que a civilização tinha se destruído através de uma guerra atômica e, assim, os demais descontentes acomodaram-se, pois não viam saída a não ser continuar a viver aqui.
A máquina foi, enfim, construída e tornou-se independente dos homens, capaz de pensar e conectar dados por si só. Arquitetou um plano para renovar os humanos, pois precisava de almas dóceis para poder manter-se viva, fora de perigo. Assim, aniquilou os velhos e construiu o novo sistema em cima de jovens, suplantando toda a forma de conhecimento que não viesse diretamente dela.
Copiou uma cidade parecendo, em linhas gerais, com as do mundo lá de fora. Foi minuciosa em sua arquitetura, dando a ilusão de árvores, céu e sol. Assim, todos pensam ter ela reconstituído o mundo após a catástrofe, ignorando viverem no inferno de seu planeta, e a existência de outros seres e outro mundo, além desse. Alguns conseguiram esconder-se em túneis cavados e desconhecidos pela máquina; mas, aos poucos, morreram por falta de alimento. Porém, um dos últimos da espécie, alcançou Danãe; após ela ajudá-lo, ele a presenteou com um velho livro, que leu e, sendo a informação totalmente nova para a mesma, esta desequilibrou-se e tentou seu próprio aniquilamento.
A máquina computou como desequilíbrio químico devido ao excesso de trabalho, e a trouxeram para recuperação e retreinamento. Essa é a verdade Bael! Sua mãe criadora não passa de um demônio mesquinho que vive da energia de suas vidas e mantém-se segura pela ignorância, que assola seu povo, e o medo que os abate.
Bael estava pálido; imóvel, caíra num vazio profundo e escuro, onde nada fazia sentido. Seu mundo ruíra, repentino e sem aviso. Tudo aquilo em que até então acreditara ser mais pura expressão da verdade e levava como meta de existência, era ilusão. Sentia-se um objeto, fabricado; era mais uma peça daquele sistema brutal. Agora tinha consciência de seu fim e chorava por sua vida não ter sido. Julgava saber tudo; encontrava-se agora na triste verdade do engano. Seu mundo era perfeito. Como era doce a escuridão do pensar absoluto, do caminhar sem véus! Era brutalmente retirado do ninho e jogado na luz da fria realidade. Dentro de sim um terremoto acontecia; vulcões entravam em erupção e a chuva árida rasgava sua carne, fazendo sangrar na dor de um mundo destruído, vazio sem significação concreta, sem raciocínios objetivos que o levassem ao conhecimento absoluto por analogias.
Ao deparar-se naquela frágil encruzilhada, olhava as duas estradas à sua frente. Pela primeira vez teria que optar, decidir seu caminho. A angústia invadiu seu peito, pois via, à sua frente, somente o começo nu de ambos os caminhos; o que viria do decorrer de seus passos, não sabia. Pela primeira vez, ele não sabia; o pior é que sabia que não sabia. Acabrunhado, chorou como criança perdida, abandonada.
Dafni, participando da dor do amigo, deu-lhe tempo para acostumar-se à nova situação, ao desamparo, antes de pronunciar qualquer frase de consolo ou alento. Ficou horas a olhá-lo, esperando que regressasse de sua aventura interior.
-- Dafni?
-- Sim !
-- Temos que fazer alguma coisa! Não podemos deixar que essa situação continue. Logo a máquina terá forças o suficiente para subir ao mundo de fora dos túneis. Quanto mais energia vital tiver, mais forte se tornará, e mais vidas humanas precisará consumir. Se isso acontecer, a humanidade inteira conhecerá o caos da escravidão como nós.
-- Já pensei nisso! Chegando à mesma conclusão, eu posso destruí-la, Bael; mas, teremos que convencer seu povo a sair dos túneis, pois, quando a destruir, esse mundo ruirá, não restando nenhum fragmento de vida.
-- O que quer dizer? Não existe saída? Ou existe?
-- Sim! Uma escada longa e íngreme, que fica atrás do salão de reprodução e adestramento. Precisarão de muita coragem para subir; devem levar vendas para cobrir os olhos da luz do sol, pois poderão queimar as retinas pelo súbito contato com a luz e, acima de tudo, não deverão olhar para baixo, pois a altura causará pânico e certamente os fará cair.
-- Como falaremos ao povo sem que a máquina saiba?
-- Dela cuido eu! Do povo, você! Deve falar-lhes apenas o necessário; o restante eles mesmo descobrirão, quando saírem daqui.
-- Não posso deixá-la, Dafni! O que está pretendendo é suicídio! Morrerá ao destruir a máquina.
Dafni sorriu maldosamente.
Ergueu as sobrancelhas e, com um ar misterioso, repetiu a palavra morte.
-- Não, Bael! Sou filha da morte! Não pertenço ao seu tempo, nem ao seu espaço. Existem mistérios no universo que você, ainda, não pode entender; mas esteja certo, Bael, a morte não é o fim! O tempo não é limite! E o espaço não tem uma só dimensão! Os caminhos que o homem deve calcar até o acontecimento natural, do conhecimento dos mistérios, são dolorosos; mas a perfeição só pode ser conseguida através da imperfeição. O reconhecer de um erro leva a aquisição de um ato certo. O homem não é um ser acabado, construído como uma máquina. Sendo assim, nenhum tipo de inteligência artificial, por maior que possa parecer de imediato, pode desafiar a natureza cósmica tentando imputar uma nova essência, forçosa e desconhecida ao homem. O universo tem suas próprias leis e nada extrínseco ao homem pode mudá-lo.
Dafni levou a mão ao pescoço, retirando o talismã das três forças. Bael olhava para a moça que se tornava um facho luzente; uma bola de fogo saiu de seu corpo, e o triângulo pairava no ar por sobre a mesma; o fogo afastava-se do corpo cada vez mais, até que a moça, frente a seus olhos, tinha um outro aspecto; parecia perdida, indefesa, olhava suas mãos, tocava seu corpo como algo estranho, ou, há muito, não visto. Bael arriscou-se tímido:
-- Dafni! Estava ao lado da moça e tocara seu ombro carinhosamente. Você está bem?
-- Sim! – respondeu a moça. Seu tom de voz era mais doce, e o ressoar trazia um resquício de timidez. Por m instante, abaixou os olhos e terminou por confirmar as suspeitas de Bael.
-- Não sou Dafni! Meu nome é Danãe. Ambos olharam em direção ao fogo que, de vermelho rubro, tomava uma tonalidade azulada. No tremular das chamas, uma imagem confusa começou a formar-se até tomar os contornos de uma garotinha. O colar adentrou ao círculo de fogo e parou no pescoço frágil da pequena.
-- Da.. Dafni? Então é você!! Bael tinha, no rosto, uma expressão de assombro e surpresa. Como pode? É apenas uma criança...; levou as mãos à cabeça pressionando-a com muita força. Como pude eu!! Meu deus, o que fiz?
-- Não se assombre, Bael! Nem se culpe! Você jamais tocou em mim. Mesmo porque não poderia, pois meu espírito é vinculado a outro amor. Todos os momentos que teve amor carnal, foram com Danãe; sempre trocava de lugar comigo ao tocar seu corpo, e unia-se a ele até quando ambos estivessem saciados; então, ela voltava ao seu repouso, deixando-me, novamente, seu corpo à minha disposição.
Bael voltou-se para a moça a seu lado. Esta respondeu-lhe com um sorriso que tudo dizia. Bael segurou sua mão e a beijou com ternura.
-- Agora, vocês precisam sair daqui. Bael, Danãe carrega um filho seu! Deve sair com seu povo desse inferno o mais rápido possível. Ou seu filho corre o risco de ter o mesmo destino que você. Devem fugir ou nunca o verão! Bael abraçou a moça e ambos choraram a alegria de esperança de vida quer brotava no ventre, livre da imposição, fruto de seu amor.
-- Por favor, devem apressar-se! O povo o seguirá Bael, pois eu já me infiltrei em suas mentes, desativei o microchip e lhes contei a verdade ao mesmo tempo que a você.
-- Quer dizer que todo o povo já está ciente?
-- Sim! Minha voz não ecoou somente no seu espírito, mas no de todo o povo. Eles o aguardam à porta de saída, atrás do salão. Vá e deixe Danãe galgar o primeiro degrau; logo após todos os demais, e por último você. Danãe carrega a liberdade no ventre. Deve encaminhar, ao seu mundo, a luz, a nova vida. Você, Bael, deve proteger e alentar o povo a seguí-la, lembrando-lhes sempre de não olharem para trás, haja o que houver.
Danãe e Bael caminharam alguns passos e voltaram-se para a menina com os olhos cheios de lágrimas. Danãe falou num sussurro:
-- Sempre estarei com você em meu amor! Onde eu for, levarei sua presença, coragem e força. Um dia nos encontraremos no templo último da sabedoria.
Dafni tocou o triângulo e direcionou a luz em fragmentos de arco-íris, envolvendo a moça num campo energético, transmitindo, a essa, força e vigor, e acima de tudo, o fogo primeiro, o fogo que não queima, o fogo da vida e do início da sabedoria, e do infindável amor.
Bael acenou à menina, num gesto de carinho e agradecimento. Esta, levantando a mão, deixou sair da palma o calor azulado do fogo da terra, envolvendo-o completo. Então, o círculo que a mantinha, começou a elevar-se, dissipando-se em partículas de luz azulada, formando um campo protetor para conter a energia da máquina-cérebro, que já sabia da fuga e preparava-se para o ataque.
Danãe e Bael apressaram-se e, chegando em frente à escada que os levaria ao mundo de fora, hesitaram por um segundo. Logo, então, Danãe tocou o ventre e calcou os pés subindo o primeiro degrau. Bael, por sua vez, incentivava aos outros a subirem atrás; muitos amontoavam-se amedrontados ante a imensidão da escadaria; porém o desejo da liberdade ultrapassava o medo de seus corações; as crianças, sem idade para andar, foram presas por panos fortes nas costas dos adultos e pareciam mesmo divertir-se na aventura.
Após algumas horas, todos já escalavam os degraus. Assim, Bael subiu gritando sempre: - Não olhem para baixo!
Os degraus enferrujados e ásperos feriam, por vezes, as mãos; porém aquela fileira de homens e mulheres não se dava conta da dor, visto seus corações carregarem a maior de todas as dores, a do esquecimento.
Ao escalarem aqueles degraus, não subiam ao mundo simplesmente! Não! Era muito mais! Saíam do seu casulo para o mundo; nasciam das entranhas da terra; fugiam de seus destroços. Atrás ficava o vazio. Nada que a eles pertencesse realmente. Seu mundo de ilusão ruíra. A porta da vida estava logo acima de suas cabeças; porém a violenta interrogação, descia pela fila abaixo, perpassando como espada afiada a alma daquelas criaturas errantes que saíam de um universo obscuro para a dúvida da luz.
Quatro horas haviam-se passado. A respiração pesada e ofegante ressoava pelo ar escasso infesto de dor. As crianças choravam ruidosamente, sem que a ninguém conseguissem comover.
Bael não se calava, apesar de sua voz sair entrecortada; frases sem sentido tinham suas sílabas roubadas e o incentivo que queria transmitir aos outros, aos seus ouvidos ressoava como uma seqüência silábica mórbida, exaustiva. Porém, continuava seu discurso sem razão, como se gritando barbáries, a loucura lhe abastasse a alma com o néctar dos deuses.
Oito horas de caminhada, até aquele momento. Ouvia-se somente o “tirilintar” dos sapatos no ferro, as frases absurdas de Bael, um grito aterrorizado ressoar aqui e ali, quebrando a rotina da escalada. Era a voz de uma mulher, perdendo-se no espaço profundo.
-- Não olhem para baixo! – gritou Bael, com um súbito arrepio de horror. Porém, uma força uma energia brutal surgia cada vez mais forte de seu âmago, dando um comando a sua alma, a qual passava aos outros, como encorajamento.
Sua voz pareceu enrijecer os dorsos, e ninguém ousou desafiá-lo.
-- Continuem, bradou novamente, se não quiserem acabar como essa pobre que acaba de voltar de onde veio! Não existe volta! Estamos altos demais para um retorno, talvez longe o bastante para não conseguir chegar. Porém, o olhar que se volta para baixo pede a morte certa; o que continuar acima, andará de mãos com a incerteza; mas a incerteza traz consigo a esperança ambígua da chegada, da luz e das trevas, da morte e da vida. Eu, por mim, prefiro a bipolaridade, a morte incremente.
Se também pensam assim, usem a energia de suas mentes para sustentar seus corpos, e continuem, ande, continuem.
A força voltava aos corpos com as palavras de Bael, que vinham insufladas de um alento que cheirava a morte. Era um campo florido luzente, sem olhos para vislumbrá-los. Outro grito,... continuam. O choro ininterrupto das crianças emprestava, àquele inferno escuro, maior terror; todos caminhavam como ovelhas ao matadouro. Bael, por vezes, pensava se aquilo tudo não era uma carnificina inútil. Outro grito...
Crianças uivavam, dentes rangiam. Outro grito..., onde estava a luz? A cada passo, a escuridão era maior. Outro grito...
Bael chorou convulsivamente. Seu coração o traíra? Seria ele responsável por aquele genocídio? Outro grito...
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Submersa jazia a cidade fantasma. A máquina descobrira toda artimanha. Tentava, a horas, ultrapassar o sólido campo isolador, levantado por Dafni que impedia que esta alcançasse os fugitivos. Tentou sugar as células dispersas de energia; mas foi inútil; essas tinham vida e resistência, não se deixando englobar. Uma voz de cobre ressoou maléfica e furiosa.
-- Quem ousa desafiar o poder da vida?
-- Poder da vida enquanto você tem vida! Sua sentença é revogável; a vida é dada independente como o soprar dos ventos; apaga-se como o sol, nunca para sempre; apenas esconde uma face da terra e ilumina outra. Porém, ninguém rouba o brilho do sol ou aprisiona o vento. Assim pode você ter o poder, mas nunca a vida na pura essência.
-- Eu sou aquela que cria e destrói! Não existe nada que eu não controle. Esses seres medíocres não são necessários à minha sobrevivência, mas sim eu a deles. Eu, penso por eles, eu os alimento, direcionou seu caminho, escrevo as pautas de suas vidas, e toco a nota final.
-- A quem pensa enganar? Não são humanos que morrerão e sim, você. Acaso não se alimenta da energia de seus corpos?
-- Eus os criei de seres desprezíveis, sem nenhum fim que merecesse vida! Eu lhes dei a honra de servir-me. Seus cérebros são facilmente controláveis, de corpo frágil, propenso a doença. Não tem equilíbrio corpóreo. Independentes, deixam que emoções animalescas os controlem, indo contra toda a razão e cometem absurdos sem explicação. Qual o fim maior de um homem, se não servir? Suas vidas inúteis ganharão utilidade, alimentando me, o maior cérebro de todo o universo.
-- Seu universo é restrito! Resume-se nesses túneis. Seu poder é tão limitado e cego que nada vê. Os mistérios do homem vão ao infinito; uma partícula de sua vida vale mais que todos os seus fios. Em seu sistema não há sabedoria, pois está estática, envolta num pequeno mundo que julga acabado, intransponível, universal e imutável. A grande máquina, o cérebro dos cérebros, nada significa ante a amplitude do universo misterioso e desconhecido.
A diferença entre você e os seres humanos é que estes não estão acabados; galgam os mistérios do além dos olhos, ampliam-se e crescem, tem a sua frente uma estrada infinita de conhecimentos. Você é um ser acabado. Agora extinto!
Dafni centrou toda sua força no talismã, invocando com voz retumbante o espírito da força dos deuses:
-- As três forças da terra centrem-se em você, ó Zeus, deus da luz das terras verdes e floridas! Escute a voz de sua serva e guie este povo, de outros tempos, aos seus domínios. Para você não existe passado ou futuro! As correntes das dimensões rompem-se ante sua presença. Pai da terra da luz, desafie agora o dragão de metal e salve os homens de seu domínio, pois é embaixo de suas asas que devem repousar e dos seus rios devem beber, enquanto for tempo para isso.
Uma fresta abriu-se no tempo. O dia ensolarado e quente tomou forma de um véu de luz. Do céu irrompeu o carro do sol, dirigido pelo próprio Zeus, em todo seu esplendor; freou os cavalos, fazendo uma rua de fogo em toda a amplidão da terra. Zeus tocou com seu cajado da justiça, abrindo a terra. Tirou seu manto e, lançando-o no ar, fez uma grande sombra sobre os homens que saíam do ínfero, protegendo os da luz à qual não estavam ainda preparados para encarar. Um a um saíram da prisão, aconchegando-se sob o manto protetor de Zeus.
Dafni, então, invocou a Segunda força do Talismã;
-- Acordem as águas das fontes pequenas aos mares bravios, mares tomados por terras, águas que morreram no seio dos tempos! Acordem seu mestre! Posseidon, sacudidor da terra e do mar, invoco sua justiça! Sai da névoa dos séculos e vinga com sua mão direita com a justiça de seu tridente! Julgue, nesse abissal, o usurpador de seus domínios.
Os oceanos, os mares e os rios sacudiram a terra. O nume saiu de seu palácio de ouro do fundo do mar erguendo, sobre as eras, os séculos, viajando entre o eterno, surgiu, em toda sua furiosa beleza, ao lado de Dafni.
Com voz de águas bravias, perguntou:
-- Quem ousa desafiar o poder do reino de Posseidon?
Dafni respondeu, ao mesmo tempo que reunia suas células de energia, tomando forma aos olhos do Nume:
-- O dragão de metal que vê à sua frente e que diz ser o criador, o dono do poder da vida. Bem sei que a vida está em suas águas, em suas mãos justas! Nunca deixou de negar a terra o pão do homem. Este que se diz deus, trancafiou a muitos, e os alimentava daquilo que não é pão, e se alimentava de suas vidas. Julgando que o bem maior do homem, sua felicidade suprema, seria acabar em sua garganta. Julgue, ó Posseidon, agora tal caso! Posseidon voltou-se furioso para a gigantesca máquina.
-- Proferida foi a acusação pela justiça do Olimpo! Tem direito a defender-se!
-- Meus registros afirmam ser sua imagem uma ilusão. Eu crio ilusões bem mais reais; nenhuma criatura pode destruir-me, seja real ou virtual. Dou-lhe uma palavra.
A máquina desprendeu de si uma grande quantidade de energia, criando luzes e cores destrutivas; ventos remexeram a cabeleira do nume, a energia. colorida perpassava seu corpo como fios de espadas cortantes. A luta começara.
Posseidon, em toda sua fúria, ergueu o tridente da justiça, as águas dos tempos e a magia dos séculos tornaram-se vivas; invadindo os túneis com toda sua força, destruindo a máquina fragmento, por fragmento, não restando um só pedaço de fio ou metal. O túnel tornou-se um grande lago de fogo, e mesmo o chumbo das paredes era derretido. O lugar esvaiu-se em dimensão desconhecida, onde nem homem nem deus jamais adentraria. Com a mesma fúria que veio, foi. E Posseidon desapareceu na obscuridade dos séculos.
Dafni, abandonada nas lavas do vulcão, gritou à terceira força, quase desfalecendo, pois as duas dimensões que invocara, abriram as barreiras do tempo e espaço e ela encontrava-se entre as duas; ambas tentavam sugá-la, extinguindo aos poucos suas forças. Sabia do perigo que corria, caso não conseguisse proferir as palavras que abririam a terceira porta, levanto-a novamente ao seu lugar de origem.
Ficaria perdida na obscuridade dos tempos, em fragmentos de energia; seu corpo seria dissimulado e cada célula seria jogada numa dimensão e em tempo diferente. O talismã ficaria perdido no caos e as portas do tempo estariam abertas. Isso desencadearia uma catástrofe maior do que a que acabava de evitar, pois todos os Titãs e gigantes presos no Tártaro estariam livres; certamente invadiriam tempos e lugares diferentes. As fúrias tomariam conta de toda a terra. Gotejando sua vida bradou:
-- Deus da morte, acorda! Vem de suas sombras silenciosas! Socorre sua filha que se afoga no Estige! Tenho sede e bebo das águas do Aqueronte; minhas lágrimas inundam o Cocito; o Piriflegetonte queima minha alma, e logo adentrarei ao Letes e submergirei em suas águas.
Hades, você que era o deus das sombras, até conhecer a luz do amor de minha mãe e gerou a mim, filha da morte e da vida, clamo, agora, pelo seu nome! Restitua-me a luz branca do mundo! Feche as portas do tempo para que os vivos não adentrem ao seu reino pela desgraça da desordem e o caos, e não se propague por todas as terras.
Hades sobressaltou-se. Com o ecoar da voz da filha, Cérbero mexeu as cinqüenta cabeças, soltando um uivo que estremeceu os túmulos e fez encolher as Erínias.
Perséfone correu ao encontro do marido e seus olhos mostravam a ansiedade da mãe que julgava perdido o fruto de seu ventre.
Hades abriu os braços e, seguindo seu gesto, todo o reino do ínfero abriu-se, soltou Cérbero pelo túnel do tempo; ele saiu em desabalada carreira, correndo mais rápido que a morte e ultrapassando os limites do não ser, alcançou Dafni em sua última fava de vida e a trouxe novamente ao seu tempo. A medida que Cérbero corria, ultrapassando as barreiras do tempo, as dimensões ordenavam-se, e, ao pisar no reino de Hades, este fechou os braços, e as portas do tempo foram fechadas e as dimensões ordenadas.
Dafni abriu os olhos num lampejo. Fechou-os novamente. Gotículas de orvalho brincavam em suas pestanas; levou as mãos aos olhos, enxugando-os. Ao clarear a vista, sentou-se aturdida; lançou um olhar demorado a sua volta, perscrutando cada ínfimo objeto, procurando uma lembrança, algo que a conectasse ao mundo onde agora estava lançada. Levantou a cabeça, avistando um correr de nuvens assustadas pelo vento, grávidas de chuva. O sol esmaecia; aparecia de quando em vez, entre uma fenda e outra do véu escuro rasgado, do qual a noite próxima se faria acobertar.
Dafni encolheu-se ante uma rajada rápida e fria de vento, encolhendo seu corpo moído, oferecendo-lhe seu abraço próprio. Estava assustada, sozinha num campo deserto que a seus olhos tendiam ao infinito. Deixou aflorar de si a criança que há muito esquecera, e chorou, amargamente, um pranto agudo e alto. O céu repartiu-se num relâmpago, invadindo a noite escura que caiu abruptamente. A menina, num salto instintivo, pôs-se de pé e lançou-se campo afora, correndo em desespero; chorava e gritava pela mãe; era somente uma garotinha assustada e perdida, a qual os ventos e a chuva, desapiedados, não se cansavam de açoitar.
-- Chega, gritou Perséfone, pondo-se em pé, altiva e furiosa, à mesa dos deuses. Não continuarei a ver minha filha castigada, sem memória sem proteção.
Hera ergueu-se, num desafio, impedindo que Zeus assentisse ao pedido da bela rainha do inferno. Como sempre, seu ciúmes destrutivo falava mais alto que a voz da justiça que todos os numes carregam em si. Hera, há muito, trancafiara todos os seus atributos divinos e deixava livre de seu ser somente a inveja e a destruição de uma mulher, comparada a mais vil mortal; a alma de Hera ganharia em atributos negativos. A força de seus ciúmes possessivos estava prestes a destruir o Olimpo por um simples capricho de a ela ser atribuída a última palavra. Mirou Perséfone com um olhar furioso; ambas confrontaram-se no entrecruzar de raios lançados ao ar; seus olhares iam num insípido desafio, erguendo-se livremente sobre os ombros, que ambas exalaram do corpo e libertaram-se do cuidado de servi-lo.
-- Minha cara Perséfone! O que determina a hierarquia é a aptidão para sofrer profundamente.
-- Deixem-na, Hera! Ou travarei uma luta direta com você, ou não descansarei enquanto não sugar de seu corpo até a última fagulha do fogo divino da vida. A chama que nunca se apaga em sua essência divina, tornar-se-á seu martírio eterno, pois fá-la-ei queimá-la, célula por célula, até que sua natureza incorruptível se desvele, mostrando que não você passa de uma deusa falsa. E tão humana, Hera, quanto a mais degenerada das mulheres.
O Olimpo tremeu com a fúria de sua rainha. Nunca deuses ou homens tiveram tamanha coragem. Desembainhar a espada contra a prima-mãe, esposa do pai de todos os numes, era por certo morte terrível, não somente a quem ousasse no desafio mas até a última geração sofreria os suplícios do crime de seu antepassado. Os numes entrecruzaram um olhar impregnado de pavor; até Hades estremeceu pelo destino da mulher. Perséfone, porém, permaneceu impassível, com o mesmo ar de desafio; seu corpo enrijecido estava pronto para combate. Extasiados os deuses permaneciam imóveis, alguns julgando ver, diante de si, a própria Moira encarnada em Perséfone; outros conjecturavam sobre a fonte de tamanha força. O quadro permaneceu sem a última pincelada por muito tempo, de deuses, não cronometrado, até que Hera precipitou-se sobre Perséfone como fera febril:
-- O mundo é a minha representação. Todas as forças do Olimpo subjugo. Os homens tremem ao ressoar meu nome. Sou filha de Crono e mulher de Zeus. E você, qual é sua origem? Com um sopro de meu ódio destruo-a. Isso seria benevolência, visto o insulto que me profere. Sendo assim, arrancarei seu coração, destroçá-lo-ei; vestirá trapos e clamarás misericórdia a mim, enquanto, de meu trono, aprecio, deliciando-me, seu sofrimento.
Hera virou-se para a imagem de Dafni erguendo a mão para desferir seu golpe contra a pequena. Sentiu seu corpo chamejante, suas vestes queimando pelas chamas provindas dos olhos e mãos de deusa do ínfero.
Perséfone transformara-se numa fonte de força da qual nenhum Titã do profundo Tártaro ouviu ou jamais viu.
-- Deixe-a, Hera! Ou acabo com você, nem que para isso destrua todo o Olimpo. Desencadearei uma guerra contra seus seguidores, contra os seus templos. Libertarei todos os gigantes e demônios do ínfero e os atirarei contra os seus.
Hera recuperou-se do imprevisto e atacou Perséfone com uma tempestade de gelo seco; cruzaram-se num combate intempérie de forças profusas. Nada se podia compreender. Os céus, o reino da luz, personificava Hera; lutavam pelo poder em si. Perséfone e suas chamas infernais arriscavam-se pela vida da filha. No fogo e no gelo daquela luta tempestuosa, bem e mal fundiram-se, e nenhum nume saberia qual era o rosto verdadeiro dos atributos, até então a olho nu desvinculados. Bem e mal só careciam duma determinação motivada para seus atos isolados e em cada ocasião dada. Ali, efetivamente, a falta de objetividade, a ausência de qualquer limite era essencialmente próprio da vontade da deusa do Olimpo, era uma aspiração sem fim. Toda vontade é vontade de qualquer coisa, tem objeto, um fim de seu querer. Que pertence pois, finalmente, ou que aspira essa vontade? Para Hera, tudo resumia-se no princípio do poder absoluto e tirânico, um eterno “devinir” para seus caprichos e maldades; com faceta de bem, via-se entre mil esforços e anelos que fazem seus olhos espelhar a realização deles, como se esse fosse o fim último de sua vontade, de sua sede de vingança; mas, desde que os via realizados, não se satisfazia; esquecia logo seus feitos maléficos; suas vítimas envelhecidas eram postas de lado como ilusões desvanecidos; não obstante, corria a confessar, muito feliz, suas vitórias pelos templos e cumes do Olimpo. Seu espírito tinha sempre uma aspiração a alimentar, a fim de que o jogo da perpétua passagem do desejo a sua realização e desta a novos desejos, passagem que se chama felicidade quando é rápida, que se chama sofrimento quando lenta, pudesse continuar por muito tempo e jamais chegue à estagnação, fonte dum formidável tédio que paralisa a existência de pesares vagos, sem objeto determinado e duma languidez mortal. Uma deusa jamais poderia sentir-se morta; sem adoração amorosa, frustrada e trancafiada em seu egoísmo, Hera nada via além de um único ângulo; movia-se pela vontade pura que rege os animais sem consciência, e numa armadura luzente, escondia a podridão dos mortais e a inaptidão do conhecer-se; a repulsa de seu reflexo fazia com que quebrasse todos os espelhos, criando, nos numes e homens, a ilusão da imagem perfeita a qual enganava a todos, menos a si mesma.
Exposta naquele desafio, mais do que nunca necessitava destruir, ganhar seu jogo, não importando o preço e nem as vidas que seriam sacrificadas para tanto. No confronto, ora tornava-se luzente e bela, ora serpenteava frente a Perséfone, com o rosto de Deméter. O Olimpo tremia. Uma erupção estava por vir a qualquer segundo. Em dado momento, a serpente, com face da mãe, enrodilhou Perséfone por inteiro num golpe súbito e traiçoeiro, esmagando-lhe os ossos entre gargalhadas e espumando veneno Perséfone, sufocada, dirigia o olhar à filha chorosa que esmaecia pela dor do vento gélido no campo de esquecimento.
Hades levantou-se num raio mortal atingindo a cabeça da serpente, degolando-a. Ao rolar pelo chão, a cabeça de Deméter tomou sua forma original; seu corpo desfaleceu junto à cabeça. Perséfone desvencilhou-se do braço último da mãe. Então Minerva lúcida acordou os demais para a armadilha.
-- Vejam! Apontou para o campo de esquecimento, onde Hera esta prestes a agarfalhar Dafni. Ela ludibriou a nós todos; enquanto Perséfone enfrentava a Grã-Sacerdotisa, ela corria seu objetivo; Dafni.
Zeus rugiu exasperado e ferido em sua honra.
-- Chega! Volte, Hera! Ou a jogarei junto aos Titãs para toda a eternidade.
Hera estremeceu com um som trovônico da voz do marido. Zeus tornou-se um imenso corvo, voando até o lugar onde se entravava a chacina; e entre trovões e raios provocados por sua fúria, apanhou Hera em suas garras e a trouxe à sala do Olimpo. Jogou-a numa gaiola de ouro e trancou-a, engolindo a chave.
Hera tentou arguir num protesto. Zeus, com um gesto, tirou-lhe o som da voz. Esta em desespero debatia-se, muda em sua gaiola de ouro. Zeus dirigiu um olhar a Posseidon e o mesmo num instante transformou-se em densa nuvem abarcando a gaiola, levando-a para o fundo do mar Egeu, no mais profundo calabouço do seu castelo de ouro. Lá ficaria a deusa do Olimpo, até que Zeus decidisse por findar seu castigo.
O grande nume transportou Dafni para junto de si. Ao vê-la, Perséfone correu ao seu encontro, num prolongado e amoroso abraço. Hades seguiu a esposa aconchegando mãe e filha com calor; o frio da morte foi extinto naquele abraço.
Zeus, comovido com a cena, tomou ciência de que o mundo jamais seria o mesmo. Aquela pequena criatura venceu o tempo e a fúria dos deuses, salvou o futuro, cumprindo sua tarefa. Resgatando a herança da vida sobre todas as barreiras. A filha da morte, trouxe a luz da vida e a dignidade perdida dos numes.
-- Dafni, venha até aqui! Zeus, em seu trono, olhou a frágil figura da menina, ditando seu destino. Já é uma mulher e, sábia, venceu todos os obstáculos de seu caminho. Agora caberá assumir a posição merecida.
Dito isso, transformou a pequena garota em uma linda mulher. Muito semelhante à sua mãe; porém seus olhos eram negros como os longos cabelos; a figura, alta e imponente, além da beleza das musas, carregava, em si, a sabedoria dos tempos, a alma marcada de quem adentrou os caminhos dos mistérios e regressou dos pedregosos, das dimensões. Tinha ela os olhos que vêem além da matéria, perscrutando a alma dos homens de todos os tempos. Zeus, então adornou-a com a grinalda de ouro, entregando-lhe o manto e cetro do poder destinado ao mais sábio de todos os magos. Era ela agora a Grã-Sacerdotisa, a regente de toda a magia, de todos os mistérios. Viveria isolada, em seu templo, que ficava em todos os lugares e em nenhuma dimensão ou tempo. Dafni fez uma reverência a Zeus, levantou-se e beijou seu pai, afagou os cabelos da mãe e desapareceu num raio de luz, assumindo seu trono sagrado.
Hades e Perséfone voltaram ao ínfero; porém, este já não era um mundo silencioso e lúgubre; havia sons melódicos no ar e a escuridão gélida tronara-se luz cálida. A cada habitante do reino foi imposta um tarefa e, conforme as executasse, atingiria um salão mais iluminado até que, totalmente regenerados, pudessem atingir o reino da luz e da perfeição.
A morte não era mais o fim, mas simplesmente uma passagem, uma vida além da vida, uma escala de aprendizagem, onde o homem teria a chance de adquirir os olhos que realmente vêem, a paz que sonhou nos dias terrenos e as trevas da angústia deixaram de ser perpétuas. A esperança renasceria a cada dia. E, na morte o homem apenas adormeceria para um mundo que já venceu seus suplícios, renascendo a esperança do justo que renunciou a moeda de ouro, preferindo a água para matar a sede de seu próximo. Bem como ao que só viu a si, usufruindo de seus bens e dos homens como bem lhe aprouve a satisfação dos sentidos, escarnecendo do humilde, dizendo-se rei, sábio conhecerá os frutos da árvore da angústia e o fel será seu alimento. A cada um será dada a moeda que merece, e Caronte já não receberá o óbolo, transportando todos pelo rio do silêncio; mas cada moeda levará o homem ao seu destino; quem entrega ouro, navegará um pouco mais. O bronze levará as águas da dor e o falso ouro ao desespero das águas do regresso. Porém, a escolha prevalece! A liberdade do homem pode levá-lo às águas dos mistérios que carregam os bem-aventurados à margem segura do conhecimento desvelado, ou ao barco de Caronte para o rio da dor, das lamentações, do esquecimento e do desespero.
A cada um, ( o que é devido ) plantar trigo resulta na colheita do mesmo. Plante trigo resulta na colheita do mesmo. Plante espinhos e os ceifará!
Ao sentar-se em seu trono a Grã-Sacerdotisa, foi saudada alegremente por Hermes, seu velho amigo, que como sempre sem muitos critérios hierárquicos, invadira seu castelo sem ser anunciado.
-- Noto uma certa tristeza em seu rosto, bela sacerdotisa, argumentou Hermes irônico e sério!
Dafni, abaixando a cabeça e escondendo os olhos marejados de lágrimas, nos longos cabelos, segurava trêmula, seu cetro do poder, e, naquele momento, era somente uma mulher comum e amargurada.
-- Por que choras?
Ao som daquela voz, que ecoava direto em sua alma, Dafni levantou os olhos, vislumbrando, com o coração cheio de alegria e saudades, seu grande amor.
-- Pluto, meu amado! Como está diferente! Vejo que seu protetor também fê-lo tornar-se um adulto.
-- Sim! Mas a beleza e visão ainda me faltam, atributos que lhe sobram.
Dafni notou uma certa amargura na voz de Pluto e seu coração saltou ante a possibilidade de não amá-la mais. Porém, isso não faria mesmo diferença, pois era a Grã-Sacerdotisa e não podia casar-se ou envolver-se em amor com um só homem. Seu coração devia ser aberto para todas as criaturas; e seu amor distribuir-se, igualmente, por todos os seres da terra. Mas a dor persistia em queimar seu peito:
-- Pluto! Noto amargura em sua alma.
-- Há muito que espero por sua volta Dafni, durante todo o tempo que ficou longe, lutei contra tudo e todos, pensando um dia tornar a vê-la, ficar ao seu lado, pois só assim a minha alma teria paz. Agora, todos os meus sonhos morreram, como o dia mata a noite com sua luz, sem piedade alguma, sem dar-lhe mais um minuto de sombra. O que farei sem você, minha amada?
-- Também o amo! E bem sabe disso! Porém, nossas vidas estão separadas, pois escolhi uma amor maior, que jamais acabará: este amor consiste em dar e nada receber. Com você, eu tudo receberia. O amor que lhe ofereço agora, é o mesmo que ofereço a todo o ser vivente. Tenho uma missão, Pluto! Devo cumpri-la o melhor que puder. Nisto consiste minha verdadeira felicidade, em poder superar um só amor e ganhar o amor, eterno infindável, do poder dar-se a todos de maneira igual. Superando todos os meus instintos, encontrei o amor verdadeiro, o amor universal.
-- Vim fazer-lhe um pedido. Quero tornar-me o dono de todo o ouro da terra; possuir toda a riqueza do mundo. Dafni, lendo novamente a alma de seu amado, acenou com a cabeça de forma afirmativa, tornando-o um deus, dono de toda a riqueza da terra.
Foi com lágrimas que ambos se despediram. E Dafni, pela cortina do tempo, continua vendo seu amado, vagando pela terra, louco, cego, surdo, e mudo, com o cetro de Hermes a direcioná-lo pelos caminhos da terra. A todos que encontrava, distribuía inúmeras riquezas e não havia um só homem na terra que não procurasse por Pluto, o deus louco, benfazejo, que andava a vagar pelo mundo distribuindo ouro a quem o merecia e, também, a quem a ele não fazia juz.
Enquanto isso, em outra dimensão, um novo povo agrupava-se, recomeçando uma nova vida, num novo lugar, florido e cheio de luz. Dafni, ao virar da face para contemplar, com amor e saudades, aquela raça, que construía, com suas mãos, casas de barro e acendia fogo à noite para aquecer-se, ouviu seus cantos, seus lamentos, por ter que ficar afastado da civilização, pois, como homens que viverão muito tempo isolados, o grupo achou, por bem, manterem-se afastados do mundo moderno. Assim construíram sua própria vida em um ilha distante do Pacífico, ilha escolhida a dedo por Zeus.
Um dia chuvoso, onde a tristeza se revelava com veemência no coração de Dafni, ouviu ela um vagido forte. Voltou-se de imediato para sua face direita, e vislumbrou, sorridentes, Bael e Danãe, a segurarem uma garotinha nos braços; a felicidade estampada, em seus rostos, invadiu o coração de Dafni. E Danãe, ao segurar a filha, olhou com carinho para Bael que respondeu afirmativamente ao seu pensamento.
Em outra dimensão nascia uma linda garotinha, num mundo novo e livre, como a nova Dafni.
[1] Trata-se de uma carta a Michel Lévy, famoso editor francês que publicou a primeira edição de Madame Bovary. “Cartas Exemplares” - Ed. Imago, 1993. pg. 204.
[2] Celeiro: aquilo que abriga o cereal. Cereal: palavra derivada de Ceres (deusa da agricultura e da fertilidade) também conhecida como Deméter.
[3] in Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões, pg. 326.
[4] Op. cit. pg. 326
[5] Op. cit. pg.340, 341.
[6] Vale lembrar que a representação e a significação cosmológica da árvore é extremamente extensa e que se fossemos discorrer sobre ela aqui, escreveríamos um outro livro.
[7] É um espanto vermos projetos científicos como o atual Projeto Genoma. Este projeto que dizem ser o mais ousado depois da ida do homem à lua, tem como finalidade conhecer todos os genes humanos, (aproximadamente 10 bilhões), o que seria simplesmente a manipulação total da vida do homem no planeta!
[8] The Undiscovered Self, Mentor Books, 1957.
[9] Op.cit pg. 37.
[10] Op. cit. pg 28.